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Atraso na moagem pode deixar até 54,5 milhões de toneladas de cana-bis no Centro-Sul

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Consultoria projeta moagem entre 622 milhões e 643,3 milhões de toneladas em 2026/27 e estima produção de até 40,37 milhões de toneladas de açúcar na próxima safra

A safra 2026/27 de cana-de-açúcar no Centro-Sul do Brasil poderá terminar com até 54,5 milhões de toneladas de cana-bis, diante das dificuldades de avanço da colheita provocadas pelas chuvas. Segundo projeções apresentadas por Nilceu Cardozo, da Canaplan, durante a 2ª Reunião de 2026 da consultoria, o volume efetivamente processado pelas usinas poderá variar entre 622 milhões e 643,3 milhões de toneladas, dependendo das condições climáticas e do ritmo das operações nos próximos meses. Para a safra 2027/28, as primeiras estimativas apontam moagem entre 623,2 milhões e 639,6 milhões de toneladas.

A Canaplan estima um potencial de 676,5 milhões de toneladas de cana disponíveis para a atual temporada. Entretanto, as condições climáticas e o atraso na colheita poderão impedir o processamento integral desse volume. No cenário de menor moagem, de 622 milhões de toneladas, aproximadamente 54,5 milhões de toneladas permaneceriam nos canaviais. Já no cenário de 643,3 milhões de toneladas processadas, a cana-bis seria reduzida para 33,2 milhões de toneladas.

Segundo Cardozo, o atraso nas operações já aparece nas projeções para o fechamento de outubro. A participação da safra colhida até o final do mês poderá alcançar 80,3%, ante uma referência histórica de 88,6%. A diferença representa um atraso de 8,3 pontos percentuais em relação ao comportamento histórico.

O cenário está relacionado ao volume elevado de precipitações registrado no Centro-Sul. Entre abril e setembro, as chuvas acumularam 472 milímetros, ante 220 milímetros no mesmo período da safra anterior e uma média histórica de 273 milímetros. O excesso de precipitação dificultou o avanço da colheita, mas também favoreceu o desenvolvimento vegetativo dos canaviais.

Conforme os dados apresentados pela Canaplan, a produtividade agrícola, inicialmente estimada em 81,2 toneladas por hectare, alcançou 85,4 toneladas por hectare na avaliação apresentada com referência ao início de outubro, avanço de aproximadamente 5,2% em relação à projeção anterior.

Entretanto, o ganho de produtividade veio acompanhado da redução na qualidade da matéria-prima. O ATR, antes projetado em 135,11 quilos por tonelada de cana, ficou em 129,80 kg/t, cerca de 3,9% abaixo da estimativa inicial. Segundo a Canaplan, o indicador representa o menor patamar em 20 anos, refletindo uma combinação de fatores, como o excesso de umidade, o tombamento dos canaviais, o aumento das impurezas vegetais e o atraso na moagem.

Cardozo explicou que o comportamento das chuvas cria um cenário de efeitos distintos para o setor. Enquanto a maior disponibilidade hídrica favorece o desenvolvimento da cana e sustenta a produtividade agrícola, também reduz o número de dias disponíveis para a colheita, ampliando o risco de que parte da matéria-prima permaneça nos canaviais ao final da temporada.

Próxima safra poderá produzir mais de 40 milhões de t de açúcar

Para a safra 2027/28, a Canaplan apresentou cinco cenários preliminares de produção no Centro-Sul, considerando uma área de colheita de 8,2 milhões de hectares e diferentes níveis de produtividade agrícola, entre 76 e 78 toneladas por hectare.

As estimativas indicam produção de cana entre 623,2 milhões e 639,6 milhões de toneladas. Considerando um mix de 50% destinado ao açúcar, a produção do adoçante poderá variar de 39,33 milhões a 40,37 milhões de toneladas.

O cenário intermediário prevê 631,4 milhões de toneladas de cana, com produtividade de 77 toneladas por hectare e ATR médio de 138 kg/t. Nessas condições, a produção de açúcar alcançaria 39,85 milhões de toneladas.

Apesar do potencial produtivo, Cardozo alertou para os efeitos que o prolongamento da safra atual poderá provocar no ciclo seguinte. Segundo ele, a presença de cana-bis não significa necessariamente maior produtividade, uma vez que o envelhecimento dos canaviais, as condições climáticas e a redução do período de desenvolvimento das plantas poderão comprometer os resultados agrícolas.

Ao analisar ciclos anteriores de El Niño, Cardozo destacou que a presença de cana-bis não garante ganhos de produtividade na temporada seguinte. Segundo a apresentação, o comportamento das chuvas, as temperaturas elevadas e as condições dos canaviais podem comprometer os resultados agrícolas, mesmo quando há maior disponibilidade de matéria-prima.

A estratégia de colheita será outro fator importante para 2027/28, especialmente diante da possibilidade de prolongamento das operações entre dezembro e março. Além das dificuldades relacionadas ao período chuvoso, a extensão da safra pode aumentar o pisoteio e a compactação do solo, provocar o arranquio de soqueiras e reduzir o tempo disponível para o crescimento dos canaviais destinados ao próximo ciclo.

Cardozo também chamou a atenção para os riscos associados às temperaturas elevadas e às mudanças no regime de chuvas provocadas pelo El Niño. Segundo ele, a próxima safra poderá começar com níveis elevados de produtividade, mas o comportamento climático ao longo do ano será determinante para a manutenção desse desempenho.

Nesse contexto, o especialista destacou que o aproveitamento da cana remanescente exigirá atenção das usinas ao planejamento das operações agrícolas. Ao comentar os desafios para 2027/28, Cardozo resumiu a preocupação com uma expressão: “A cana-bis vai ser um osso a ser roído no ano que vem”.

Natália Cherubin para RPAnews

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