Calcário em cana

Mais do que estabilizar os solos, a calagem é fundamental para facilitar a absorção de nutrientes pela planta e aumentar o seu potencial produtivo

Natália Cherubin

No Brasil, a maioria dos solos são ácidos, destacando-se aqueles sob vegetação de Cerrado. Caracterizados por possuir baixos teores de Ca2+ (cálcio) e Mg2+ (magnésio), além de teores elevados de Al3+ (alumínio) e uma baixa disponibilidade de P (fósforo), estes solos possuem uma acidez natural proporcionada por diversos fatores, como material de origem com baixo teor de cátions básicos e precipitação pluvial maior que a evapotranspiração, o que acarreta na lixiviação de bases no perfil do solo, um processo de perda de minerais.

Além de reparar os danos e estabilizar os solos, o calcário desempenha um papel fundamental no desenvolvimento das culturas, desencadeando diversas reações no solo de caráter benéfico às plantas como, por exemplo, o fornecimento de cálcio e magnésio para a cultura. O cálcio, por exemplo, é um elemento essencial para o desenvolvimento do sistema radicular, portanto, com a calagem, nome dado a aplicação de calcário ao solo, é possível aumentar a quantidade de terreno explorado, melhorando a nutrição geral das plantas e diminuindo os efeitos de secas prolongadas e veranicos.

Além disso, fazendo a calagem, é possível aumentar a disponibilidade de nutrientes, principalmente do H2PO4, conhecida como dihidrogenofosfato ou fosfato diácido, fonte de K (potássio) e P (fósforo), que serve basicamente para preparação de soluções nutritivas, adubação e correção de deficiências do solo. A calagem é realizada com a aplicação do calcário no solo, que deve ser realizado em área total, à lanço e incorporado em até três meses antes do plantio da cana-de-açúcar. A principal finalidade desta prática é a correção da acidez do solo e do fornecimento de Ca e Mg.

O nível de acidez é medido através do índice de pH. A sigla, que significa ‘potencial hidrogeniônico’, consiste num índice que indica a acidez, neutralidade ou alcalinidade de um meio qualquer. O pH é uma característica de todas as substâncias determinadas pela concentração de íons de hidrogênio (H+). Quanto menor o pH de uma substância, maior a concentração de íons H+ e menor a concentração de íons OH-. Os valores de pH variam de 0 a 14. De acordo com informações do Sindicalc/RS (Sindicato das Indústrias de Calcário do Rio Grande do Sul), quanto maior o pH do solo, ou seja, até 6 e 7, mais fácil será a germinação das sementes. Isso porque, com o pH alto, as raízes retiram do solo o máximo de macro e micronutrientes.

As reações que o carbonato de cálcio sofre no solo permitem que o H+ (substâncias ácidas) presente no solo seja neutralizado, elevando o pH. Como consequência, esta alcalinização promove o aumento da saturação de bases (V%), ou seja, porcentagem de nutrientes catiônicos (Ca, K e Mg) que ocupam a CTC (Capacidade de Troca de Cátions) e promove a redução do alumínio tóxico presente no solo, uma vez que este reage com as hidroxilas (OH-) liberadas e passa a se apresentar em uma forma precipitada (AI (OH)3), permitindo o correto desenvolvimento do sistema radicular da planta. “A finalidade da calagem é corrigir o pH do solo quando este estiver ácido e elevar para níveis adequados (+/- 6,5), onde a maioria das culturas manifestam o máximo potencial produtivo”, explica Ronaldo Cabrera, engenheiro agrônomo, doutor em Agronomia e consultor em Solos e Nutrição Mineral de Plantas.

Além de elevar o pH e neutralizar o alumínio tóxico e fornecer cálcio e magnésio, a calagem traz outros benefícios:

– Neutraliza o manganês em excesso;

– Melhora a disponibilidade de fósforo para as plantas, reduzindo as perdas deste nutriente;

– Melhora a disponibilidade dos micronutrientes molibdênio e cloro;

– E melhora a atividade microbiológica do solo, favorecendo os nutrientes nitrogênio, enxofre e boro, que estão muito ligados à matéria orgânica do solo.

Ao elevar o pH, reduz-se a disponibilidade dos micronutrientes metálicos, como zinco, cobre e manganês, que devem ser monitorados dentro de um programa de fertilização balanceada.

“Além de neutralizar o alumínio, a calagem forma uma camada de impedimento químico para o crescimento das raízes, bloqueia a acidez dos adubos acidificantes, aumenta a atividade dos micro-organismos do solo, aumentando assim, o aproveitamento dos adubos e melhorando o perfil do solo, o que faz com que haja um aumento na profundidade das raízes. Todos esses benefícios fazem com que no final, um aumento na produtividade e no lucro seja percebido”, explica Artur Cesaretti Pereira, engenheiro agrônomo e coordenador Comercial da Calcário Itaú.

FERRAMENTA A FAVOR DA PRODUTIVIDADE

A cana-de-açúcar também vem sendo beneficiada pela calagem. Com benefícios diretos e indiretos, o calcário, ao controlar o pH do solo, proporciona um aumento de produtividade e longevidade da planta. Segundo Cabrera, o bom rendimento de uma plantação de cana passa, inevitavelmente, pela saúde ou não do solo. “Por exemplo, o potencial produtivo da cana-de-açúcar ultrapassa 350 t/ha e a média nacional está abaixo de 75 t/ha. Então, a correção do solo e a fertilização são práticas que tem muito a contribuir para o aumento da produtividade desta cultura. ”

O coordenador Comercial da Calcário Itaú acrescenta que a calagem faz com que o solo tenha melhores condições para o crescimento das raízes da cana. “Além disso, o uso da técnica ainda fornece os micronutrientes como cálcio e magnésio, que são requeridos em grandes quantidades pela cana. Consequentemente, a cultura alcançará maiores produtividades”, relata. Quando o pH da cultura está baixo significa que o solo é muito ácido e muito tóxico, e que as plantas terão muita dificuldade em se alimentar dos nutrientes que elas tanto precisam para se desenvolver. Em resumo, a produtividade de um solo com pH baixo será também muito baixa.

Segundo o Sindicalc/RS, a quantidade de calcário por hectare varia de acordo com o maior ou menor grau de acidez do solo. Este grau de acidez é determinado no laboratório. Por isso é essencial que se faça a análise do terreno, a qual auxiliará na definição de qual é a quantidade ideal que deve ser aplicado por hectare. Vale destacar que o uso do calcário não dispensa a adubação e sim auxilia no aproveitamento dos adubos pelas plantas e, com isso, a atividade se torna mais eficiente para todas as culturas.

Na implantação do canavial, explica Pereira, o corretivo deve ser aplicado em área total efetuando-se incorporação o mais profunda possível. “Assim o sistema radicular poderá se desenvolver mais e a maiores profundidades, proporcionando maiores produtividades. Na cana soca deve-se efetuar a análise de solo anualmente e, sempre que necessário, fazer a aplicação do corretivo em área total.”

Cabrera explica que a indicação na utilização da calagem vai depender muito da análise de solo, pois a recomendação varia de acordo com os teores de cálcio e magnésio no solo. “Além disto, há de se descobrir qual o tipo de calcário será aplicado, para que assim o solo se mantenha estabilizado. Normalmente, busca-se um equilíbrio no solo com a relação cálcio x magnésio de 3:1, (3 cálcio para 1 magnésio) ”.

Os teores de cálcio e magnésio sofrem influência direta da rocha da qual é extraído o calcário, pois cada região tem uma formação geológica especifica que dará a qualidade do calcário. Processos industriais como a calcinação influenciam na concentração. O calcário comum está na forma de carbonado (Ca.CaCO3 e Mg.CaCO3) com peso atômico de 140 g e 124 g respectivamente. Ao passar pelo processo de calcinação, ocorre a perda de CO2 e passam a se apresentar na forma de óxido (CaO e MgO), com peso atômico de 56g e 40g respectivamente. Com isto, os teores de Ca e Mg chegam a quase a duplicar.

 

Existem aplicadores de calcário a lanço e tecnologias, como é o caso do SAK-4, que com quatro hastes faz a aplicação de calcário em profundidade

TECNOLOGIAS EM CALCÁRIO

Atualmente, existem diversos tipos de materiais corretivos disponíveis no mercado. De acordo com o Gape (Grupo de Apoio à Pesquisa e Extensão) da Esalq/USP, o mais comum é composto de CaCO3 (Carbonato de Cálcio) e MgCO3 (Carbonato de Magnésio), chamado de calcário tradicional. Este calcário pode ser classificado como calcítico (quando os teores de MgO – Óxido de Magnésio – são inferiores à 5%), como magnesiano (teores de MgO entre 5% e 12%) e dolomítico (com teores de MgO superiores à 12%).

Além deste, existem outros tipos de materiais corretivos como o calcário Filler, que corresponde ao calcário tradicional micropulverizado, ou seja, suas partículas são menores, e ele apresenta um PRNT (Poder Relativo de Neutralização Total) igual à 100%; o calcário calcinado, que é obtido a partir da calcinação parcial do calcário tradicional (tratamento térmico do calcário tradicional em elevadas temperaturas que promove a remoção de água), aumentando sua solubilidade; o cal virgem agrícola, obtido a partir da calcinação total, composta de óxidos de cálcio e magnésio (CaO e MgO); e o cal hidratada agrícola, advindo da hidratação parcial da cal virgem, portanto, composta de Ca(OH)2 e Mg(OH)2.

Atualmente, existem produtos no mercado que apresentam um poder reativo maior, que elevam, por exemplo, o nível do PRNT e faz com que ele chegue a ser muito superior a 100%. Isso porque há um processo de transformação na matéria-prima para que ela tenha uma eficácia maior, caso da tecnologia oferecida pela Oxyfertil.

“O calcário passa pelo processo de calcinação, ou seja, a rocha calcária fica durante 24 horas num forno a 1.100 °C, que faz com que ocorra a perda do CO2, transformando o carbonato (CO3) em óxido (O), elevando o teor de CaO para 60%, de MgO para 30% e o PRNT para 180%. Este produto foi ‘acelerado’ industrialmente. Isto quer dizer que a reação química de neutralização do pH do solo que a natureza demoraria 90 dias para fazer com aplicação de um calcário comum, ocorre em 15 dias com essas melhorias”, explica Cabrera.

Segundo ele, apesar de ter um valor maior por tonelada em relação ao calcário comum, o produto tem um custo-benefício melhor já que:

– é aplicado em menor dose;

– tem maior velocidade de reação no solo;

– tem maior concentração de cálcio e magnésio;

– maior PRNT;

– menor volume a ser aplicado (ganho operacional);

– é embalado em bags, resultando em menores perdas no campo e melhor logística de abastecimento do aplicador.

“Com um corretivo de reação rápida, os resultados agronômicos são obtidos no mesmo ano agrícola, resultando em maior retorno econômico para o agricultor. Ele pode ser aplicado à lanço em área total, em cima da linha de plantio da cana ou ainda incorporado em profundidade no solo”, complementa Cabrera.

O coordenador Comercial da Calcário Itaú explica que o poder relativo de neutralização total é um índice utilizado para calcular a quantidade de corretivo que se deve aplicar ao solo. “Este índice caracteriza a qualidade do corretivo e quanto maior o valor do PRNT menor será a quantidade a ser aplicado no solo. Portanto, o produtor deve sempre efetuar uma conta simples: R$ do calcário + R$ frete/PRNT. O corretivo que gerar o menor valor por ponto de PRNT será o mais econômico”, explica Pereira.

Para se aplicar o calcário, são necessários equipamentos especiais. Atualmente, há tecnologias que suportam até 15 t de produto. De acordo com Josiane Ferreira, Comercial da OTA Indústria de Máquinas Agrícolas, o equipamento aplicador de calcário, para atender a exigente demanda do mercado, deve ser um equipamento de alta precisão, robusto, durável, mas ao mesmo tempo deve propor facilidade no manuseio e na operação em campo.

Ela explica que hoje, a parte estrutural destes equipamentos tem que ser reforçada diante do conteúdo em que carregam, para que assim seja evitado problemas futuros como a corrosividade. “A estrutura de um equipamento OTA, por exemplo, representa a maior parte do investimento em matéria-prima de alta qualidade. Assim também acontece com os demais itens estruturais, como tubos, barras, ferros etc. Todo esse investimento agrega qualidade e durabilidade. ”

Em a cada reforma de canavial existe a possibilidade de fazer arações e gradagens profundas para incorporação de corretivos, mas é uma prática onerosa, além de desestruturar o solo que vem sendo melhorado intensamente com o cultivo de cana crua. Por outro lado, de acordo com Cabrera, o uso de máquinas cada vez mais pesadas, aumentaram muito o nível de compactação, e mesmo arações profundas não conseguem romper a camada compactada, que chega a 40 cm de profundidade e continua limitando a produtividade, exigindo mais uma operação no preparo do solo que é a subsolagem. Sendo assim, não seria mais lógico em uma única operação fazer o preparo do solo, a incorporação do corretivo e a subsolagem? Nesta linha de pensamento, a Kamaq desenvolveu o SAK, um Subsolador Adubador que faz a correção do pH do solo em até 1 metro de profundidade.

“Na renovação do canavial, esta tecnologia otimiza a operação de subsolagem com a correção em profundidade, alterando positivamente o “Ambiente de Produção”, melhorando o aproveitamento da água e nutrientes, resultando em aumento significativo de produtividade e longevidade dos canaviais. É uma prática que agrega ao produtor, pois a subsolagem já faz parte da rotina, não destrói a estrutura e não pulveriza o solo, e permite o cultivo mínimo ou plantio direto em cana. Num segundo momento poderá substituir arações e gradagens profundas, reduzindo custos operacionais e aumentando a sustentabilidade do sistema, como é visto hoje Brasil a fora no plantio direto de grãos. Em cana soca a subsolagem corretiva pode ser feita na entrelinha do canavial estabilizando a produtividade e aumentando a longevidade”, destaca Cabrera.

O Grupo Cerradinho Bio tem testado, na unidade Porto das Águas, localizada no Chapadão do Céu, GO, os benefícios do calcário. Segundo dados da empresa, a calagem foi aplicada via incorporação profunda na linha de plantio e teve como objetivos principais promover correção da acidez do solo e fornecer os elementos Ca e Mg em profundidade, possibilitando maior desenvolvimento e aprofundamento do sistema radicular. “Com base em análises de solo prévias, foram aplicados a taxa fixa 2,16 t/ha de calcário, 2,17 t/ha de gesso e 1 t de fosfato. Em cerca de seis meses, os índices de pH apresentaram um aumento significativo e saltaram de 4,1 para 6,1”, destaca Cabrera.

O setor de calcário segue passando aos produtores rurais a mensagem de que a calagem também contribui com os resultados, na medida em que a correção da acidez feita de forma preventiva reduz, por exemplo, o total investido em adubos. O consumo de calcário na agricultura do Estado de São Paulo apresentou um crescimento de 13,16% no primeiro semestre deste ano, na comparação com igual período do ano passado. Segundo dados divulgados pelo Sindicalc, em São Paulo, do período janeiro a junho de 2015 foram utilizados cerca de 1 milhão t. Nos cinco primeiros meses deste ano este número já foi superado e chegou a 1,19 milhões de t.

(Colaboração Alisson Henrique)