Avanço da certificação da cana reflete mudanças operacionais, ganhos ambientais, práticas regenerativas e maior exigência dos mercados internacionais
A produção global de cana-de-açúcar certificada já responde por 9% do total, avanço em relação aos 7,8% registrados no Outcome Report Bonsucro 2023/24, e o indicador passa a ser interpretado como um sinal de aceleração da agenda de sustentabilidade no setor. Para a Bonsucro, o movimento cria uma janela clara de posicionamento para usinas e produtores em um mercado cada vez mais orientado por critérios socioambientais. “O aumento do açúcar certificado de 7,8% (segundo Outcome Report Bonsucro 23-24) para os atuais 9% da produção global de açúcar reflete um avanço significativo na adoção de práticas sustentáveis no setor”, afirma Lívia Ignacio, chefe para América do Sul da Bonsucro,
Na avaliação da executiva, a leitura do número vai além da reputação e passa a dialogar diretamente com estratégia comercial e acesso a valor. Ela observa que a antecipação da certificação tende a favorecer produtores e usinas à medida que crescem as exigências dos compradores globais.
“Para usinas e produtores, esse crescimento indica uma oportunidade valiosa de posicionamento competitivo, alinhando-se às crescentes demandas do mercado por produtos sustentáveis”, disse à RPAnews.
Ganhos ambientais vêm de mudanças operacionais
Ao detalhar os resultados associados à certificação ao longo de cinco anos, Lívia afirma que os ganhos ambientais observados são consequência direta de decisões operacionais adotadas de forma estruturada no campo e na indústria. “As reduções de 13% nas emissões de gases de efeito estufa e de 31% no uso de água são resultados diretos de mudanças operacionais como a implementação de tecnologias mais eficientes e a adoção de práticas agrícolas sustentáveis.”
Segundo a executiva, ferramentas que aumentam o controle técnico do processo produtivo têm sido decisivas para alcançar esses resultados. Entre elas, a agricultura de precisão, o uso de insumos biológicos, a melhoria da gestão de resíduos e o maior investimento em capacitação das equipes. “A otimização de recursos por meio da agricultura de precisão, o uso de insumos biológicos e a gestão de resíduos, além de um maior investimento em treinamentos para os trabalhadores, foram decisivos para alcançar esses resultados.”
Certificação impacta segurança e cultura organizacional
No pilar social, Lívia relaciona a queda nas taxas de acidentes em usinas e lavouras certificadas a exigências específicas do Padrão de Produção da certificação, que elevam o nível de organização interna e prevenção de riscos. “A queda nas taxas de acidentes em usinas e canaviais certificados pode ser atribuída a requisitos rigorosos de segurança e saúde ocupacional impostos pelo Padrão de Produção Bonsucro, como a implementação de avaliações de risco e planos de ação para mitigar perigos, além da necessidade de treinamento contínuo aos trabalhadores para o desempenho de suas funções de forma segura.”
Ela acrescenta que o impacto não se limita ao cumprimento de normas, mas contribui para mudanças estruturais no dia a dia das operações. “Adotando esses requisitos, as empresas não apenas seguem as normas, mas cultivam uma cultura de segurança que protege seus trabalhadores.”
Brasil lidera certificação e práticas regenerativas
Ao abordar o protagonismo brasileiro, Lívia Ignacio atribui a liderança do país em área certificada e volumes certificados de açúcar e etanol a uma combinação de fatores estruturais e setoriais. “O Brasil se destaca na certificação Bonsucro devido a fatores como a sua legislação socioambiental já robusta e exigente, à sua vasta área agrícola e a um setor sucroenergético já consolidado e tecnificado.”
Segundo ela, a forte presença de iniciativas sustentáveis, o apoio governamental e o acesso a recursos financeiros reforçam esse cenário, em um contexto de elevada demanda global por açúcar e etanol. “A forte presença de iniciativas sustentáveis, apoio governamental e acesso a recursos financeiros também contribuem para essa liderança.”
No campo das práticas regenerativas, a executiva destaca projetos apoiados pelo Bonsucro Impact Fund (BIF) como evidências de soluções com potencial de escala no canavial comercial. “Entre os projetos apoiados pelo Bonsucro Impact Fund (BIF), as práticas regenerativas que tem demonstrado maior potencial para escalar em operações comerciais incluem o plantio direto, o manejo integrado de pragas e o uso de biofertilizantes.”
Ela acrescenta que a entidade acompanha com expectativa um novo projeto de agricultura regenerativa recém-iniciado, voltado ao uso de biochar no canavial. “Estamos também ansiosos para acompanhar os resultados do novo projeto de agricultura regenerativa financiado pelo BIF e recém iniciado, que buscará testar no canavial o uso de biochar formulado a partir de resíduos de palhada e casca de amendoim.”
Novo protocolo amplia exigências a partir de 2026
Com a entrada em vigor do novo Protocolo de Certificação da Bonsucro, a partir de janeiro de 2026, Lívia afirma que usinas e produtores deverão se preparar para atualizações relevantes nos processos de auditoria. “Com a nova versão do Protocolo de Certificação da Bonsucro entrando em vigor a partir de janeiro de 2026, usinas e produtores deverão se preparar para uma série de atualizações visando o fortalecimento do processo de auditoria.”
Segundo a executiva, o protocolo revisado reforça a exigência de sistemas de gestão mais robustos, maior envolvimento das partes interessadas e ampliação da transparência das informações. “O protocolo revisado enfatiza a importância de um sistema de gestão mais robusto e integrado, exigindo maior envolvimento das partes interessadas e promovendo a transparência de informações.”
Ela conclui que o objetivo é tornar as auditorias mais eficazes na identificação e gestão precoce de riscos socioambientais ao longo da cadeia produtiva. “Além disso, visa melhorar a eficácia da auditoria Bonsucro na detecção e gestão precoce de riscos socioambientais na cadeia produtiva”, conclui Lívia.
Natália Cherubin para RPAnews