Certificação de açúcar brasileiro em países árabes pode expandir mercado

Natália Cherubin

Países árabes tem se tornado destino frequente do açúcar brasileiro. Os últimos dados divulgados pela consultoria Datamar apontam que as exportações brasileiras de açúcar cresceram 23,4% no primeiro trimestre de 2020 em relação ao mesmo período de 2019, atingindo 3,77 milhões de toneladas embarcadas.

Nestes primeiros três meses do ano, de acordo com dados do Comex, 10% desse açúcar foi exportado para países Árabes. Os principais países importadores foram a Argélia, Bangladesh, Nigéria e a Arábia Saudita (Veja tabela).

Onde estão localizadas as maiores comunidades muçulmanas?A região da Ásia Pacífico abriga a maior população muçulmana do mundo. Alguns dos países da região são Indonésia, Tailândia, Cingapura e Mianmar.  Os novos países a ingressarem na liga da crescente população podem ser Canadá, Congo, Bélgica, Guiné-Bissau, Togo e Holanda. É um mercado gigantesco.De acordo com a pesquisa de mercado da OECD-FAO (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), o Brasil é considerado o maior produtor de açúcar do mundo e equivale a 45% da exportação mundial.O país deve continuar com a posição de principal exportador e o consumo global deve crescer em torno de 1,48% ao ano, chegando em 2027 com 198 milhões de t de açúcar

No entanto, um dos detalhes que pode tornar o mercado para o produto brasileiro mais atraente para países árabes e outros que praticam o islamismo, é ter a certificação halal, que garante que a produção do açúcar está de acordo com a jurisprudência islâmica.

O certificado halal, além de atender às exigências islâmicas, é uma certificação que atesta a qualidade do produto. Não só os países árabes e muçulmanos estão em busca desta certificação, mas outros que exigem segurança alimentar, como Japão e Cingapura, por exemplo.

Fonte: Comexstat

Como conseguir uma certificação Halal?

A palavra Halal no idioma árabe significa lícito, ou seja, está de acordo com as regras estabelecidas pela Lei da Jurisprudência Islâmica (Shariah) que rege os costumes dos muçulmanos.

A certificação Halal visa a conformidade do estabelecimento que possuiu aptidão e ao mesmo tempo realiza práticas e procedimentos Halal para produzir, armazenar e comercializar produtos destinados aos consumidores muçulmanos e a qualquer comunidade que busque por produtos de qualidade.

As normas contempladas na auditoria Halal são as que regem as legislações nacionais, ISO 22000, MS 1500, HAS 23000, GSO 993, GSO 2055-1,  GSO 2055-2, MUIS-HC-S001, UAE.S 2055-2, UAE.S 2055-1, UAE.S 993, bem como os critérios da Cdial Halal.

De acordo com o diretor-executivo da certificadora Cdial Halal, Ali Saifi, a certificação demora em torno de um mês, pois uma auditoria deve ser realizada por uma equipe de auditores, sendo composta por no mínimo dois auditores, um auditor técnico e um especialista em assuntos islâmicos.

“Em casos excepcionais, pode ser integrado à equipe um especialista técnico. De acordo com a GSO 2055-2, o ciclo de certificação é de três anos, com auditorias anuais, podendo uma do ciclo ser não anunciada. Finalizando o ciclo de três anos de certificação, é necessário que o processo de recertificação seja iniciado até 6 meses antes de se expirar o certificado”, explica Saifi.

Avaliação na indústria

Todo o processo de fabricação passa por uma rígida avaliação para receber o certificado. A auditoria verifica o recebimento de matéria-prima, calibração dos equipamentos, higiene, boas práticas de fabricação, armazenamento e até mesmo a expedição do produto.

Segundo Saifi, essa certificação garante que toda a cadeia do produto seja lícita e adequada para o consumo dos muçulmanos.

“É importante ressaltar que todos os tipos de açúcar são passíveis de certificação halal, basta atender às normas específicas. Lembrando que o selo halal não é considerado somente como selo religioso, mas como de qualidade. Avaliamos toda a parte de segurança de alimentos.”

Ainda segundo ele, é imprescindível que haja controle da produção, de rastreabilidade e transporte, para que o consumidor final receba um produto que seja halal, ou seja, sem qualquer indício ilícito (oriundo de suíno ou álcool).

Por que ter uma certificação halal

De acordo com relatório da Pew Research Center, em 2050, a população muçulmana em todo o mundo deverá atingir 2,76 bilhões, ou seja, 29,7% da população mundial.

Atualmente, a comunidade muçulmana é de 1,8 bilhão. A certificação halal tem sido exigida em diversos setores. “Portanto, qualquer empresa que queira exportar e aumentar a visibilidade de seus negócios e sua rentabilidade, precisa pensar no mercado muçulmano e ter a certificação halal”, explica Saifi.

A certificação halal, segundo ele, será exigida em toda a cadeia de alimentos, logística, fármaco, cosmético, etc. Todo e qualquer produto que tenha como destino países árabes muçulmanos será exigido o selo halal. E não somente os produtos em si, mas todos os processos de produção, armazenamento, manuseio, rotulagem embalagem, transporte (terrestre, marítimo ou aéreo) e entrega serão analisados.

Desde a entrada e saída do produto: espaço físico (serão medidas a umidade e pressão do ar, além de exigir as boas práticas de higiene, incluindo proteção de mercadorias e ou carga contra contaminação cruzada (proibida pelo halal)); características biológicas, químicas e físicas dos produtos; lista de ingredientes, inclusive de aditivos e auxiliares de processamento, entre outros. É extremamente necessário o controle de produtos tóxicos e a isenção total de produtos ilícitos conforme a religião islâmica.

“É um mercado gigantesco para ser explorado. Na questão alimentar, sabemos que o Brasil é o maior indicado, principalmente, porque o nosso agronegócio tem capacidade de exportar produtos de altíssima qualidade e com segurança alimentar”, destaca Saifi.