Colhedora de cana inteira: solução para plantio brasileiro?

A cortadora de cana inteira norte-americana, que poderá ser encontrada no Brasil em breve, é defendida por especialistas como solução para o plantio

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Colhedora colhe cana inteira
Máquinas que cortam cana inteira podem ser a solução do plantio de cana no Brasil

*Natália Cherubin

Com um plantio de cana mecanizado que não agrada a todos, especialistas apostam que o uso de uma não tão nova tecnologia de colheita de cana inteira – já utilizada nos EUA por produtores da Florida, Louisiana e Texas – poderá ser a chave para resolver os problemas no plantio de cana brasileiro.

Luiz Nitsch, diretor da Sigma Consultoria, que esteve em viagem recente aos EUA para conhecer métodos de colheita e plantio de cana norte-americanos, revela que um grande empresário do ramo de fabricação de implementos rodoviários está importando uma Cameco S-32 com o objetivo de reproduzi-la no Brasil.

“A forma peculiar de colher e plantar a cana dos norte-americanos é impressionante e poderia muito bem ser utilizada no Brasil. As máquinas são extremamente simples, sem sofisticação ou eletrônica embarcada. Além disso, são muito fáceis de operar”, afirma.

Como hoje não há, até o momento, uma solução de plantio mecanizado que satisfaça a “gregos e troianos”, uma colhedora de cana inteira associada a uma plantadora também de canas inteiras, poderia levar o problema existente hoje – de gasto excessivo de mudas ou brotação – a níveis mínimos, segundo Nitsch.

“Os norte-americanos empregam uma tecnologia dupla eficaz de cortadora e plantadora, que permite ótima brotação com as mesmas 8 a 12 t/ha com uma razão de plantio de 1:5. Cortando os colmos sem danificar as gemas geram excepcional brotação, de 25 a 35 perfilhos por metro linear”, revela.

Colhedora colhe cana inteira
Máquinas que cortam cana inteira podem ser a solução do plantio de cana no Brasil

Cortadoras em detalhes

A Cameco S-30/ S-32 (uma e duas linhas) e a Broussard 123/223 (uma e duas linhas) são as fabricantes das máquinas utilizadas pelos norte-americanos. Ambas não possuem nenhum tipo de eletrônica embarcada. Todos os sistemas são hidrostáticos, operados por bombas e comandos diretos.

De acordo com Nitsch, o sistema de corte destas máquinas é quase genial. Isso porque, o desgaste se concentra nas correntes desfolhadoras frontais, nas correntes dos descarregadores laterais e em suas engrenagens acionadoras.

O sistema de limpeza primária também é bastante simples. A medida que a máquina avança, a plataforma dianteira inclinada faz as correntes frontais percorrerem toda a planta, desde o solo até quase o ponteiro, removendo a folhagens por atrito mecânico.

As gemas não são danificadas, já que não ocorre contato direto entre os dentes e o colmo devido a abertura (vão) das correntes. Com o avanço contínuo da máquina, os ponteiros são cortados pela faca rotativa na base dos rotores de descarte da massa verde. Durante este processo, o colmo permanece preso ao solo até ser cortado pelo disco de faquinhas.

“As capacidades de corte retro mencionadas são específicas para as condições de espaçamentos (1,73 m e 1,82 m), para variedades eretas, plantio no canteiro e TCH médio de 73 t/ha”, explica.

Os americanos utilizam o sistema de plantio em canteiros, separados por valetas, cujo espaçamento entre elas é exatamente a bitola comum (ou múltiplo dela) a todos os equipamentos que trafegam no canavial.

VEJA VÍDEO DE MÁQUINA

Este sistema apresenta duas vantagens importantes, de acordo com Nitsch, porque:

  • Concentra todo o pisoteio nestas valetas. Preservando assim o canteiro e servindo como uma espécie de guia no solo, mantendo a cortadora no rumo certo, sem zig-zag, num canavial de alta densidade, o que em colheita noturna é um auxilio inestimável;
  • Resulta em maior durabilidade das faquinhas do disco do corte de base, já que estas só entram em contato com os colmos.

As faquinhas atravessam a safra de três meses sem substituição. Alguns fornecedores afirmaram durar até três safras – que nos estados Unidos dura 90 dias, sendo a colheita realizada somente durante o dia.

“No plantio em sulcos, como fazemos aqui, inexoravelmente as faquinhas se esfregam na terra, gerando rápido desgaste. Muitas máquinas na Louisiana tem as faquinhas soldadas no disco”, conta Nitsch.

Futuro para o plantio

Apesar desta tecnologia ser antiga, Nitsch afirma que acredita que este é o melhor sistema para a obtenção de mudas, devido às mínimas injúrias causadas nas gemas.

Leônidas Monteiro, gerente de Manutenção e Logística Transporte da Usina São José Agroindustrial, localizada em Igarassu, PE, acredita no uso desta colhedora de cana inteira para plantio em todas as regiões canavieiras.

“Estamos junto com Nitsch em busca de uma colhedora de cana inteira para moagem no Nordeste. Esta máquina apresentada, com certeza, pode ser a solução para a colheita do Nordeste e para o plantio das unidades do Sudeste”, diz.

Veja detalhes sobre a cortadora de cana inteira:

Conheça dois modelos da colhedora de cana inteira
Detalhes sobre as cortadoras de uma e duas linhas das marcas Cameco e Broussard – Crédito: Luiz Nitsch (Sigma Consultoria Automotiva)

Se hoje tivéssemos no Brasil máquinas como estas novas para serem compradas, a de duas linhas custaria algo em torno de US$ 150.000 e a de uma linha US$ 120.000, de acordo com Nitsch.

Todavia, estas cortadoras utilizadas hoje nos EUA também não são mais fabricadas.  Mesmo assim, com um imenso mercado, os produtores norte-americanos conseguem suprir quaisquer peças de reposição.

Com o passar do tempo, segundo Nitsch, o mercado norte-americano de substituição destas máquinas exauriu-se. Os dois fabricantes principais, Cameco e Broussard encerraram a manufatura em meados dos anos 90. Todavia, todos os fornecedores, sem exceção, utilizam estas máquinas para obtenção de mudas e menos de 10% deles ainda cortam cana para moagem.

“É uma pena que não as tenhamos conhecido antes. Trabalho há 40 anos com cana-de-açúcar e nunca tinha visto nada parecido. Acabamos nos espelhando muito na Austrália para mecanizar o Brasil e esquecemos que nossos vizinhos norte-americanos também produzem cana. Acreditamos, nós e alguns engenheiros agrônomos e mecânicos, que esta metodologia poderia ser usada no Brasil, com sucesso”, conclui Nitsch.