Colhedora de duas ou mais linhas deve ser o futuro da colheita em espaçamento simples

A possibilidade de colher duas linhas ao mesmo tempo traz redução de até 50% na área de tráfego, diminuindo a compactação de solo e, consequentemente, gerando economia de combustível

Natália Cherubin

Reduzir tráfego de colheita no canavial em 50%, reduzir o consumo de combustível e ainda colher com maior produtividade é possível com o uso de colhedoras de duas ou mais linhas de cana. Essa é a aposta do mercado, de especialistas do setor e de usuários para o futuro da colheita mecanizada de cana-de-açúcar. Futuro porque a única tecnologia disponível até o momento, capaz de colher duas ruas em canaviais de espaçamento de 1,5 m, ainda possui gargalos que precisam ser solucionados para que seu uso seja aderido pelo setor.

As máquinas capazes de colher duas ruas foram lançadas no mercado há quase oito anos e surgiram diante da demanda de algumas usinas e produtores, que passaram a cultivar cana em espaçamento duplo alternado. As fabricantes, de olho neste nicho de mercado – que hoje corresponde a apenas 20% dos canaviais no Brasil – lançaram máquinas capazes de realizar a colheita simultânea de duas linhas. A John Deere e a AGCO/Valtra focaram-se apenas em atender a colheita em duplo alternado. Já a Case IH lançou a Multi Row, a única colhedora do mercado voltada para espaçamentos de até 1,5 m.

Hoje, a única máquina capaz de colher duas linhas simultaneamente em espaçamento de 1,5 m é a Multi Row, da Case IHApesar do pioneirismo da Case, a expansão do uso da sua máquina de duas linhas não foi tão bem absorvida pelo setor, mesmo com números promissores em economia de combustível, redução de custos e do tráfego nas linhas. Isto acontece, segundo a maioria dos especialistas ouvidos, porque a máquina foi adaptada e não projetada “do zero” para colher mais de uma linha.

Dário Willian Sodre, diretor da D2G Consultoria, diz que a máquina disponível hoje para colher duas ruas de quaisquer espaçamentos, pelo volume de massa, é mais adequada para colheita de canas com produtividade na faixa de 100 t/ha para baixo. “Acredito que não houve uma forte evolução. As perdas e performance da máquina não foram focadas pela fabricante. Tanto que essa máquina, até o presente, não acompanhou a evolução tecnológica das suas colhedoras de uma linha. No entanto, na nossa opiniãoé uma máquina muito promissora e a fabricante, com a ajuda dos usuários deve, a partir de agora, focar na melhoria do projeto. Temos clientes hoje que conseguem excelentes números em termos de performance e resultados, tais como cana colhida por safra, consumo energético de combustível e custo”, afirma Sodre.

“Há vários anos o mercado lançou uma colhedora que não performou bem, pois a ideia era conseguir colher qualquer espaçamento existente. Foi um tiro na água! No entanto, a tecnologia de duas ou mais linhas está pegando cada vez mais e deve ser o futuro para a colheita de cana. O motivo é o fato de conseguir reduzir custos de produção sem a necessidade de investir em uma readequação de todo o canavial. Além disso, essa máquina não exige equipamentos de preparo de solo diferentes do que já vem sendo utilizados para a colhedora de uma linha. Acredito que outras fabricantes estejam trabalhando em novos projetos de uma ou mais linhas e que atenderão muito bem este mercado”, opina Marco Lorenzzo Ripoli, engenheiro agrônomo.

Para Felix de Castro, diretor da FCN Tecnologias, seja para aplicação em espaçamento alternado ou em espaçamentos até 1,5 m, a colheita de duas fileiras simultâneas, quando passível de ser praticada é, sob o aspecto econômico da operação, muito mais atraente. “Hoje, os espaçamentos de 1,5 m ficam difíceis de serem praticados em colheita simultânea de duas ruas por conta do cortador basal das colhedoras serem ‘duros’, ou seja, não compensam diferenças de nivelamento nas duas ruas.”

COLHEDORAS DE DUAS LINHAS X UMA LINHA EM 1,5 M

As únicas diferenças estruturais entre uma colhedora de uma para duas linhas, de acordo com Roberto Biasotto, Marketing de Produto da Case IH, são os dois cortes de base a mais na frente da máquina, com possibilidade de ajuste hidráulico para a largura de corte, e toda a parte de estruturação e geometria, que é adaptado para colher até duas linhas de cana no espaçamento de 1,5 m.

Só para se ter uma ideia, a produção média diária de uma colhedora de cana no Brasil, segundo Biasotto, tem variado entre 400 e 700 t colhidas por máquina. Atualmente uma colhedora tem um potencial de processar entre 150 e 180 t de cana por hora de acordo com verificações de alguns usuários e diversos estudos acadêmicos. No entanto, a média de processamento diária no Brasil está entre 30 e 80 t por hora. “É dentro deste contexto que convém revisar e simular algumas situações para entender os principais gargalos da colheita mecanizada para que seja possível minimizar esta distância entre potencial e realizado em termos de toneladas colhidas por dia.”

Em três simulações feitas para um comparativo entre a colheita de uma linha e duas linhas para o espaçamento de 1,5 m (Tabela 1), foi possível notar, de acordo com Biasotto, que com a colheita de duas linhas é possível chegar a níveis maiores de produção diária, trabalhando-se com velocidades menores e melhor relação hora elevador/hora motor, uma vez que ao colher duas linhas de cana por vez o tempo gasto com manobras cai pela metade.

Biasotto afirma que as simulações permitem afirmar ainda que as grandes oportunidades para o aumento da eficiência de colheita mecanizada estão diretamente relacionadas a adoção da colheita de duas linhas, a ampliação do uso da máquina por dia (aumento da hora motor), a busca por melhores relações hora elevador/hora motor (redução de tempos perdidos com manobras, deslocamentos improdutivos e outras atividades não produtivas), o aumento da velocidade de colheita (levando-se em consideração que em algumas situações a maior velocidade impacta em maiores perdas e maiores danos na soqueira) e, por fim, o aumento da produtividade agrícola (toneladas de cana por hectare)”, destaca.

Além dos ganhos de capacidade operacional, na colheita de duas linhas há outras vantagens relacionadas à qualidade da operação. Em função da posição menos inclinada dos discos frontais do corte de base destas colhedoras, segundo Biasotto, há um menor dano à soqueira da cana e um menor revolvimento do solo, benefícios estes que contribuem para uma maior longevidade do canavial e maior velocidade de germinação da cana para o próximo ciclo. “Por outro lado, é importante lembrar que ao se aumentar a largura de colheita, há maiores exigências em relação à qualidade da operação e nivelamento do solo visando reduzir o índice de perdas e viabilizar a colheita nas mais adversas condições.”

A possibilidade de colher mais de uma linha ao mesmo tempo traz redução de até 50% na área de tráfego, diminuindo a compactação de solo e, consequentemente, gerando economia de combustível. “A aceitação da máquina é bastante positiva no mercado, pois a colhedora contribui para o aumento da produtividade e reduz o pisoteio da cana. Por causa da maior produtividade, podendo chegar a mais de 30% em t/hora, o consumo em litros por toneladas tende a ser menor, proporcionando mais de 20% em economia de diesel se comparado à colhedora de uma linha”, salienta.

Além do ajuste de bitolas de toda a frota para 3 m e uso de piloto automático, o Condomínio Agrícola Santa Izabel, localizado em Jaboticabal, SP, vem apostando, há duas safras, na colheita de cana com duas linhas e tem obtido resultados expressivos na redução da compactação dos solos – que saltou de 70% para apenas 30%. A expectativa da empresa agora é reduzir os custos com manutenção e combustível.

Para ter uma ideia sobre os custos de operação dos dois modelos de colhedoras, Ricardo Pinto, sócio-diretor da RPA Consultoria, fez uma simulação. Considerando uma situação de canaviais similares, o custo por hora de trabalho de uma colhedora de uma linha de R$ 360 por hora e o custo por hora de trabalho de uma máquina de duas linhas de R$ 385 por hora e, considerando a média de 500 t por dia da colhedora de uma linha e 650 t por dia da máquina de duas linhas. “Se as colhedoras trabalharem 13 horas por dia, o custo por tonelada da colhedora de uma linha será de R$ 9,36 por t. Já o custo da colhedora de duas linhas será de R$ 7,70 por t, logo, a colhedora de duas linhas apresentará um custo de C, do CTT, 17,7% menor do que o da colhedora de uma linha nesta situação.”

PERDAS E IMPUREZAS

O aumento ou não de impurezas vegetais e minerais vai depender da qualidade do preparo de solo. Segundo Ripoli, se o terreno não estiver sistematizado corretamente para a colheita de duas linhas vai haver mais impurezas.  “Hoje em dia colher com uma linha já é um desafio neste sentido. Então, se tiver um bom preparo, plantio, tratos, operador bem capacitado, experiente e que sabe regular adequadamente a colhedora durante a operação, junto ainda ao uso de piloto automático, consegue-se atingir índices melhores.”

Segundo Biasotto, em linhas gerais, é possível obter o mesmo nível de impureza vegetal nas duas máquinas. Em relação à impureza mineral, a tendência é que a Multi Row apresente resultados melhores em função do posicionamento dos discos de corte de base, que estão menos inclinados e mais paralelos ao solo.

Já no caso das perdas, as colhedoras de duas linhas tendem a perder mais. No entanto, Biasotto afirma que com experiência e preparo correto da área, é possível deixar as perdas próximas às das máquinas de uma linha.

Para Sodre, o índice de perdas ainda é expressivo no caso da colheita de duas linhas, chegando a ser 30% maior do que na máquina de uma linha. Entretanto, ele afirma que muitos dos seus clientes tem feito trabalhos customizados em suas máquinas, com alterações construtivas no sistema de limpeza e de alimentação, o que tem reduzido essas perdas. “O fabricante também tem evoluído na questão de auto nivelamento das linhas de colheita e devem continuar trabalhando para minimizar essas perdas. Isso ocorre nos dois tipos de colhedoras de cana, principalmente em função do desnível que temos na área de colheita dupla, mas temos evoluído nas pesquisas sobre o tema”, acrescenta.

GARGALOS QUE PRECISAM SER SOLUCIONADOS

Para Paulo Sérgio Graziano, engenheiro Agrícola da Feagri/Unicamp, as soluções existentes no mercado são paliativas e o setor está muito atrasado na tecnologia de colheita de cana-de-açúcar. “As colhedoras continuam utilizando o mesmo princípio de corte, alimentação, picagem, limpeza e descarga para o trasbordo há anos. Este sistema tem sérios problemas, entre eles, alimenta impurezas minerais em excesso, tem perdas elevadas, limita a capacidade de colheita, causa danos a gema da cana, não separa bem os rebolos de cana-de-açúcar da palha e tem custos elevados. O setor precisa investir e modernizar, pensar em novas soluções de engenharia para permitir colher múltiplas linhas simuladamente, reduzindo o tráfego e aumentando a longevidade dos canaviais. Os usuários (fornecedores e usinas) precisam demandar aos fabricantes estas inovações, mas para isto precisariam estar cientes que é possível inovar e quebrar os paradigmas.”

Ainda segundo ele, o sistema de alimentação e corte de base precisa ser repensado, de forma a colher de forma eficiente tantos canaviais eretos como os tombados. “A colhedora de duas linhas é um avanço na redução do tráfego nos canaviais, com redução da compactação, mas tecnologicamente é a mesma colhedora, utilizando os mesmos princípios de corte, alimentação, picagem, limpeza e transferência de carga”, acrescenta Graziano.

Para o gerente de Marketing da Valtra, Marco Antonio Gobesso, o principal problema da colheita de múltiplas linhas está relacionado a perdas e danos nas soqueiras. “A capacidade de limpar, transportar e picar, pode ser incrementada com potência hidráulica. Agora, a qualidade do corte, aí eu falo de perdas, impurezas e abalo de soqueiras, não é simplesmente pegar uma máquina atual e aumentar. É preciso investir em um novo projeto.”

Sodre acredita que há gargalos a serem solucionados por ambas as partes, tanto dos fabricantes quanto dos produtores de cana, visto que esse tipo de máquina exige um nivelamento melhor de solo. “No caso da máquina que colhe até duas ruas de vários espaçamentos, é necessária uma atualização do projeto face a máquina de uma linha do fabricante e continuar investindo em pesquisa para adequar essa colhedora a realidade das nossas lavouras.”

Biasotto diz que a Case IH trabalha constantemente para melhorar cada vez mais as suas máquinas e seus resultados. “Neste caso, o foco é o de encontrar soluções para aumentar ainda mais a capacidade de colheita em condições adversas e o de reduzir o índice de perdas em cana tombada perpendicular ao sentido da linha de cana”, conclui.

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