Dedicação e humildade: a chave para o sucesso

Mateus Belei

Idade – 32 anos 

Naturalidade – Macatuba, SP 

Estado civil – Casado, pai de duas filhas

Cargo – Sócio-proprietário da ACC (Agro Cana Caiana) e diretor Comercial da Grunner Tec

Hobby – Pescar  

Filosofia de vida  – “Fazer com carinho e amor aquilo que você mais gosta.”

  

Alisson Henrique

Como já vimos em muitas das histórias de profissionais que por aqui já foram contadas, a paixão pelo setor canavieiro é quase que uma tradição, que passa de geração para geração, consolidando as raízes destas pessoas dentro do agronegócio. O executivo deste mês é mais um homem do campo que, desde que se entende por gente, vive a cana-de-açúcar. Produtor na região de Lençóis Paulista, interior de São Paulo, sócio-proprietário da ACC (Agro Cana Caiana) e diretor Comercial da Grunner Tec, Mateus Belei conta que sempre foi apaixonado pela cana. O contato com a cultura vem de seu avô e seu pai, que iniciaram o seu cultivo na cidade de Macatuba, SP, justamente onde o produtor nasceu. “Venho de uma família localizada em uma região tradicional em plantio de cana em meio as lavouras de café. Com a finalidade de tentar novas rendas, meu avô ariscou um plantio de 10 ha para produzir e entregar na Usina Zilo Lorenzetti em meados dos anos 60.” 

Belei: “Seja no trabalho ou em qualquer outra coisa, é fundamental que você tenha paixão pelo que faz. Acho que é um dos fatores fundamentais para o crescimento pessoal de cada um”  Segundo Belei, quando seu pai assumiu a frente dos trabalhos, os negócios da família começaram a ampliar com a adição de novas atividades. A sorte o ajudou, pois nessa época ele ganhou na loteria esportiva e conseguiu comprar uma Kombi com o prêmio. “Daí em diante começamos a transportar funcionários para o trabalho nas lavouras de café da região. Com essa renda extra conseguimos progredir e comprar o primeiro caminhão. Com esse veículo, meu pai viu que teria mais condições de aumentar a renda, e aí começou a transportar soja, de fazenda a fazenda no Estado do Mato Grosso do Sul. Minha mãe conta que ele ficava mais de 60 dias sem ir para casa. Ele costuma lembrar, emocionado, que na tentativa de melhorar de vida e trazer o sustento para a família, não viu meu irmão mais novo nascer.” 

Cansado de ficar fora de casa seu pai viu uma nova oportunidade: cortar, separar em dúzias e carregar manualmente a cana produzida nos 10 ha e levar a São Paulo, nos depósitos de garapeiros. “Assim, com todo esse sacrifício, conseguimos juntar um bom dinheiro e comprar um trator e uma carregadeira, com a intenção de carregar e transportar toda a cana dos fornecedores vizinhos para a usina. A partir daí os negócios não pararam de crescer”, conta entusiasmado. 

Hoje Belei produz mais de 360 mil t de cana-de-açúcar. Apesar de não revelar em quantos hectares, 5% da cana é produzida em terras próprias e 95% em terras arrendadas. Na safra 2017/18, a produtividade média do seu canavial chegou a 117 t/ha, ante a 69 t/ha das safras anteriores, graças a uma série de tecnologias incorporadas a sua produção. Uma delas foi desenvolver uma forma econômica e eficiente de substituir a operação de transbordamento de cana feito por tratores para caminhões.

TECNOLOGIA FEITA EM CASA  

Ao comprar um caminhão para fazer o transporte de mudas para o plantio mecanizado, Belei conta que foram analisados e comparadas as diversas vantagens que o caminhão proporcionava em questões como economia de combustível e agilidade quando comparados com o trator. Foi daí que surgiu a ideia utilizar o caminhão, que só trabalhava na entressafra, para a colheita de cana junto com os tratores. “Com um espaçamento de 1,5 m, tratores totalmente adaptados e embarcados com piloto automático e com um caminhão que, além de não ter GPS também não era adaptado para trabalhar no espaçamento do canavial, resolvemos desenvolver formas de adaptar a bitola do caminhão para 3 m e incorporar piloto automático e assim, poder utilizá-lo no transbordamento de cana.”

De 2010 até 2012 foram feitos estudos e a empresa conseguiu realizar as adaptações necessárias não só para aumento da bitola como também a incorporação de GPS na cabine do caminhão, o que fez com que a empresa passasse a operar o seu CTT com caminhões ao invés de tratores. “Temos atualmente oito caminhões adaptados com as tecnologias. O controle de tráfego nas entrelinhas da cana com o uso de piloto automático em caminhões-transbordo adaptados com bitolas de 3 m vem proporcionando não só a maior conservação dos solos, mas também aumento da quantidade de água disponível, trazendo ganhos significativos de produtividade.”

De olho neste desenvolvimento, a Mercedes Benz procurou o produtor para uma parceria. A fabricante de caminhões cedeu um caminhão para a fazenda com a o objetivo de implementar a solução no veículo da marca. Foi aí que surgiu a Grunner Tec. Segundo Belei, fundada no final de 2017, a Grunner Tec nasceu como uma transformadora de máquinas agrícolas que desenvolve tecnologia para a colheita mecanizada de cana-de-açúcar.

“A Grunner Tec é uma empresa nova, de um ano e meio. Por meio de adaptação profissional, oferecemos condições para incorporar caminhões com segurança, trazendo maior disponibilidade, agilidade e redução no consumo de combustível. Além disso, disponibilizamos um sistema inteligente de piloto automático para caminhões-transbordo”, adiciona.

O caminhão Grunner ATRseries para operação de transbordo de cana oferece o piloto com GPS e sua bitola pode ser ajustada conforme os espaçamentos, que podem ir de 1,9 m a 3 metros. “O caminhão, por ser um equipamento só, proporciona uma correção muito mais rápida e dinâmica do que o trator mais transbordo. Aqui na nossa fazenda, que tem um potencial produtivo de 89 t/ha, conseguimos atingir 117 t/ha. Em consequência vem a redução do uso de combustível. Hoje as usinas gastam em média 0,330 a 0,550 ml de combustível por equipamento por tonelada trasbordada no rodotrem. A gente deixou os caminhões para test-drive em algumas usinas e eles conseguiram chegar em um consumo de combustível que variou de 0,190 a 0,210 ml por tonelada trasbordada. Isso equivale a praticamente 100% de economia.” 

Já no custo de manutenção de equipamento, Belei revela uma redução de quase R$ 6 por hora. “Nós temos hoje uma questão logística bem desenvolvida e ágil por conta da praticidade e velocidade que o caminhão opera, diferente do trator. Uma usina que tem 50 colhedoras vai precisar de 109 equipamentos. Agora, usando o caminhão-transbordo, essas mesmas colhedoras precisariam de 85 equipamentos, 24 a menos na operação. E isso causa uma série de economias, como na redução de custos com a mão de obra, por exemplo”, acrescenta.

Além disso, Belei revela que a empresa teve uma preocupação a mais com os pneus do equipamento, que tem a dimensão reduzida. “Com esse caminhão posso trabalhar com um pneu mais estreito, que é mais barato. A reposição de pneus chega a ser 50% menor se compararmos aos tratores. Sendo assim, com o trasbordo a compactação não é mais uma preocupação”, afirma. 

EM PRIMEIRO LUGAR, A FAMÍLIA

 Casado e pai de duas filhas – Manuela, de 10 anos e Betina, de 1 ano e 6 meses, Belei revela que para conseguir conciliar tudo é preciso separar as prioridades. “Primeiro vem a família, depois o trabalho e o restante a gente acaba correndo atrás. A gente tem que conciliar a rotina de trabalho com a familiar, o que não é fácil.  Embora eu tenha pouca idade, assumi a responsabilidade desde muito cedo, trabalho no ramo desde os meus onze anos. Pude acompanhar toda a evolução e criei experiência e a vontade de crescer, o que, na minha opinião, é o combustível da nossa família.”

Ultimamente Belei passa grande parte do seu dia na estrada, visitando os clientes da Grunner Tec. E quando tem um tempo livre, procura descansar com toda a família na fazenda. “Como meu pai mora na fazenda, acabo indo direto para lá todos os finais de semana.”

Mas para relaxar o que ele gosta de fazer é pescar. “Eu amo pescar. Meu hobby é a pesca, sem dúvidas. Ao contrário do que falam: ‘está nervoso, vai pescar’, eu sou muito calmo e acho que o esporte me traz paz e tranquilidade. Quando estou pescando consigo pensar e desenvolver novas ideias.”

Belei é enfático quando perguntado sobre qual sua filosofia de vida. Ele conta que aprendeu a carregar o mantra de que na vida você deve fazer aquilo que ama. “No seu trabalho ou em qualquer coisa que você faça é fundamental que você tenha paixão por aquilo. Acredito que a pessoa tenha que fazer somente o que realmente gosta. Isso eu acho que é um dos fatores fundamentais para o crescimento pessoal de cada um. Hoje eu atuo em duas áreas que eu adoro. Nela eu tenho o contato com o campo, com as pessoas e ainda posso viajar”, diz.

Depois de mais três décadas de vida, ele conta que se pudesse se resumir em uma palavra, essa palavra seria dedicação. “A gente cresceu aqui muito sendo honesto, humilde, sincero e dedicado. Eu penso que nada ao contrário disso vai levar qualquer pessoa ao sucesso. Eu acredito que hoje a humildade, juntamente com a determinação e honestidade, são o meu combustível. A gente veio de uma família muito pobre e com toda essa determinação conseguimos crescer e ser o que somos. No início muitas pessoas nos criticaram por conta da nossa situação financeira, por não termos estudos e hoje chegamos neste patamar. Para mim e para a minha família isso já é uma vitória, pois crescemos sem pisar em ninguém, com todas as virtudes boas que um ser humano precisa ter. E digo mais, todo esse sucesso está apenas no começo”, conclui.