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Por: José Luiz Tejon Megido, membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e Dirige o Núcleo de Agronegócio da ESPM.

‘Quem faz o comércio não faz a guerra’, assim escreveu o poeta português Camões.  A FECAP nasceu para educar brasileiros para a arte do comércio, quando seus fundadores registraram: “sabemos produzir café, não sabemos comercializar”. E agora, em 2020, nos encontramos aqui no centro de São Paulo lançando o Agribusiness Center, uma linha acadêmica de estudos e pesquisas com ênfase no comércio, dentro da visão estratégica das cadeias produtivas do agribusiness.

Esse conceito nasceu em Harvard nos anos 50, com os professores Ray Goldberg e John Davis. Goldberg, quando criança, viu seu pai, produtor rural, sofrer com a desconexão entre os agricultores e os donos dos armazéns e destes com os clientes agroindustriais.

Ao realizar seus estudos, fundamentado na teoria de input e outputs das cadeias produtivas, compreendeu que a atividade agropecuária dependia dos insumos, máquinas, sementes, produtos veterinários, e esses, por sua vez, dependiam dos produtores. Todos esses dependiam do transporte, da logística, das agroindústrias, dos supermercados e dos consumidores finais. E, em paralelo a isso, havia o sistema de serviços financeiros, seguro e o planejamento agroalimentar do governo. Assim nasce agribusiness.

No Brasil, foi traduzido como agronegócio e teve em Ney Bittencourt de Araújo seu pioneiro inspirador. Nascia a ABAG no início dos anos 90, ao lado do PENSA – Programa de Estudos dos Negócios do Setor Agroindustrial, criado pelo Prof. Decio Zylbersztajn, na FEA-USP.

Porém, ainda em 1977, um programa pioneiro de marketing rural era lançado exatamente pela FECAP, na unidade do Largo de São Francisco. O professor era Dênis Ribeiro, um brilhante economista, que atuou no governo e dedicou muitos anos à ABIA – Associação Brasileira da Indústria de Alimentos e Bebidas, cujo montante de faturamento atinge quase R$ 700 bilhões.

Curiosamente, exatamente a FECAP oferecia um programa de negócios rurais, na década de 70, quando, por essa coisa indecifrável do destino, eu era um aluno. Vinha de Pompeia, 500 km de trem, onde trabalhava na Jacto, para assistir às aulas do admirado Prof. Dênis, exatamente na FECAP. E agora aqui estamos reunidos nela, já dentro da visão contemporânea de agronegócio, mas sem perder essa angulação original do marketing e do comércio.

Agribusiness, como visão sistêmica, tem, nos estudos do Cepea da ESALQ, números em torno de 23,5% do total do PIB do País. Quando estudamos esses números na virada dos anos 90, eles contavam 35% do PIB. Portanto temos aí um desafio novo: rever os números que contam no agronegócio e talvez encontrar números que não são contados e que contam. Um desafio para a equipe FECAP.

É fundamental termos um perfeito “accountability” das cadeias produtivas do agro nacional para podermos encaminhar propostas e visões de prioridades, investimentos e legislações, objetivando dobrar o agro nacional de tamanho e com isso oferecer ao País um aumento digno do seu PIB, hoje na casa de US$ 2 trilhões (dependendo do câmbio), porém muito pequeno para a dimensão e o potencial brasileiro no mundo.

Acreditamos que via planejamento estratégico do agronegócio, de todas as suas cadeias produtivas, do A do abacate ao Z do zebu, incluindo agroindustrialização e inteligência de comércio, poderemos acessar rendas externas e com isso desenvolver de forma capilar todo o interior brasileiro com logística, processamento, agregação de valor, comércio e serviços, ciência e tecnologia, sem dúvida, a bioeconomia.

São Paulo é a maior cidade de agribusiness do País, e provavelmente de toda América Latina. Por quê? Porque a soma dos fatores do antes, dentro e pós-porteira aponta para a cidade de São Paulo como detentora dos maiores volumes das indústrias, sistema financeiro, bolsas, agroindústrias, transportadores, logística, comércio, com Ceagesp e redes de supermercado e varejo da alimentação do País.

Ou seja, nada no dentro da porteira, com exceção ao futuro próximo de agricultura vertical e alguma coisa de local farming nas periferias paulistanas, ou ainda do surgimento de um paisagismo e uma jardinagem/hortas, de agricultores do asfalto, ou mesmo quem sabe “nerd farmers” produzindo com seus computadores.

Mas a renda acumulada da cidade de São Paulo, de fato, está no tamanho das organizações do antes da porteira e dos pós-porteira das fazendas. Dessa forma, mesmo sem nada plantar, é a operadora do maior volume financeiro e econômico do agro nacional! Curioso?

Bem, basta ver a Holanda, pequeno território, porém é o maior país de agribusiness do mundo, exatamente pelos aspectos de agregação de valor, de serviços e de comércio, com o espetacular Porto de Roterdam. Além da melhor universidade de ciências agrárias do mundo Wageningen. E nós temos aqui em São Paulo a ESALQ USP, a 4ª melhor do mundo em ciências agrárias.

Mas 2021 vem aí e precisaremos transformar nossas visões de forma acelerada. Temos um ótimo plano, o maior do mundo para uma agricultura sustentável – ABC – Agricultura de Baixo Carbono. Inclui modelos de integração de sistemas agroflorestais. Integração lavoura pecuária e florestas. Faz parte o plantio direto. E essa cultura de cultivo já ultrapassa 17 milhões de hectares, com previsão de chegarmos a 30 milhões de hectares nos próximos 10 anos. Eu creio que seremos o dobro disso.

Dessa forma, a originação passa a valer muito mais do que no século XX. O novo século significa um sistema de saúde “health system”, como explica o Prof. Dr. Ray Goldberg. Inclui meio ambiente, saúde de solos, plantas, animais, pessoas. Uma agrocidadania.

E neste século XXI, precisaremos educar toda a sociedade para a ciência, para valores nutricionais. Assistiremos agrônomos expertos em solos e plantas se aproximarem de médicos e de nutricionistas humanos e vice-versa. As áreas acadêmicas se reunirão, se integrarão.

E agribusiness será o algoritmo de todos os algoritmos. Alimento está em tudo e tudo está no alimento. Somos química natural. Não vivemos sem os micronutrientes, o potássio, o boro, o silício. Iremos ver a agroindústria lançando produtos biofortificados, o mundo do bionutritivo. Veremos a proteína do pescado crescer, ao lado de todas as demais, incluindo os lácteos. A hortifruticultura da mesma forma. A edição gênica irá conversar com a análise sensorial dos neurônios humanos. Além disso, a bioenergia, as fibras, e o espetacular negócio das árvores plantadas, como a Ibá.

O novo agronegócio na educação será a reunião de todos os retalhos do conhecimento num legítimo design thinking do todo. Administradores, economistas, biólogos, pessoal de TI, eletrônica, física, química, comunicadores e até astrônomos, pois sem dúvida iremos ter colônias em Marte e precisaremos de sementes e plantios em atmosferas controladas.

Os educadores do agronegócio precisarão compreender a dimensão humana desse megassetor. Talvez movimente no planeta algo em torno de US$ 20 trilhões. E, quando olhamos para as zonas de pobreza e miséria no mundo, iremos concluir que será através de projetos sistêmicos de agronegócio, com começo meio e fim, quer dizer com ciência e tecnologia, com treinamento dos produtores e suas equipes e com agroindústrias, agregação de valor e comércio, incluindo o cooperativismo, crédito, seguro e planejamento, que iremos diminuir as desigualdades planetárias.

Mas fica aqui então o lado do comércio nesse brilhante agronegócio. Precisaremos sim de uma organização mundial do comércio forte e respeitada. O Brasil precisa compreender e lutar nesse sentido, pois as negociações bilaterais podem e são úteis, entretanto os desequilíbrios precisam ter um fórum justo e de autorregulamentação, como um código de ética para que o fair trade “prevaleça acima do distrust”.

Vamos carecer de “trust” doravante.

O papel do agronegócio, como afirma nosso conselheiro da FECAP Dr. Roberto Rodrigues, é de paz, pois alimento é paz.

O comércio está no DNA da FECAP e o traremos para nossos programas de agronegócio. Um estudo realizado pela universidade de Austin nos Estados Unidos e a Deloitte, sobre por que empresas centenárias mais bem-sucedidas eram um sucesso, o resultado apontou para 3 fatores:

1- Inovação;
2- Vendas;
3 – Os dois anteriores.

Quer dizer: quem não vende não inova, pois, para inovar, precisa vender. Teremos nos próximos 10 anos no Brasil imensas oportunidades dentro de todas as cadeias do agribusiness. E o País precisará de todos os profissionais de distintas cadeiras acadêmicas numa visão interdisciplinar.

Das ciências sociais, conduzindo cooperativas, até a transformação da sociologia em economia. Da genética à ciência da computação. E do marketing de uma das maiores 500 empresas de alimentos e bebidas do mundo para a competência da negociação com ONGs, e orquestrando seu suply chain, protegendo e diminuindo os riscos dos seus milhares de produtores rurais, sem dúvida, sempre o elo mais frágil do sistema de agronegócio.

O mundo pela frente é maravilhoso, e não nos dá muito tempo para perder. Antigamente dizíamos o presente é o resultado do passado. Agora dizemos, o presente é o resultado do futuro.

Estamos na FECAP, no agribusiness Center, com pesquisadores e educadores de várias áreas da nossa faculdade, e com programas internacionais, como a Audencia Business School, de Nantes, França, curiosamente da mesma forma uma instituição educadora nascida dos comerciantes de Nantes. Participamos do CIGA – Colaborative Institute Global Agribusiness, com diversas instituições mundiais, numa coordenação francesa. E já teremos no Brasil o programa AGRIBUSINESS & COMMERCE.

E, para dobrarmos o agro brasileiro, objetivarmos US$ 1 trilhão de movimento na soma total das cadeias produtivas em 10 anos, sem dúvida precisaremos de inovações, infraestrutura, desburocratização, crédito, logística, educação dos agentes. Porém, podemos ter tudo isso, mas sem a inteligência do comércio, poderíamos estar repetindo, trazendo ao tempo presente a razão pela qual nossos fundadores criaram a FECAP: “sabemos produzir, não sabemos comercializar”. O produzir moderno envolve uma mistura de todas as ciências, porém, sem o comércio nada se move.

E como Galileu Galilei, mesmo proibido de dizer que a terra não era o centro do universo, repetia: “e pur si muove”. Mas ela se move.

Vamos ao agronegócio, século XXI, com o comércio. Mover o País.

O comércio é o que moverá o novo agronegócio.

Por: José Luiz Tejon Megido, membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e Dirige o Núcleo de Agronegócio da ESPM.

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