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Da cana ao milho: indústria de Sertãozinho se reinventa para atender nova onda de investimentos

Foto| Ilustrativa: Unidade Cerradinho Bio
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Expansão das usinas flex e full milho — com 22 novas plantas em projeto ou construção — impulsiona demanda por tecnologia, automação, equipamentos e soluções industriais, fortalecendo o papel do polo paulista na nova bioeconomia

A rápida expansão das usinas de etanol de milho e das operações flex está promovendo uma transformação profunda na indústria fornecedora do setor bioenergético brasileiro. Levantamento da RPA Consultoria aponta que o Brasil conta atualmente com 32 unidades produtoras de etanol de milho em operação — entre plantas full milho e flex. O levantamento também contabiliza uma unidade dedicada ao processamento de soja para produção de etanol e outra operação flex envolvendo milho e soja. Paralelamente, o segmento segue atraindo novos investimentos, com cerca de 22 plantas de etanol de milho em fase de projeto ou construção, segundo dados monitorados pela União Nacional do Etanol de Milho (UNEM). Mais do que ampliar a capacidade produtiva de biocombustíveis, esse movimento está redefinindo a demanda por tecnologia, engenharia, automação, eficiência energética e integração industrial.

No centro dessa transformação está Sertãozinho (SP). Reconhecida internacionalmente como um dos principais polos de tecnologia, engenharia e equipamentos para o setor sucroenergético, a cidade vem ampliando seu protagonismo para atender uma nova geração de biorrefinarias que combinam cana, milho, outros grãos, energia, coprodutos e soluções cada vez mais sofisticadas de controle operacional. Para lideranças da Fenasucro & Agrocana, do CEISE Br e de empresas fornecedoras de tecnologia, o avanço do etanol de milho representa muito mais do que um novo mercado: trata-se de uma mudança estrutural na forma como a bioenergia é produzida e concebida no Brasil.

Se há uma década o etanol de milho era visto como uma alternativa complementar dentro do setor bioenergético, hoje ele se tornou um dos principais vetores de investimento da cadeia. O impacto já pode ser percebido não apenas na construção de novas usinas, mas também na forma como fabricantes, integradores e empresas de engenharia estão redesenhando seus negócios para atender uma indústria que passa a operar de forma cada vez mais integrada, digitalizada e contínua.

Etanol de milho acelera transformação da indústria de base

Para Paulo Saraiva, diretor do CEISE Br e CEO da PS7 Consultoria, o setor vive uma transformação que vai muito além do crescimento da produção. “A expansão do mercado é apenas a face mais visível desse movimento. O etanol de milho traz novas demandas de engenharia, logística, automação, eficiência energética, gestão de coprodutos e integração de processos. Ao mesmo tempo, estimula ganhos de produtividade e inovação em toda a cadeia bioenergética, incluindo as usinas de cana-de-açúcar”, afirma.

Segundo ele, o setor caminha para modelos cada vez mais integrados, nos quais diferentes rotas de produção coexistem e se complementam. Nesse contexto, a indústria brasileira deixou de ser apenas fornecedora de equipamentos para assumir papel estratégico no desenvolvimento de soluções tecnológicas para as novas plantas.

A avaliação é compartilhada por Daniela Ribeiro, diretora do CEISE Br e sócia da Tubesteel. Segundo ela, o avanço do etanol de milho fortalece a matriz bioenergética nacional e amplia as oportunidades para toda a cadeia industrial. “Mais do que uma nova rota produtiva, o etanol de milho fortalece a matriz bioenergética brasileira, amplia a diversificação de matérias-primas e contribui para a expansão da bioeconomia nacional. Esse movimento cria novas oportunidades para a indústria de base, reduz a sazonalidade de parte da cadeia produtiva e estimula investimentos em tecnologia, equipamentos, engenharia, automação e serviços especializados”, destaca.

Para a executiva, o crescimento das novas plantas já gera impactos concretos para a indústria nacional, que passou a fornecer desde sistemas industriais e automação até armazenagem, tratamento de água, geração de vapor e integração de processos.

Daniela destaca ainda que a indústria brasileira vem respondendo rapidamente às demandas desse novo ciclo de investimentos. “As empresas nacionais vêm se adaptando tecnologicamente, incorporando novas soluções e combinando conhecimento local com tecnologias já consolidadas internacionalmente. Hoje temos capacidade para atender grande parte das necessidades dessas novas plantas”, afirma.

Na avaliação do CEISE Br, o crescimento do milho não substitui a cana-de-açúcar. Pelo contrário. As duas rotas tendem a coexistir e fortalecer o conceito de bioindústria integrada, ampliando a competitividade do Brasil na produção de combustíveis renováveis, energia e coprodutos.

O crescimento das novas plantas já gera impactos concretos para a indústria nacional, que passou a fornecer desde sistemas industriais e automação até armazenagem, tratamento de água, geração de vapor e integração de processos. (Crédito: Vicente Cornetta – SP Studio)

A transformação vista de dentro da Fenasucro

Poucos ambientes refletem tão bem essa transformação quanto a própria Fenasucro & Agrocana. Segundo Paulo Montabone, diretor da feira, o crescimento do etanol de milho pode ser acompanhado dentro do evento praticamente ano a ano.

A mudança começou entre 2015 e 2017, quando as primeiras usinas flex e full milho do Centro-Oeste entraram em operação. “Naquele momento, o milho aparecia na Fenasucro como uma curiosidade técnica. Eram apresentações isoladas, sem peso comercial relevante. Mas a feira já reconhecia o etanol de milho como um referencial produtivo crescente dentro do setor sucroenergético”, recorda.

Entre 2019 e 2022, o cenário começou a mudar. Empresas tradicionalmente ligadas à cana passaram a apresentar soluções adaptadas ao processamento de grãos. Equipamentos para movimentação de milho, secagem de DDG, automação, destilação, cogeração e armazenagem começaram a ocupar espaço crescente entre os expositores.

“A partir de 2022 e 2023, com a explosão das biorrefinarias no Mato Grosso e em Goiás, o milho deixou de ser nicho e virou pauta central. A Fenasucro passou a destacar que seus expositores têm condições imediatas para atender a demanda das novas plantas, seja de etanol de milho, biogás ou biometano”, afirma.

Para Montabone, o avanço do milho reforça uma característica histórica de Sertãozinho: a capacidade de adaptação tecnológica. Mas, mais do que isso, amplia o papel estratégico da cidade dentro da transição energética e da nova bioeconomia.

“A Fenasucro não apenas reconhece Sertãozinho como sede histórica. Ela reposiciona a cidade como capital mundial da bioenergia, num momento em que esse conceito vai muito além da cana-de-açúcar”, afirma Montabone.

Segundo ele, o diferencial da região está na concentração de conhecimento técnico, capacidade industrial instalada e empresas aptas a atender diferentes rotas da bioenergia. “Boa parte dos processos é semelhante e hoje temos vários expositores que são líderes tanto no segmento da cana quanto no de cereais. O polo reúne fabricantes, empresas de engenharia, automação, montagem, manutenção e profissionais especializados capazes de atender diferentes rotas da bioenergia.”

Para Montabone, a indústria nacional possui condições de atender esse novo ciclo de investimentos. “Não existe equipamento que não possa ser fabricado pela indústria de base do Brasil. Temos tecnologia e técnicos capazes de produzir etanol, seja qual for a matéria-prima entregue nas biorrefinarias.”

Montabone ressalta que a transformação observada no etanol de milho é apenas uma parte de um movimento mais amplo que vem reposicionando o setor bioenergético brasileiro. Segundo ele, temas como biogás, biometano, combustível sustentável de aviação (SAF), captura e utilização de carbono, hidrogênio verde e novas rotas da bioeconomia vêm ganhando espaço crescente nas discussões promovidas pela Fenasucro & Agrocana e pela FenaBio, refletindo a evolução das usinas para um conceito cada vez mais integrado de biorrefinaria.

Bbiogás, biometano, combustível sustentável de aviação (SAF), captura e utilização de carbono, hidrogênio verde e novas rotas da bioeconomia vêm ganhando espaço crescente nas discussões promovidas pela Fenasucro & Agrocana e pela FenaBio.

Novas plantas exigem nova engenharia

O crescimento das usinas flex e full milho também elevou o grau de exigência dos projetos industriais. Na HPB, empresa especializada em geração de vapor e eficiência energética, o avanço desse segmento é considerado uma das transformações mais relevantes do setor sucroenergético nas últimas décadas.

“O crescimento da indústria de etanol de milho representa uma das transformações mais relevantes do setor sucroenergético brasileiro nas últimas décadas. As plantas possuem elevada exigência de disponibilidade operacional, operação praticamente contínua ao longo do ano e forte sensibilidade aos custos energéticos”, afirma Marco Zanato, gerente comercial da HPB.

Segundo ele, isso mudou a forma como os empreendimentos enxergam a geração de vapor. “A geração de vapor deixou de ser vista apenas como uma utilidade industrial e passou a ocupar uma posição estratégica dentro da rentabilidade do empreendimento. Atualmente, os clientes buscam soluções que permitam maximizar a eficiência energética, reduzir o consumo específico de combustível, aumentar a disponibilidade operacional e atender requisitos ambientais cada vez mais rigorosos.”

Nas operações flex, o desafio se torna ainda mais complexo. A necessidade de integrar cana e milho faz com que o aproveitamento energético do bagaço passe a ser um fator decisivo para a rentabilidade do negócio. “Tecnologias que proporcionam maior eficiência na geração de vapor permitem reduzir o consumo específico de combustível e maximizar o aproveitamento do bagaço disponível. Em muitos casos, essa eficiência adicional é determinante para viabilizar a integração da produção de etanol de milho sem a necessidade de ampliações significativas na disponibilidade de biomassa”, explica.

Para Zanato, o desafio atual não é apenas gerar vapor, mas fazê-lo com o menor custo possível, elevada confiabilidade e máxima flexibilidade operacional, requisitos cada vez mais presentes nas decisões de investimento das novas plantas.

Automação acompanha a evolução das biorrefinarias

A mesma transformação é observada pela Fertron, empresa especializada em automação e elétrica industrial. Para Ágata Turini, diretora comercial da empresa, o etanol de milho deixou de ser uma oportunidade pontual para se tornar um movimento estrutural.

“A leitura que fazemos é de um movimento que deixou de ser pontual e se tornou estrutural. Há cinco ou seis anos, o etanol de milho era uma conversa periférica nas usinas — uma alternativa de entressafra. Hoje ele responde por cerca de um quinto do etanol produzido no Brasil e segue crescendo em ritmo que poucos setores industriais conseguem acompanhar.”

Segundo ela, as novas plantas trouxeram desafios que exigem uma abordagem completamente diferente daquela tradicionalmente utilizada nas usinas de cana. “Uma planta de milho exige instrumentação específica para etapas que praticamente não existem na usina tradicional de cana. Cada uma dessas etapas possui variáveis críticas que precisam ser lidas, controladas e integradas em tempo real. Não é reinventar a roda. É recalibrá-la para um grão que se comporta de outra maneira.”

A executiva destaca que as operações de milho exigem controle permanente da armazenagem, movimentação contínua de grãos e integração entre diferentes linhas produtivas.

“Uma planta de milho gera múltiplos coprodutos — etanol, DDGS, óleo e CO₂ — e cada linha precisa conversar com as outras. Sem um sistema de supervisão que dê visibilidade em tempo real do nível operacional ao executivo, a planta perde rendimento e o gestor perde capacidade de decisão.”

Segundo Ágata, o crescimento do milho também alterou o perfil dos projetos recebidos pela empresa, tanto pela expansão geográfica das novas plantas quanto pela crescente demanda por soluções integradas capazes de reunir engenharia, automação, elétrica industrial, montagem e comissionamento dentro de um mesmo escopo.

O caminho para operações de 365 dias

A convergência entre cana e milho está mudando também a lógica operacional das usinas brasileiras. Se durante décadas o setor conviveu com ciclos marcados pela sazonalidade da cana, as novas biorrefinarias caminham para operações cada vez mais contínuas.

Para Paulo Montabone, essa será uma das principais mudanças da próxima década. “Hoje a eficiência e a otimização são a chave do negócio. Com a aproximação das usinas flex e híbridas, as paradas serão praticamente inexistentes. Um ciclo de 365 dias vem aí, e a tecnologia e a durabilidade serão exigidas em níveis cada vez maiores.”

Essa visão é compartilhada pela HPB e pela Fertron. Na avaliação de Marco Zanato, a disponibilidade operacional se tornou um dos fatores mais importantes para a rentabilidade das plantas, especialmente em um cenário em que interrupções representam perdas significativas para operações que trabalham praticamente o ano inteiro.

Já para Ágata Turini, o desafio passa pela construção de sistemas capazes de integrar diferentes matérias-primas sem comprometer a eficiência dos processos.

“Quando a planta alterna entre cana e milho ao longo do ano, ela precisa de uma arquitetura de automação que reconfigure receitas, set-points e fluxos sem refazer engenharia toda vez. É uma nova forma de pensar a indústria.”

Da bioenergia à bioindústria

Se o etanol de milho foi o gatilho dessa transformação, os entrevistados concordam que o movimento em curso é muito mais amplo do que a expansão de uma nova matéria-prima. Na avaliação de Paulo Montabone, a bioenergia brasileira caminha para um modelo cada vez mais integrado, em que diferentes fontes renováveis, coprodutos e tecnologias passam a coexistir dentro de uma mesma plataforma industrial.

Segundo ele, essa mudança já pode ser observada nas discussões que ganharam espaço dentro da Fenasucro & Agrocana e da própria FenaBio, que ampliaram o debate para temas como captura e utilização de carbono, combustível sustentável de aviação (SAF), biogás, biometano, hidrogênio verde e novas rotas da bioeconomia.

“Estamos num caminho sem volta para as biorrefinarias flexíveis e híbridas. As nossas indústrias já estão no mercado de etanol de cereais há bastante tempo, tropicalizando equipamentos, sistemas e processos. As biorrefinarias flexíveis serão a próxima tendência do mercado.”

fenasucro
Este ano, o tema da Fenabio será “2050: tendências e caminhos para o futuro” – com dois dias de palestras técnicas com grandes nomes do setor

Para o diretor da Fenasucro, a evolução natural dessas plantas será a integração de diferentes cadeias produtivas. “Logo mais veremos ecossistemas produzindo proteínas, alimentos, biocombustíveis, produtos químicos e até plásticos de origem renovável dentro de uma mesma cadeia. Tudo aquilo que hoje conhecemos vindo do fóssil poderá ser produzido a partir da biodiversidade que temos.”

No CEISE Br, a visão é semelhante. Para Paulo Saraiva, o protagonismo dos próximos anos estará na capacidade de integrar tecnologias. “Mais do que uma tecnologia específica, o protagonismo estará na capacidade de integrar diferentes soluções para aumentar eficiência, competitividade e sustentabilidade. O futuro da bioenergia passa pela integração de tecnologias capazes de reduzir custos, aumentar produtividade e fortalecer o conceito de biorrefinaria.”

Na visão da Fertron, tecnologias como inteligência artificial, gêmeos digitais, monitoramento em tempo real e integração entre campo e indústria devem ganhar espaço à medida que as biorrefinarias buscam aumentar eficiência, reduzir custos e ampliar a previsibilidade operacional.

“Estamos vendo agricultura 4.0, inteligência artificial em processo, monitoramento embarcado e integração entre campo e indústria. Não é mais uma indústria que automatiza no ritmo antigo. É uma indústria que está sendo redesenhada”, afirma Ágata Turini.

O avanço do etanol de milho pode ter começado como uma alternativa para ampliar a produção de biocombustíveis, mas seus efeitos já extrapolam os limites das usinas. Ao impulsionar investimentos, acelerar a inovação tecnológica e estimular novas rotas de bioenergia, o segmento está ajudando a redesenhar a indústria brasileira. Nesse processo, Sertãozinho reforça sua posição não apenas como berço da tecnologia sucroenergética, mas como um dos principais centros de desenvolvimento da bioenergia e da bioeconomia nacional, capacitado para atender um setor que passa a integrar cana, milho, biogás, carbono, combustíveis renováveis e novas plataformas industriais em uma mesma estratégia de crescimento.

Natália Cherubin para RPAnews

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Episódio 23: O etanol de milho pode mudar o futuro das usinas brasileiras?

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