Projeto na Bacia do Paraná foi protocolado junto à ANP e terá a Usina São Manoel como fornecedora de CO₂ e energia renovável
A Endura Carbon anunciou o desenvolvimento de um projeto de captura e armazenamento geológico de carbono de origem biogênica (BECCS) voltado ao setor sucroenergético, com investimento preliminar superior a R$ 1,5 bilhão. Segundo a empresa, o Polo Centro-Oeste Paulista será o primeiro projeto em escala comercial no país concebido para receber CO₂ de múltiplas fontes do setor. A companhia protocolou junto à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) a solicitação de área para armazenamento geológico na Bacia do Paraná, em São Paulo, e firmou parceria com a Usina São Manoel.
A usina participará como fornecedora de CO₂ e de energia elétrica renovável ao empreendimento, além da possibilidade de fornecimento de biometano. O projeto prevê a captura do dióxido de carbono de origem biogênica gerado em processos como a fermentação do etanol e a produção de biogás.
O anúncio representa, de acordo com a Endura, a passagem da etapa de estudos para a fase formal de desenvolvimento. A companhia ressalta, entretanto, que ainda não houve decisão final de investimento. A implantação dependerá da conclusão dos estudos técnicos, das autorizações regulatórias e ambientais e da estruturação comercial e financeira.
O investimento superior a R$ 1,5 bilhão também é uma estimativa preliminar de engenharia e poderá ser revisado à medida que o projeto avançar.
Projeto poderá reunir CO₂ de diferentes usinas
A proposta foi estruturada para receber dióxido de carbono proveniente de múltiplas fontes do setor sucroenergético, em vez de ficar vinculada a apenas uma unidade industrial. Segundo a Endura, a configuração permite ganhos de escala e possibilita a entrada de novos fornecedores ao longo do desenvolvimento do polo.
A empresa afirma ainda que o modelo não exigirá investimentos de capital por parte das usinas de etanol que fornecerem o CO₂.
Outro componente previsto é a integração energética. A Endura pretende utilizar bioeletricidade e biometano produzidos pelas próprias usinas participantes para atender às necessidades energéticas das operações de captura e armazenamento.
O CO₂ proveniente da fermentação do etanol e da produção de biogás apresenta alta pureza, característica que, segundo a empresa, reduz o custo e a complexidade da captura quando comparada a processos industriais nos quais o carbono está presente em gases mais diluídos.
Antes de protocolar a solicitação junto à ANP, a Endura afirma ter realizado mais de um ano de estudos sobre a Bacia do Paraná. O trabalho envolveu a reunião e reinterpretação de informações de poços, levantamentos sísmicos e estudos geológicos, além de dados de magnetometria e gravimetria.
A análise buscou identificar reservatórios geológicos profundos com potencial de armazenamento de CO₂ e as formações rochosas capazes de atuar como camada selante.
“Integramos e reinterpretamos um grande volume de dados até termos convicção técnica sobre onde o CO₂ pode ser armazenado em grandes volumes e com permanência. O projeto nasceu da geologia e da compreensão do potencial do reservatório, e não de uma oportunidade comercial que depois foi buscar um lugar para acontecer”, afirma Daniel Pedroso, cofundador e CEO da Endura.
Usina São Manoel integra projeto
A Usina São Manoel será a primeira parceira industrial anunciada para o empreendimento, fornecendo CO₂ e energia elétrica renovável, com possibilidade também de fornecimento de biometano.
“A transição para uma economia de baixo carbono é uma oportunidade histórica para o agronegócio brasileiro. Projetos como este abrem novas frentes de desenvolvimento sustentável para a região, abrem novas oportunidades relacionadas aos subprodutos gerados pelo setor e reforçam o protagonismo do Brasil na agenda climática global”, afirma Pedro Dinucci, diretor-presidente da Usina São Manoel.
A captura do CO₂ gerado na fermentação também poderá reduzir a intensidade de carbono do etanol produzido pelas usinas participantes. A Endura aponta que essa característica pode ter reflexos em cadeias que utilizam o biocombustível como matéria-prima ou combustível, como aviação, transporte marítimo e indústria química.
Na aviação, o etanol pode ser utilizado na rota alcohol-to-jet (ATJ) para produção de combustível sustentável de aviação (SAF). Segundo a empresa, a captura e o armazenamento do CO₂ da fermentação, associados a outras medidas de descarbonização da cadeia, podem reduzir a pegada de carbono do combustível produzido a partir do etanol.
A companhia também cita o uso de etanol no transporte marítimo como outra possibilidade de aplicação para uma cadeia associada à captura e armazenamento de carbono.
Segundo dados do Global CCS Institute citados pela Endura, existem atualmente 77 projetos de captura e armazenamento de carbono em operação no mundo. A companhia afirma que o Brasil ainda não possui um projeto comercial dedicado ao armazenamento geológico de CO₂ em operação.
As próximas etapas do Polo Centro-Oeste Paulista incluem a análise do pedido pela ANP, investimentos previstos para confirmar a caracterização e a capacidade do reservatório, estudos de engenharia e o processo de licenciamento ambiental. A capacidade de injeção de CO₂, o cronograma e a configuração final do investimento ainda serão definidos.
Natália Cherubin com informações da Endura Carbon





