Especial – Retrospectiva 2018: como foi o ano para o setor sucroenergético?

Mesmo projetando quebra de safra e de produtividade, o setor surpreendeu com a sua capacidade de flexibilidade no mix de produção

Natália Cherubin

Parece que foi ontem que conversamos com alguns agentes do setor sucroenergético – usinas, produtores e consultores – para trazer aos nossos caros leitores uma breve projeção da safra 2018/19 para o Centro-Sul, maior região produtora do País. O consenso que se tinha, até março deste ano, era de que o setor teria uma safra menor do que a anterior, com produtividades também menores, e que o clima e os preços do açúcar seriam fatores limitantes ao longo da temporada, que já antecipava ser mais alcooleira devido aos preços e a produção do açúcar no mercado mundial.

Se já se esperava uma temporada mais complicada, ao nos aproximarmos do final do ano e da safra, temos agora a certeza de que 2018, para muitas usinas e produtores, foi realmente muito difícil. Por outro lado, para algumas unidades que conseguiram aproveitar os bons preços do etanol, o ciclo foi melhor do que se estimava no início do ano.

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“A safra 2018/19 foi extremamente difícil. A seca fez com que os canaviais perdessem produtividade de forma severa e em muitos casos comprometesse a soqueira para o próximo ano. O plantio também sofreu com a estiagem e em muitas áreas a brotação do canavial ficou muito irregular. Aliado a isso, os valores do açúcar no mercado externo foram extremamente baixos e trouxeram baixa remuneração da matéria-prima. Ano muito difícil, de baixa produtividade e preço ruim. Estamos enfrentando um período de provação para o produtor de cana. Muitos estão pensando em abandonar o negócio, outros pensam em esperar mais um ano ou dois para plantar cana novamente, optando nesse período por culturas de ciclo mais curto como amendoim, soja e milho”, afirma Bruno Rangel Geraldo Martins, presidente da Socicana (Associação dos Produtores de Cana de Guariba)./

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Nastari: “Impressionante o direcionamento de mix nos acumulados até 16 de outubro, que foi de 11,7%. O máximo que tínhamos tido de swing de mix tinha sido de 5,6%. Foi uma forma extraordinária de demonstrar a capacidade da flexibilidade industrial brasileira”

A situação das usinas também mostra a dificuldade do ano. De acordo com levantamento atualizado da RPA Consultoria, até novembro de 2018, das usinas com status jurídico normal 308 operaram e 46 ficaram paradas. Das unidades em RJ 44 continuaram operando em 2018, contra 25 paradas. Das usinas falidas, quatro seguiram operando e 22 paradas. Só este ano, 12 usinas pararam de funcionar, sendo seis no Estado de São Paulo, três no Paraná, uma em Alagoas, uma em Goiás e uma no Mato Grosso do Sul (Imagem 1).

Ricardo Pinto, sócio-diretor da RPA Consultoria, afirma que fatos relevantes ocorreram durante o ano, como a troca de donos em três usinas: Bahia Etanol (ex-Ibirálcool, BA) passou da Carval para Amerra, Estivas (RN) foi da Biosev para Socopa, e Giasa (PB) foi da Biosev para Grupo Olhos D´Água. “Uma nova usina está se formando, a usina Aliança, em Penápolis, SP, pertencente à usina Atena. Além disso, uma usina faliu: a Alta Paulista, em Junqueirópolis, SP e uma usina foi religada: a Rio Amambaí (ex-Usinavi), em Naviraí, MS. Cinco usinas entraram em Recuperação Judicial: Santa Clotilde (AL), as três usinas do Grupo Clealco (Clealco, Queiroz e Campestre, todas em SP), e a Rio Pardo, também em SP”, revela.

De acordo com Ricardo, a safra ocorreu dentro do esperado em relação à queda de produção de cana. Contudo, foi uma safra acima do esperado em ATR e principalmente no mix para etanol. “E o fato mais impressionante e difícil: no dia 22 de agosto de 2018, Nova York chegou ao menor preço dos últimos dez anos do açúcar: 9,92 cents de dólar por libra-peso”, acrescenta.

Luiz Carlos Corrêa Carvalho, o Caio, sócio-diretor da Canaplan, avalia como aspectos “chave” da safra 2018/19 o baixo índice de renovação de canaviais na safra 2017/18 que, de novo, se manteve em 12%; idade média do canavial elevada; seca impactante com variações regionais importantes; endividamento médio alto e acesso a crédito mais difícil; custos subindo e baixos preços da cana; redução da área de canaviais, mas por outro lado, menor consumo de mudas com o crescimento do uso da meiosi. “Foi um ano muito difícil de custos, que aumentaram concomitantemente a uma importante queda de produtividade. A soma dos dois é o que nos leva a uma preocupação com os custos elevados. Infelizmente, na soma de 2018 ficamos com a redução de área e da tonelada de ATR por ha. Estamos vivendo uma mudança estrutural. Não é mais conjuntural. É estrutural”, afirmou.

O especialista de mercado da INTL FCStone, João Paulo Botelho, diz que a safra foi marcada, pela primeira vez, pelos preços em paridade com o mercado internacional com mais frequência, depois que no final do ano passado foram instituídos os ajustes diários com base no preço internacional da gasolina. Ao mesmo tempo, segundo ele, foi um ano com preços altos no mercado internacional de petróleo – na média do ano – assim como um ano de dólar valorizado em relação ao real por conta do clima político, o que proporcionou um ano de preços muito favoráveis ao etanol. Ao mesmo tempo, o mercado de açúcar em superávit elevado incentivou um mix mais alcooleiro.

“Essa mudança de mix, ou seja, a saída forte das usinas do mercado de açúcar foi a principal mudança do ano. Tivemos uma redução drástica de produção de açúcar e um aumento significativo do etanol, mesmo em um ano de dificuldades na disponibilidade de matéria-prima. E como segundo destaque tivemos a questão climática, com muita seca e baixa renovação e tratos culturais, que juntos causaram queda significativa do TCH, que só foi compensado, parcialmente, pelo ATR”, avalia Botelho.

Para Mario Luiz Lorencatto, presidente da Coruripe, a safra 2018/19 foi uma montanha russa. “Tivemos um pouco de tudo. Câmbio subindo, descendo, tivemos preços do açúcar extremamente deprimidos, e uma melhora agora no final, e tivemos a questão climática, que foi bem complicada, embora a gente trabalhe com três clusters em geografias diferentes, o que fez com que a perda de produção pelo impacto da seca fosse, no nosso caso, menor.”

No polo Iturama, MG, a Coruripe tem três unidades e lá, de acordo com o CEO da companhia, a seca pegou forte. Já em Campo Florido, outro cluster, a seca não foi tão grande, dada a condição de um solo que absorve melhor a umidade. Em Coruripe o volume de chuvas foi menor, mas a constância favoreceu a planta. “Ao final de tudo, estamos muito melhor do que planejamos, o etanol ajudou bastante, embora no nosso caso a flexibilidade de produção de etanol seja menor do que a média do setor – somos uma companhia mais açucareira”, afirma.

Além do etanol, o preço da energia também esteve melhor, principalmente no mercado spot, que teve preços interessantes. “Para a Coruripe não foi uma safra excepcional, mas foi muito melhor do que a safra ruim que estávamos esperando. Fizemos números melhores do que os que estavam no nosso orçamento, então podemos dizer que é similar à do ano passado. Não tivemos grandes resultados, mas é uma safra que permite a companhia atingir todos os objetivos financeiros, realizar todos os investimentos e se preparar para a safra do ano que vem”, adiciona Lorencatto.

Ricardo Junqueira, CEO da Diana Bioenergia, diz que vê o ciclo 2018/19 de forma positiva. Até o dia 12 de novembro, a usina Diana havia moído 1,107 milhões de t de cana com uma produção de 45 mil t de açúcar e 60 mil m3 de etanol total (hidratado e anidro), com um rendimento industrial acumulado de 88% e uma disponibilidade industrial de 97%. O ATR médio da safra foi de 131,60 Kg/t, com previsão de fechar a safra na primeira semana de dezembro atingindo uma moagem em torno de 1,3 milhões de t. “Foi uma safra positiva e de recuperação. Tivemos recuperação do nosso canavial, da nossa produtividade, dos nossos números e da nossa liquidez. Pela primeira vez, no final de setembro, fizemos um balanço semestral auditado pela KPMG que comprova a nossa volta aos trilhos.”

QUEBRA, BAIXA PRODUTIVIDADE, MAS ATR MELHOR

As primeiras projeções do ano, divulgadas no início da safra, apostavam em uma moagem variando entre 600 milhões e 550 milhões de t de cana. A Agroconsult, em entrevista a RPAnews, afirmou que esperava uma safra similar a 2017/18, com moagem em torno de 600 milhões de t para o Centro-Sul e 49 milhões de t para o Nordeste (como publicado na edição de março deste ano), número mais tarde atualizado para 562 milhões de t de cana. Já a Datagro, apostava no processamento de 580 milhões de t de cana no Centro-Sul do país, número revisado para 577 milhões de t e depois, em outubro, para 558 milhões de t de cana. A primeira estimativa da consultoria Canaplan – que considerava números entre 553 a 585 milhões de t – foi de 569 milhões de t, número revisado pela consultoria em outubro para 557 milhões de t. A INTL FCStone, que em julho havia previsto 573,9 milhões de t, revisou a previsão para 567 milhões de t.

A Unica (União da Indústria da Cana-de-açúcar) não faz projeções de safra, mas os últimos dados divulgados pela entidade mostram que no acumulado da safra 2018/19 até 1º de novembro, o processamento chegou a 508,34 milhões de t, queda de 4,35% se comparado ao mesmo período do ciclo anterior, que foi de 531,44 milhões de t.

Segundo Antonio de Padua Rodrigues, até final de outubro 52 unidades encerraram a moagem contra 53 na safra passada. Período considerado de 01 de abril a 31 de outubro. Durante o mês de novembro 152 unidades estavam previstas para encerramento da moagem. Em novembro de 2017, 97 unidades encerraram. Portanto, se não houver mais alterações por conta das condições climáticas, mais de 60 unidades continuam operando no mês de dezembro.

“A safra 2018/19 foi prejudicada pelo veranico prolongado principalmente no Estado de são Paulo, mais fortemente na região de São Carlos, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto. A redução na moagem está basicamente concentrada no Estado de São Paulo e Paraná. Apesar da quebra agrícola em toda a região central, as demais não terão redução na moagem em relação à safra passada, devido a expansão da área de colheita. Quase 50% da quebra agrícola foi compensada pela maior concentração de açúcares”, afirma Pádua à RPAnews.

Apesar do TCH ter reduzido bastante, o ATR surpreendeu. A expectativa no início do ano era de 135 kg por t de cana, mas até o final de outubro, a Canaplan projetava 138,5 kg por t de cana, o que seria um incremento de 1,50% com relação à safra anterior. Já no TCH, a consultoria espera uma média entre 70 e 71 t/ha. “A queda de produtividade muito tem a ver com o envelhecimento do canavial. Estamos envelhecendo demais os canaviais da região Centro-Sul. O acumulado até 01 de outubro mostra que estamos com o pior índice de média dos canaviais, que chegou a 3,66. Acreditamos que essa idade até o final do ano fique ainda pior”, afirmou Ciro Mendes Sitta, consultor da Canaplan.

A INTLFC Stone reduziu sua estimativa de ATR para o total da safra em 0,4%, para 139,0 kg/t, nível ainda 1,7% superior à safra anterior. A Datagro segue projetando um ATR com 4,3% de queda e um TCH que pode fechar abaixo de 60 t/ha.

INVERSÃO NO MIX

Já era esperada uma safra mais alcooleira, mas não se imaginava que as usinas teriam tamanha flexibilidade para produzir muito mais etanol. Em março, a Datagro previa uma produção de 25,3 bilhões de l de etanol no Centro-Sul. Já para o açúcar, a consultoria previa 32,6 milhões de t. Os dados revistos pela consultoria mostraram uma redução drástica na produção de açúcar que fechou, até o final de outubro, segundo a Datagro, em 26,4 milhões de t e o etanol em 32,47 bilhões de l. Ou seja, houve inversão no mix. Só para se ter uma ideia foi uma redução de 25,3% na oferta de açúcar, se comparada a safra anterior, e 22,6% a mais de etanol que no ciclo 2017/18. “Impressionante o direcionamento de mix nos acumulados até 16 de outubro, que foi de 11,7%. O máximo que tínhamos tido de swing de mix tinha sido de 5,6%, portanto, isso denota investimentos na indústria em flexibilidade industrial. Foi uma forma extraordinária de demonstrar a capacidade de flexibilidade industrial brasileira”, afirmou Plínio Nastari, diretor da Datagro, durante Conferência realizada no final do mês de outubro.

A expectativa inicial da Canaplan, em abril deste ano, era de mix de 41% para o açúcar e 59% para o etanol. Mas em outubro, a consultoria atualizou sua projeção para um mix de 36% para açúcar, com 26,4 milhões de t e 64% para o etanol, com uma produção de 29 bilhões de l, perto do teto do intervalo de 25,9 bilhões a 30,6 bilhões de l estimado para o Centro-Sul em 2018/19. Se confirmada, a oferta de etanol crescerá 11,2% sobre os 26,09 bilhões de l de 2017/2018, segundo a consultoria. “Não esperávamos que ia ser tão grande a redução da produção de açúcar. No entanto, isso nos mostra o quanto é importante essa flexibilidade das usinas em produzir o etanol”, afirmou Caio.

Para a INTL FCStone, apenas 35,1% da cana moída será destinada à produção de açúcar, a menor proporção em mais de 20 anos, caindo em 26,9% na comparação com a safra passada, para 26,3 milhões de t, o menor nível em 11 anos. “Com ATR menor e por conta da chuva dos últimos meses, ficou mais fácil para as usinas destinarem uma proporção ainda maior da matéria-prima para a produção de etanol. Como a maioria das empresas tem buscado exatamente isso, com o objetivo de aproveitar os melhores preços oferecidos pelo biocombustível em relação ao açúcar, o mix alcooleiro acabou superando nossas estimativas”, afirmou Botelho.

Ainda de acordo com o analista da INTL FCStone, considerando a conjuntura do consumo de combustíveis no Brasil, a projeção de produção de etanol hidratado registrou 20,9 bilhões de l e a de anidro para 9,2 bilhões de l. Com isso, a produção total de etanol no Centro-Sul, incluindo a partir do milho, deve alcançar 30,1 bilhões de l em 2018/19, 17,7% acima da temporada anterior e o maior volume da história.

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Nos últimos 15 dias de outubro, segundo dados da Unica, foi registrado 69,82% de cana direcionada à produção do biocombustível. Esse percentual é significativamente superior aos 57,15% observados na mesma quinzena de 2017. De acordo com Pádua, os dados reforçam a tendência observada ao longo de todo ciclo em que as empresas indicaram a preferência pela fabricação de etanol. “Caso as usinas não tivessem alterado o mix de produção, teríamos registrado até agora uma produção de açúcar 7,5 milhões de t superior àquela efetivamente apurada”. Nesse período, a produção de etanol de milho totalizou 30,57 milhões l. No acumulado desde o início da safra foram fabricados 367,60 milhões de l, incremento de 78,29% em relação ao volume produzido em igual período do ano passado.

Desde o início da safra até 1º de novembro, a produção de açúcar atingiu 24,35 milhões de t frente as 33,22 milhões no mesmo período de 2017. No caso do etanol, a produção acumulada alcançou 27,26 bilhões de l. “Apesar da redução esperada para a moagem, o aumento na qualidade da cana e o menor direcionamento da matéria-prima para açúcar irão permitir uma produção elevada de etanol, garantindo o abastecimento em todo período de entressafra”, explicou Padua.

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2019/20: MAIS UM CICLO ALCOOLEIRO

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Botelho: “a forte saída das usinas do mercado de açúcar foi a principal mudança do ano. Tivemos uma redução drástica de produção de açúcar e um aumento significativo do etanol, mesmo em um ano de dificuldades na disponibilidade de matéria-prima.

Ao que tudo indica, o etanol seguirá conquistando espaço no mix de produção. Em sua a primeira estimativa para a próxima safra do Centro-Sul brasileiro, a Datagro espera que a produção de açúcar fique praticamente estável em relação à temporada atual, o que significa mais um ciclo alcooleiro. “Será uma safra mais velha, o plantio de 12 meses está atrasado. Os tratos culturais estão em menor intensidade. Levantamento dos nossos agrônomos indica que a cana está atrasada no desenvolvimento, mas está respondendo bem as chuvas”, afirmou Nastari.

Ainda de acordo com a consultoria, menos usinas planejam retornar as operações no primeiro trimestre da safra 2019/20. Somente 24% das unidades preveem começar a safra em março, contra 48% que iniciaram este ano.

Apesar da chuva que começou no início de agosto ter mudado um pouco a perspectiva, com um cenário de canaviais mais velhos, mais pragas e mato, pouca renovação da cana de 18 meses, cana de ano com plantio atrasado, falta de tratos culturais, a estimativa central da Datagro para a moagem Centro-Sul é de 570 milhões de t em 2019/20. “Se acontecer um desastre pode cair para 550, se acontecer algo maravilhoso, pode chegar a 585-590 milhões de t. A estimativa central para o ATR é de 137 kg por t de cana.”

O mix de produção deve ficar em 35,5% para açúcar, os mesmos 26,4 milhões de t. “Escutamos muitas usinas falando que não vão produzir açúcar, por isso para o etanol deve-se manter uma estimativa próxima a de 2018/19.”

Caio diz que já é possível ver as consequências da safra 2018/19 na temporada 2019/20. “A questão da seca, que causou um atraso no desenvolvimento do canavial e a brotação desuniforme de soqueiras vai refletir em atraso do início de moagem. Vai ser difícil moer em março. Passamos uma primavera formidável e temos chances de ver um El Niño, que pressupõe um La Niña na Ásia, o que talvez impacte na produção de açúcar. O ritmo de moagem também mudou um pouco no final do ano, o que pode impactar também a safra 2019/20. Acredito que vamos crescer em áreas com meiosi, mas com as chuvas, devemos estar atentos com as questões de pragas e doenças.”

Para o sócio-diretor da Canaplan, a safra também será mais alcooleira no Brasil, já que a Ásia deve continuar “vomitando açúcar” e que o petróleo balizará os preços do etanol. “Em resumo, 2019 será um ano de mudanças políticas e o ano do RenovaBio; há tendência de redução de área de produção; segue o envelhecimento do canavial; mudanças estruturais com a meiosi, a idade do canavial e a estratégia de colheita; custos subindo e margens ao produtor seguirão apertadas; em clima provável, mesmo envelhecendo, as chuvas do final de inverno e da primavera antecipadas ajudarão na produção de 2019 de forma a até manter a oferta citada”, observa.

O preço do açúcar começou uma recuperação, mas nada ainda muito forte. Por isso, o sócio-diretor da RPA Consultoria, projeta que 2019/20 ainda será uma safra de preço baixo do açúcar, mas de leve recuperação. “Com a queda recente do preço do petróleo e a continuidade dos repasses dos preços internacionais do petróleo para a gasolina no mercado doméstico pela Petrobras, poderemos ver na próxima safra uma recuperação do mix de açúcar”, acrescenta Ricardo.

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O presidente da Coruripe espera que a safra 2019/20 seja muito melhor em quantidade de cana, porque fez uma grande reforma nos canaviais que vai começar a produzir resultados, dando a oportunidade de moer 400 mil t de cana a mais em Campo Florido

Mesmo que alguns analistas estejam se antecipando em prever maior produtividade agrícola dos canaviais do Centro-Sul na próxima safra, Ricardo vê plantios atrasados e em quantidade ainda pequena, o que aponta para outra safra de envelhecimento maior dos canaviais. “Também temos todo o verão para monitorar se as chuvas continuarão sendo generosas. Conservadoramente, por enquanto, acredito numa safra canavieira do Centro-Sul um pouco menor do que a que estamos fechando”, afirma.

No entanto, ele acredita que, se os preços de açúcar e etanol não melhorarem muito e se a produção não crescer, vai ser difícil que usinas e grupos em grandes dificuldades consigam se recuperar ou mesmo adiarem uma Recuperação Judicial. “Prevejo que podemos ter provavelmente mais nove usinas entrando em Recuperação Judicial na safra 2019/20. Se confirmar, haverá redução do volume de cana para a próxima safra, poderemos ainda ter mais uma ou até três usinas parando de operar no Brasil.”

A INTL FCStone prevê um processamento de 564,7 milhões de t de cana na próxima safra, com um recuo de 0,4% do estimado para a 2018/19. De acordo com Botelho, uma renovação inadequada dos canaviais deve acarretar mais uma vez em perda de produtividade. “Estimamos que os canaviais estejam em uma idade média de 3,8 anos. Além disso, a baixa atratividade da cultura canavieira tem levado muitos produtores a optarem pelo plantio de soja nas áreas de reforma, o que muitas vezes leva ao alongamento do ciclo de renovação. Em alguns casos isolados também houve troca de culturas para a oleaginosa.” Ele projeta 9 milhões de ha de cana disponíveis para colheita em 2019/20, queda de 0,8% e um ATR de 137,1 kg por t de cana, o que representa um recuo de 1,3%.

O presidente da Coruripe espera uma safra muito melhor em quantidade de cana, porque fez uma grande reforma em seus canaviais que vai começar a produzir resultados, dando a oportunidade de moer 400 mil t de cana a mais em Campo Florido. “Também fomos felizes em alguns hedges de moeda. Fizemos uma posição interessante de venda de dólar, que combinado com os preços de açúcar que fechamos agora dá quase 30%, em média, do preço do açúcar comparado ao preço que tivemos nesta safra 2018/19. As expectativa são boas.”

A Coruripe está fazendo um investimento relativamente pequeno, segundo Lorencatto, na expansão do projeto de Campo Florido. A unidade vai passar de 3,8 milhões t de cana atuais para 4,2 milhões de t, investimento relativamente pequeno e de retorno rápido voltado para a produção de açúcar. Posteriormente, deve fazer um investimento maior na unidade para aumentar a capacidade para 5 milhões de t, voltado para a cogeração com flexibilidade maior de etanol. “Ao longo da safra 2018/19 tentamos, ao máximo possível, produzir etanol quando remunerava mais, mas não temos essa flexibilidade. Passamos a uma média de 60 a 65% de açúcar e 35 a 40% de etanol. Com os preços que estamos fixando para a safra seguinte, comparado aos preços de etanol hoje, já conseguimos ver um incentivo maior para produzir mais açúcar. Vamos ver agora como se comportará o etanol, que depende do preço do petróleo, câmbio e políticas de combustível do novo governo.”

A Bioenergética Aroeira, que estimava, até o início de novembro, moer 1,44 milhões de t de cana, estima que em 2019 produzirá 2,05 milhões de t. Em etanol a companhia produziu, nesta safra, 123,7 mil m3 só de hidratado, mas projeta, em 2019, uma produção de 144,3 mil m3, dos quais cerca de 50 mil m3 serão de etanol anidro. Em 2018, toda a moagem foi revertida para produção de etanol, mas na safra 2019/20, de acordo com Gabriel Junqueira, CEO da Bioenergética Aroeira, a companhia deverá dividir o mix com a produção de 55 milhões de t. “A usina decidiu investir em açúcar em 2016, quando fez uma fábrica de açúcar. Em 2017 iniciamos a produção, virando o mix para 55% para açúcar, quando tivemos preços bons. A Aroeira saiu de 100% de etanol, passou para 55% de açúcar e, em 2018, tomou a decisão de designar 100% para fabricação de etanol hidratado. A fábrica de açúcar ficou parada. Fizemos a decisão correta e tivemos bons resultados.”

O CEO da Diana Bioenergia tem a expectativa de números melhores e mais consistentes, com uma safra um pouco melhor devido à uma maior área de reforma de canavial, que foi de 2.100 ha, além de uma expansão de área de 500 ha. “Como temos uma condição de caixa melhor, estamos planejando começar a safra 2019/20 no dia 12/04, com isso vamos dar mais tempo de chuva e recuperação ao nosso canavial, lembrando que nesse ano moemos a partir do dia 15/03. Importante ressaltar também que assinamos um contrato com a CPFL e, a partir de maio de 2019 vamos exportar energia, algo em torno de 11 mil MW/safra”, revela Junqueira.

O presidente da Socicana, Bruno Rangel, prevê um valor um pouco melhor da matéria-prima visto que os valores do açúcar no mercado externo melhoraram. Em relação ao etanol, ele acredita que os preços continuarão pressionados pelo petróleo, o que pode fazer com que os valores se alterem durante a safra. “Em relação à produtividade, estamos tendo uma primavera chuvosa que tem ajudado o desenvolvimento do canavial, mas ao mesmo tempo a quantidade de pragas tem aumentado bastante. Ainda é cedo para analisarmos os efeitos, mas acredito que a produção será semelhante a esse ano.”

Padua acha muito cedo para fazer uma projeção da oferta de cana, mas diz que mantida as condições climáticas no período de dezembro a março favorável ao desenvolvimento da planta, é possível que a oferta de cana seja superior ao da safra 2018/19, mas ainda inferior a safra 2017/18.