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Etanol não perde competitividade na bomba, perde na estrada

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No debate sobre etanol e biocombustíveis no Brasil, quase sempre o foco está na lavoura, na usina ou na política energética. Pouco se fala — talvez pouco demais — do downstream, onde a logística deixa de ser detalhe operacional e passa a ser estratégia de sobrevivência.

No downstream, logística não é só transporte. É preço na bomba, margem do posto, competitividade regional, risco regulatório e coerência ESG. Entre a saída do etanol da usina e o bico da bomba existe um caminho longo, caro e cheio de decisões críticas: escolha de modal, estrutura de bases, armazenagem, tributação sobre frete, tempo de entrega e eficiência operacional. Cada decisão errada aparece, cedo ou tarde, no preço final.

O Brasil ainda depende excessivamente do transporte rodoviário. Isso significa maior exposição ao custo do diesel, gargalos, sazonalidade e instabilidade. No downstream, centavos importam — e um frete mal planejado pode ser a diferença entre vender ou perder volume.

Não é raro ver dois postos vizinhos, com o mesmo produto, praticando preços muito diferentes. A explicação raramente está na bandeira. Quase sempre está na logística invisível por trás dela.

Há também um ponto pouco discutido: logística é tema concorrencial. Quando apenas grandes operadores têm acesso a modais mais eficientes, como ferrovias, dutos ou grandes terminais, cria-se uma assimetria estrutural. Isso favorece escala, dificulta a entrada de novos agentes e distorce a concorrência local — sem alarde, sem manchete, mas com efeito real no mercado.

No discurso ambiental, o etanol é protagonista. Na prática, sua virtude depende do caminho que percorre. Etanol mal transportado perde parte do seu mérito ambiental. No downstream moderno, ESG não nasce no marketing — nasce na rota, no modal e na eficiência logística.

Alguns temas já não podem ser adiados:
diversificação modal real, revisão da tributação sobre serviços logísticos, planejamento regional de bases e terminais e maior integração entre política energética e política logística.

Conclusão de quem já rodou muito posto e muita base: no downstream, logística não é custo. É estratégia, poder competitivo e permanência no jogo.

Quem domina a logística do etanol domina o preço. O resto discute bandeira… enquanto perde centavo por centavo na estrada.

*Wladimir Eustáquio Costa é CEO da Suporte Postos, especialista em mercados internacionais de combustíveis, conselheiro e interventor nomeado pelo CADE, com foco em governança e estratégia no setor downstream.

As opiniões expressas nos artigos são de responsabilidade de seus respectivos autores e não correspondem, obrigatoriamente, ao ponto de vista da RPAnews. A plataforma valoriza a pluralidade de ideias e o diálogo construtivo.
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