Gestão – A estagnação patrocinada

Existe sim uma estagnação das relações no trabalho. E ela é patrocinada por todas as partes que não têm se mexido para transformar esse cenário

*Beatriz Resende

As organizações vivem e patrocinam, muitas vezes, alguns ciclos viciosos quando o assunto se trata de gestão de pessoas e das relações no ambiente organizacional. Infelizmente, e reforço aqui a minha real tristeza, ainda esse assunto permeia as minhas reflexões e preocupações diárias como profissional da área, já que mesmo com toda a evolução que muitas empresas têm alcançado, e precisamos realçar que elas têm buscado como forma de fazer a diferença no negócio e no mercado, ainda há um grande hiato quando o assunto é formação, estímulo, valorização, reconhecimento e o trato com pessoas. Há uma nuvem ainda densa que paira nas empresas, não deixando que as relações, interações e a comunicação amadureçam de verdade.

“A crise lembrada sempre é a de fora, mas esquecemos de que a mais grave é a que está instalada dentro. E não estamos alocando esforços para reverter isso”

Empresas, na figura dos seus dirigentes e principais gestores, não conseguem ter ainda um olhar com característica de responsabilidade maior e intrasferível sobre esse assunto. É mais fácil, menos trabalhoso e mais “conhecido” o ato de dedicar sua energia e tempo em pontos da gestão que são mais atrativos por representarem, nesse cenário, o status de assuntos mais importantes a serem tratados.

Mas eu me pergunto: o que é mais importante do que garantir que o movimento gerado pelas pessoas e as interações previstas, que é a vida de uma organização, esteja sintonizado, equilibrado, cuidado e tratado de forma profissional e construtiva? Isso continua passando despercebido, ou procrastinado de forma assumida, e os problemas aumentando numa proporção que só podemos esperar por um caos nessa relação. Também é muito mais fácil seguir a conhecida correnteza de desculpas, argumentações e muletas para justificar a nossa pouca predisposição para ajustar os pontos.

São inúmeras as conhecidas justificativas para fugir da responsabilidade: está cada dia mais difícil lidar com gente; essa nova geração veio querendo tudo sem fazer esforço; temos que focar em ganhar, pois se não tiver faturamento não tem emprego; pessoas são responsabilidade do RH; temos que ser duros com as pessoas senão elas abusam; eu faço a minha parte, cada um que faça a sua!; entre outras frases feitas. Essa é a parte que é dita. Pior são as ações e intenções que ficam represadas, que são tratadas de formas deturpadas ou subestimadas em prol de coisas que são sempre mais importantes que um diálogo, um direcionamento, um estímulo, uma palavra de reconhecimento, um pedido de desculpas ou de ajuda, uma informação que precisa ser repassada ou um conselho a ser ofertado.

Existe sim uma estagnação das relações no trabalho. E ela é patrocinada por todos, por todas as partes que não têm se mexido para transformar esse cenário. Falta vontade, maturidade, disposição, altruísmo, humildade, dedicação, empenho, propósito, iniciativa e investimento para que esse movimento, na verdade, essa inércia, tome outro rumo.

É preciso atuar antes que as pessoas não queiram mais acreditar no lugar onde elas trabalham e ganham a fonte para suas necessidades e sonhos; que não admirem e vejam propósito na figura de líderes e mentores; que não queiram compartilhar a sua melhor competência e talento para outros; que não queiram se qualificar e melhorarem por achar que não vale à pena investir em si e na sua carreira se ninguém valoriza isso; por não conseguirem enxergar que a contribuição profissional e a detenção do conhecimento e de algum talento diferencial seja valor de vida e item de felicidade e realização; que percam a esperança no ser humano e a dignidade de si próprios.

Li outro dia uma colocação dizendo que ter profissionais no quadro, com turnover baixo, não significa que cumprimos as nossas metas de retenção, fidelização e engajamento. Pode significar sim, que temos pessoas acomodadas, com a evolução congelada, pouco inovadoras e interessadas em crescer e fazer a diferença, escravas de uma condição e disseminadoras da infelicidade. As empresas patrocinam isso. E não se incomodam: isso é o que mais dói.

O ciclo vicioso começa quando contratamos alguém com exigências elevadas e usamos/estimulamos muito menos delas; quando os desafios somem por falta de espaço de contribuição ou pela incompetência de outros; quando quem contratou não se acha na obrigação de manter; quando quem dirige não entende que seu papel é completo e não só a parte que credenciou como necessária e a de maior visibilidade; quando a permissividade, a imaturidade, o desprezo, a hipocrisia, a superficialidade e a irresponsabilidade tomam conta das relações; quando os egos, as vaidades, os equívocos e as miopias são maiores que o discernimento, o bom senso a razoabilidade; quando o desencanto supera a expectativa; quando os sonhos são pisados por uma dura e trôpega realidade.

Essa cultura “sem dono” que impera nas empresas está contribuindo para o esfacelamento das relações adultas, humanizadas, ou no mínimo, respeitosas, no trabalho. Fala-se tanto em relação ganha-ganha, mas só tenho visto empresas, pessoas, profissionais, o mercado, os cenários e os negócios perderem. A crise lembrada sempre é a de fora, mas esquecemos de que a mais grave é a que está instalada dentro. E não estamos alocando esforços para reverter isso.

Não canso de dizer e é necessário insistir a responsabilidade por dar certo é de todos! Não há mudança, melhoria e excelência sem um mutirão de boas intenções e corresponsabilidades em prol da saúde da cabeça, corpo e membros de uma organização.

*Beatriz Resende é consultora, palestrante e conselheira de Carreiras da Coerhência-Integrando Negócios & Pessoas