Gestão – Diversidade cognitiva

Empresas precisam mudar a visão de que a diversidade cognitiva possa trazer mais problemas. Ela precisa ser vista como um ativo da organização

* Beatriz Rezende

Se você procurar, a diversidade cognitiva está por toda parte. Mas os humanos gostam de se encaixar e, então, eles são cautelosos em colocar o pescoço para fora.”

Alison Reynolds e David Lewis

Falamos em diversidade há anos. O foco sempre esteve mais direcionado à pluralidade de gênero, raça, cor e orientação sexual. Em fóruns menores, já existe a discussão sobre a diversidade de pensamento, a chamada diversidade cognitiva. Já temos confirmação mais do que o suficiente de que a variedade de cultura, conhecimento, experiências, pontos de vista e expectativas trazem um enriquecimento aos ambientes onde as pessoas transitam: sejam eles pessoais ou profissionais. Mas, embora saibamos disso, ainda vemos que a maior parte das empresas ainda buscam quadros de pessoas que se expressam e pensam de maneira semelhante.

Por que isso acontece? Será que promover e estimular ambientes dessa natureza dá mais trabalho e as empresas acham que já têm trabalho suficiente no gerenciamento das pessoas no dia a dia? Pode ser. Ou porque, de acordo com Alison Reynolds e David Lewis, na ordem, professora e diretor de escolas de Londres e do Reino Unido, “ela é menos visível do que as outras formas de diversidade; ou pelo fato das organizações criarem barreiras culturais que restringem características distintas?”.

Será que nas empresas existe uma pressão pela conformidade? Isto traz uma segurança, mesmo que falsa? Esta conformidade é somente fruto do chamado status quo ou o incentivo a ela pode ser também associado a barreiras enfrentadas pelas vaidades, soberbas e narcisismos empresariais que vemos diariamente nas organizações? Como estimular a diferença e realçá-las, se ainda convivemos com atos egoístas e egocêntricos nas relações de trabalho, ao invés do pensamento absorvido e introjetado da sinergia?

A frase que inicia esse texto, dos autores aqui citados, fala que os humanos gostam de se encaixar. Pergunto de novo, se isto é devido a culturas fortes e homogêneas, as quais convivemos com mais frequência, ou porque, ou junto disto, é mais cômodo e também nos dá menos trabalho? Ser diferente e ter uma caminhada a partir disto demanda um gasto de energia maior de nossa parte, pois temos que nos responsabilizar por ela, como protagonistas de nossas escolhas? Pode ser.

Lendo outro artigo, me deparei com a frase: “o mundo será daqueles que criam algo escasso e cobiçado, não algo barato e comum”. Quem disse isto é Seth Godin, empreendedor e escritor do livro: “What To Do When It´s Your Turn – and its always your turn” (O que fazer quando for a sua vez…e é sempre sua vez). Liderar pelas diferenças e junto com elas. A disputa pela liderança de algo prevê um trabalho difícil, diz Seth. Promover mudanças é difícil e achar pessoas dispostas a isto – a mudar o estado natural das coisas – também é algo difícil. E nesta visão apresentada pelo autor, faço as vezes de integrar o presente assunto ao anterior, que é o da conformidade, sentido que segue resistente à ideia da diversidade cognitiva. Já temos material suficiente para pensar e refletir sobre.

Temos falado há pelo menos uns 15 anos sobre os ambientes multigeracionais. Sabemos que as novas gerações vêm empurrando mudanças que as empresas obrigaram-se a fazer. A diversidade de ideias, pontos de vista, expectativas e outros já está aí nos mostrando a necessidade da mudança de pensamento e atitude sobre a aceitação natural desse processo que podemos chamar de “belo”, que é o da inclusão desse tipo de diferença. Um não à visão de que as relações profissionais são tratadas de gente mediana para gente mediana; de querer mediano, para querer mediano; de competências medianas para competências medianas; de sonhos medianos para sonhos medianos. Precisamos pensar maior!

As organizações não vão crescer se quiserem tratar tudo da maneira mais fácil. E estou aqui falando somente do que eu entendo: pessoas e relações. Há anos ouço sobre o fazer a diferença, mas ainda as corporações têm grande dificuldade em lidar com o pensamento divergente. Rafael Souto, consultor Empresarial diz “que como espécies não somos muito afetos às diferenças, e que temos a tendência a querer eliminá-las”. Para ele, o próprio termo alinhamento, tão usado nos dias atuais, é uma orientação a que todos pensem do mesmo jeito.

Empresas precisam mudar a visão de que a diversidade cognitiva possa trazer mais problemas. Ela precisa ser vista como um ativo da organização, diz o filósofo e economista, Joel Pinheiro da Fonseca. Importante, prioritário e tratado como core do negócio.

Beatriz Resende é consultora, palestrante e conselheira de Carreiras da Dra. Empresa – Consultoria Empresarial (www.draempresa.com.br)