Mercado – O cenário para o etanol na safra 2017/18

Enquanto o preço é apontado como um dos maiores desafios para o combustível no atual ciclo, Unica aponta provável queda na produção

*Alisson Henrique

A safra 2017/18, que teve seu início no começo de abril, terá novamente o etanol com uma maior representatividade no mix de cana em relação ao açúcar. No entanto, as usinas continuarão favorecendo a commodity devido à maior remuneração obtida com a venda externa do adoçante em relação ao mercado doméstico do biocombustível. Além disso, muitas empresas investiram em aumento da capacidade de cristalização, incrementando assim, sua capacidade de operação.

Diante da necessidade de fluxo de caixa imediato para o pagamento de custos operacionais das usinas, uma maior concentração de produção de etanol deverá acontecer no início da temporada. Porém, com o decorrer da safra, a necessidade de cumprimento dos contratos de exportação fará com que o porcentual de cana destinado ao etanol seja reduzido para a fabricação de açúcar. Com a redução da produtividade agrícola da cana-de-açúcar por conta do envelhecimento dos canaviais após vários anos com renovação abaixo do ideal e estagnação da área plantada, a moagem deve sofrer redução no Centro-Sul.

De acordo com levantamento feito pela Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), em conjunto com os demais sindicatos e associações de produtores da região em questão e o CTC (Centro de Tecnologia Canavieira), a estimativa para a safra 2017/18 indica uma moagem de 585 milhões de t, queda de 22,14 milhões de t em relação as 607,14 milhões de t processadas na safra anterior. No ciclo 2016/17, quase 8% da área colhida foi representada por cana bisada, cujo rendimento agrícola médio atingiu 97,19 t por ha. Já para a safra 2017/18, este percentual deve totalizar cerca de 1%, reduzindo, portanto, o efeito positivo dessa variável sobre a produtividade média do canavial colhido no Centro-Sul.

Segundo a Unica, o efeito do envelhecimento da lavoura e da menor proporção de cana-de-açúcar bisada sobre o rendimento agrícola deve ser suavizado pelas melhores condições climáticas observadas até o momento em diversas regiões canavieiras e também pela retomada dos tratos culturais em níveis satisfatórios ao longo do último ano.

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De acordo com Botelho, o fim da isenção do PIS/Cofins
sobre o etanol aumenta os impostos e diminui os lucros
das usinas sucroalcooleiras

NÚMEROS DO ETANOL

Em comparação com o ciclo passado, a produção de etanol cairá pouco mais de 1%. Segundo a Unica, espera-se que o setor produza 24,70 bilhões de l, o que significa uma retração de 3,71% no comparativo com os 25,65 bilhões registrados na safra 2016/17. Deste volume, 10,84 bilhões de l serão de etanol anidro e 13,86 bilhões de etanol hidratado.

A revista RPAnews procurou duas consultorias a fim de fazer uma comparação com os números apresentados pela Unica. Segundo projeções da Consultoria Safras & Mercados, na safra 2017/18 serão produzidos 31 bilhões de l. Destes, 20 bilhões serão destinados ao hidratado, enquanto 11 bilhões de l para o anidro. Já os dados da INTL FCStone apontam para uma produção de 24,4 bilhões de l de etanol, dos quais 10,9 bilhões de l serão anidro e 13,5 bilhões de l serão de etanol hidratado.

A participação do etanol advindo do milho produzidos no Brasil terá um aumento de mais de 28% se comparado com o ciclo passado, o que significará uma produção de mais de 300 milhões de l. Na última safra, o etanol de milho totalizou 234,15 milhões de l, sendo 36,64 milhões de l etanol anidro e 197,51 milhões de l de hidratado. Hoje, segundo informações da Unica, existem quatro usinas flex que produzem o etanol de milho e cana-de-açúcar operando no Brasil.

O volume de produção projetado, associado a um crescimento de 0,50% previsto para o consumo de combustíveis leves no País, apontam para uma retração próxima de 600 milhões de l das vendas de etanol hidratado na safra 2017/18 em relação ao ciclo anterior. No caso do etanol anidro, a estimativa da Unica indica um crescimento superior a 200 milhões de l para o mesmo período.

PERDA DE COMPETITIVIDADE

Os preços do etanol aparecem, novamente, na lista dos maiores desafios para o setor. Maurício Murici, analista da Consultoria Safras & Mercados explica que com os novos reajustes negativos na gasolina o etanol tende a perder competitividade. “As usinas terão que baixar os preços do etanol para conseguir vender o produto. Neste primeiro trimestre, assim como aconteceu no ano passado, as usinas não baixaram os preços. Eles reduziram ao máximo esses ajustes negativos e agora não estão conseguindo vender etanol, que está sobrando. Então eles são obrigados a baixar para manter pelo menos o nível de paridade de 70% com relação à gasolina. Nisso, a rentabilidade das usinas que produzem etanol tende a cair,” adiciona.

Na safra de 2016/17 a diferença de preço de venda do etanol em relação ao açúcar girou de 30% a 38%, dependendo do mês, explica Murici. “Uma usina que colhia cana, fabricava etanol e vendia no Brasil, ganhava de 30% a 38% menos do que aquela que colhesse essa mesma matéria-prima e fabricasse açúcar para vender na primeira tela da bolsa de Nova Iorque”, explica.

No começo deste ano foi confirmada a retirada da isenção do PIS/Cofins sobre o etanol. O fim da isenção foi decorrente da perda de validade do benefício criado no governo Dilma, que dava aos importadores e produtores de etanol um crédito para abatimento de valores durante sua comercialização. “Isso aumentou a conta de imposto das usinas e diminui o quanto elas podem ganhar com o preço do etanol”, relata João Paulo Botelho, analista de Mercado da INTL FCStone. Outra mudança importante, ocorrida ao longo dos últimos meses, foi a inclusão de novos entraves à importação do biocombustível.

PESPECTIVAS

Caso a remuneração obtida na produção de açúcar continue em declínio, parte das usinas podem acabar mudando o mix em prol da produção de etanol no decorrer da safra. De acordo com Botelho, se o governo brasileiro decidir pela tributação do etanol importado, o que esteve na pauta de discussões ao longo dos últimos meses, é possível que a participação do aditivo na produção alcooleira aumente ainda mais em detrimento do hidratado.

“Além dos maiores incentivos para a produção de anidro, o hidratado vem sofrendo com a baixa competitividade nos postos perante a gasolina, cujas cotações vêm sendo pressionadas pelo cenário baixista no mercado internacional de petróleo. Por outro lado, caso a remuneração obtida na produção de açúcar continue em declínio, parte das usinas pode mudar o mix em prol da produção desta variedade no decorrer da safra”, pondera.

EXPORTAÇÕES

A Coreia do Sul deve continuar sendo o principal comprador de etanol brasileiro. Segundo Murici, o destaque das exportações de combustível nesta safra será os Estados Unidos, com suas usinas de etanol de milho. “Eles tendem a entrar mais no mercado brasileiro e internacional. Com isso, irão tirar compradores do etanol brasileiro. Além disso, a demanda por etanol anidro nos Estados Unidos deve ser menor,” opina.

O governo do novo presidente americano Donald Trump não tem dado muita importância para os combustíveis renováveis. “A lei que aumenta os combustíveis renováveis a cada três anos não deve ser reajustada e, com isso, vai ser cada vez menor o consumo de etanol. Isso fará com que eles tentem buscar novos compradores no mercado internacional, fazendo com que o Brasil perca espaço”, adiciona Murici.

RENOVABIO: HORIZONTE POSITIVO

O programa RenovaBio trouxe boas expectativas para o mercado de biocombustíveis. De acordo com Botelho, o projeto, lançado pelo Ministério de Minas e Energia em dezembro do ano passado, tem como objetivo reduzir a emissão de carbono total dos combustíveis vendidos no Brasil. Para atingir esse objetivo será preciso aumentar significativamente a produção de biocombustíveis no país.

O RenovaBio ainda inclui um mecanismo extra de estímulo aos investimentos sob controle do governo. A ideia é que o Brasil consuma cerca de 50 bilhões de l de etanol em 2030 – e produza 54 bilhões de l, considerando a exportação –, além de uma grande quantia de biodiesel, biogás e outros combustíveis renováveis que podem começar a ser produzidos na próxima década. “Seria muito bom para o setor sucroalcooleiro e daria uma possiblidade de valorização dos biocombustíveis frente aos fósseis, pegando muito essa questão da vantagem ambiental”, conclui o analista da INTL.

* Colaborou Alisson Henrique sob supervisão de Natália Cherubin