Mesmo com canaviais melhores, safra 2020/21poderá processar menos cana

Por Natália Cherubin

Mesmo com canaviais um pouco melhores do que os da safra 2019/20 – com melhor produtividade e idade média menor – o futuro da safra 2020/21 para o setor sucroenergético ainda é incerto.

Sem uma bola de cristal que seja capaz de antecipar os desdobramentos da pandemia do Coronavírus (Covid-19) e dar uma visão sobre o reequilíbrio dos preços do petróleo no mundo, tem sido difícil para as consultorias especializadas fazerem previsões assertivas a respeito da temporada que acaba de iniciar.

No entanto, cenários podem ser esperados. Ricardo Pinto, sócio-diretor da RPA Consultoria, diz que apesar de ser impossível prever quando a demanda por combustíveis voltará, pois isso depende do arrefecimento da pandemia do Covid-19, acredita que dos 595 milhões de t projetados para a safra de cana, 90 milhões de t poderão bisar, ou seja, ficarem no campo. Assim, este ano poderemos ter somente 505 milhões de t sendo processadas.

Em webinar realizado na última sexta-feira, a consultoria Canaplan levantou três diferentes situações considerando clima, pandemia da Covid-19 e as políticas públicas que podem interferir no setor.

De acordo com Nilceu Cardozo, consultor da Canaplan, no cenário 1, no qual se prevê o Brasil já livre da Covid-19 e com as políticas públicas implementadas e com efeito imediato – Cide, Warrantagem, Pis/Cofins –  a moagem começaria mais lenta, seguindo mais acelerada à medida que as políticas surtem efeito, e acaba mais cedo, mesmo com as chuvas que devem retornar a partir de setembro.

No cenário 2, com a pandemia da Covid-19 ainda impactando o país, mas em menor intensidade e com as políticas públicas surtindo efeito a partir do meio de safra, observa-se uma moagem mais lenta e concentrada do meio para o final do ciclo. Aqui, o retorno das chuvas em setembro afeta qualidade no final de safra.

No cenário 3, em que a pandemia continue afetando 100% do país ao longo dos próximos meses, com demora e tardio efeito das políticas públicas, a moagem se concentraria no terço final da safra, ou seja, entrando em 2021. Neste caso, a recuperação de TCH ocorre só ao fim da safra, às custas do ATR. Aqui ainda há possibilidade de sobra de cana.

“É preciso saber se as usinas terão eficiência de colheita para colher nestes três meses mais chuvosos do ano e qual será o impacto disso na safra seguinte. É uma situação crítica em termos de efeitos nos canaviais. A idade média não pode ser uma justificativa para termos uma super safra, maior do que tivemos nos últimos anos. Isso porque, a área de plantio de mantem igual algo em torno de 7.700 milhões de ha e o clima não deve favorecer muito”, adicionou Cardozo.

Fonte: Canaplan

A moagem projetada para o cenário 1, seria de 578 milhões de t, com uma produtividade batendo as 75,1 t/ha e um ATR total e 79,81. Com um mix projetado em 44% para o açúcar e 56% para o etanol, as usinas produziriam 33,46 milhões de t do adoçante e 26,29 bilhões de l de etanol.

Já no cenário dois, a moagem sobe para 585,7 milhões e t, o TCH fica em 76 e o ATR total em 80,5. Aqui a produção de açúcar fica em 33,76 milhões de t e a produção de etanol em 26,53 bilhões de t.

Finalmente, no cenário mais crítico da pandemia, a moagem chegaria em torno de 594,4 milhões de t, com atraso e esmagamento até março de 2021, mas com aumento de produtividade para 77 t/ha e 81 kg/ATR por t com uma produção de açúcar de 33,94 milhões de t e 26,67 bilhões de l etanol.

Fonte: Canaplan

Para Luiz Caio Carvalho, diretor da Canaplan, a estratégia de cana unidade vai ser muito importante e muito diferente, seja no investimento, no mercado ou no ritmo de safra. “É muito difícil imaginar essa variabilidade. Aqui usamos o padrão de algumas usinas do Centro-Sul para montar os cenários e chegarmos a essas proporções.”