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Monções fracas e avanço do El Niño elevam risco para safra da Índia e reforçam incertezas no mercado de açúcar

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Análise da S&P Global Platts aponta atraso das chuvas, maior probabilidade de um El Niño intenso e manutenção da restrição às exportações indianas de açúcar

A safra agrícola de verão (kharif) da Índia começou sob pressão em 2026, com chuvas abaixo da média e o avanço das condições de El Niño, cenário que pode comprometer a produção de diversas culturas, incluindo a cana-de-açúcar. A avaliação é da S&P Global Platts, com base em informações do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que alerta para impactos sobre a oferta global de commodities agrícolas.

Segundo o relatório, o Departamento Meteorológico da Índia prevê que o volume de chuvas durante a temporada de monções fique em 90% da média histórica, com 84% de probabilidade de precipitações abaixo do normal ou deficientes ao longo da estação.

As monções de sudoeste, responsáveis por aproximadamente 70% das chuvas anuais no país, chegaram ao estado de Kerala em 4 de junho e avançaram para outras regiões. No entanto, até 15 de junho, o acumulado de chuvas estava 32% abaixo da média histórica. No noroeste do país, o déficit atingia 91%, enquanto a região central registrava precipitações 49% inferiores ao normal.

De acordo com o USDA, a única exceção foi a península sul, onde as chuvas ficaram 4% acima da média devido ao início mais intenso das monções.

El Niño deve ganhar força entre julho e setembro

O relatório destaca que a Índia está deixando para trás as condições neutras e entrando em um padrão climático de El Niño, fenômeno que normalmente reduz a intensidade das monções ao alterar a circulação atmosférica entre os oceanos Índico e Pacífico.

Segundo dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) e da Agência Espacial Europeia (ESA), existe 63% de probabilidade de que o evento alcance intensidade muito forte, podendo figurar entre os episódios climáticos mais intensos desde o início dos registros, em 1950.

A influência do fenômeno deverá se intensificar justamente entre julho e setembro, período considerado decisivo para o desenvolvimento das lavouras de verão na Índia. Entre as culturas mais vulneráveis estão arroz, milho, oleaginosas, algodão, leguminosas e cana-de-açúcar.

Outro fator observado é que o Dipolo do Oceano Índico permanece em condição neutra, reduzindo as chances de compensação dos efeitos secos normalmente provocados pelo El Niño.

Governo prepara planos de contingência

Diante do cenário climático, o governo indiano classificou cerca de 200 distritos como altamente vulneráveis aos impactos do El Niño sobre a agricultura e elaborou planos de contingência para minimizar possíveis perdas.

O relatório lembra que episódios severos de seca registrados em 2002, 2009 e 2015 coincidiram com eventos ativos de El Niño, embora nem todos os episódios do fenômeno tenham resultado em impactos extremos sobre a produção agrícola.

Além da menor disponibilidade de chuvas, o país enfrentou ondas de calor intensas durante abril e maio, com temperaturas superiores a 45°C em diversas regiões e máximas próximas de 47°C e 48°C em alguns locais. As temperaturas seguem acima da média em áreas importantes do norte e do centro da Índia.

Restrição às exportações de açúcar deve continuar

Entre os reflexos esperados para o mercado internacional, a S&P Global Platts destaca que a proibição das exportações de açúcar pela Índia deverá permanecer durante a temporada 2026/27.

Segundo o relatório, a decisão está relacionada à prioridade do governo em garantir o abastecimento interno e direcionar matéria-prima para a produção de etanol, diante das incertezas provocadas pelo avanço do El Niño sobre a produção agrícola.

A manutenção das restrições é considerada relevante para o mercado internacional, uma vez que a Índia ocupa a posição de segundo maior produtor mundial de açúcar, atrás apenas do Brasil.

Além do açúcar, o USDA projeta que a Índia importará 700 mil toneladas de soja na temporada 2025/26, aumento de 500 mil toneladas em relação ao ciclo anterior, refletindo a alta dos preços domésticos do farelo de soja e as preocupações com a evolução das monções.

O relatório também ressalta que o Fórum Econômico Mundial avalia o atual padrão climático como um potencial choque sistêmico para os mercados globais, com possíveis impactos sobre cadeias logísticas, comércio agrícola, demanda por energia e transporte marítimo ao longo de 2026 e 2027.

Natália Cherubin para RPAnews

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