Nos bastidores do mercado, cresce a análise sobre uma eventual avaliação estratégica envolvendo a separação entre o negócio Agro (RAIZ) e o de Energia e Combustíveis (EN) da Raízen.
Importante registrar, com serenidade técnica: avaliar não é decidir. Estudos de arquitetura societária são movimentos comuns em grupos integrados de grande porte, sobretudo quando se busca maior clareza de valor, eficiência de capital e leitura mais precisa pelo mercado.
Hoje, a Raízen opera sob um modelo integrado que conecta agroenergia (cana, etanol e bioenergia), trading, distribuição de combustíveis e rede de postos e conveniência. Essa integração sempre gerou sinergias relevantes, mas também agrega perfis de risco distintos sob uma mesma estrutura.
Uma eventual segregação criaria duas empresas com naturezas econômicas bem diferentes.
O RAIZ (Agro/Bioenergia) ficaria mais alinhado ao agronegócio, às commodities e à transição energética, com forte base em ativos agrícolas, ciclos longos e exposição climática.
Já o EN (Energia, Combustíveis e Varejo) teria perfil típico do downstream: capilaridade logística, eficiência operacional, geração de caixa recorrente e alta sensibilidade à concorrência e às margens.
A experiência internacional mostra que o mercado tende a precificar melhor empresas com tese clara. Nesse contexto, o RAIZ poderia ser analisado por produtividade agrícola, eficiência industrial, bioenergia e créditos de carbono. O EN, por sua vez, seria comparado a grandes plataformas de distribuição e varejo energético, onde pesam escala, qualidade da rede e rentabilidade por metro quadrado (postos e conveniência).
Há ainda um ponto pouco comentado: a transparência do risco operacional. Com estruturas separadas, cada unidade passa a ser avaliada e cobrada com maior precisão.
Do ponto de vista humano, cisões não significam automaticamente redução de equipes, mas sim reorganização. É comum ocorrer redefinição de estruturas, criação de times dedicados, fortalecimento de governança e maior meritocracia por desempenho específico. Em termos de gestão, sai a lógica totalmente integrada e entra a accountability por negócio.
Riscos existem: possível redução de sinergias, aumento de custos corporativos, ajustes na estrutura de capital e reprecificação no curto prazo. Por outro lado, a separação pode revelar valor oculto quando negócios com perfis distintos deixam de ser analisados sob a mesma percepção de risco.
Como dizemos em Minas, o mercado primeiro pede clareza para depois reconhecer valor. Avaliar uma divisão entre RAIZ e EN não representa desmonte, mas sim estudo de longo prazo sobre estrutura, eficiência e narrativa estratégica de um dos grupos mais relevantes do setor de energia e agroenergia.
*Wladimir Eustáquio Costa é CEO da Suporte Postos, especialista em mercados internacionais de combustíveis, conselheiro e interventor nomeado pelo CADE, com foco em governança e estratégia no setor downstream.