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Raízen: o que os números do 4º trimestre realmente revelam

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Muito se falou nos últimos dias sobre a situação financeira da Raízen. Mas, como acontece frequentemente no setor de energia, os números do balanço contam uma história mais rica do que as manchetes.

O resultado do 4º trimestre da safra 2024/2025 mostra uma empresa que continua gigantesca em escala, mas atravessa um momento claro de ajuste financeiro. Vamos aos números.

Receita do trimestre: A Raízen registrou receita líquida de cerca de R$ 57,7 bilhões no 4º trimestre da safra 2024/25.
A empresa segue entre as maiores plataformas integradas de energia do hemisfério sul, atuando em:

• distribuição de combustíveis
• açúcar
• etanol
• bioenergia e renováveis

Ou seja, volume não é o problema da companhia.

– EBITDA do trimestre

O ponto de atenção aparece na geração operacional. A empresa reportou EBITDA ajustado de aproximadamente R$ 1,72 bilhão no trimestre. Comparação:

4T safra 23/24
EBITDA: R$ 3,69 bilhões

4T safra 24/25
EBITDA: R$ 1,72 bilhão

Queda de 53% a 54% na comparação anual.

A compressão reflete:

• margens menores na distribuição
• volatilidade no açúcar
• custos industriais elevados
• impacto do ciclo recente de investimentos

– Prejuízo do trimestre

Com menor geração operacional e pressão financeira, o trimestre terminou com:

prejuízo líquido de aproximadamente R$ 2,51 bilhões.

Comparação:

4T safra anterior
Prejuízo: R$ 878 milhões

4T safra atual
Prejuízo: R$ 2,51 bilhões

O ponto central: a alavancagem

O indicador mais observado pelo mercado foi a evolução da dívida.

Safra anterior
R$ 19,1 bilhões

Safra atual
R$ 34,3 bilhões

Crescimento próximo de 80% no endividamento.

– O ciclo de investimentos

Nos últimos anos a Raízen realizou um dos maiores ciclos de expansão do setor energético brasileiro:

• novas unidades industriais
• etanol de segunda geração
• expansão internacional
• energia renovável

Isso consolidou a empresa como uma grande plataforma global de bioenergia, mas também aumentou a pressão sobre o capital. O EBITDA da distribuição de combustíveis no Brasil caiu, mostrando que parte importante da pressão veio do próprio downstream brasileiro, onde:

• a concorrência aumentou
• margens ficaram mais apertadas
• o ambiente competitivo se intensificou

Diante desse cenário, investidores passaram a observar três movimentos possíveis:

• reorganização de portfólio
• ajuste no ritmo de investimentos
• reforço de capital

A capitalização anunciada pela Shell vai exatamente nessa direção: dar fôlego financeiro para a companhia atravessar esse ciclo. A Raízen continua sendo uma gigante global de energia. Mas o balanço mostra algo comum em ciclos de expansão acelerada: a estrutura financeira precisa alcançar o tamanho da ambição estratégica.

Como diria um velho mineiro do setor: “Empresa grande raramente quebra por falta de faturamento. Ela apenas precisa ajustar o passo quando o investimento chega antes do retorno.”

*Wladimir Eustáquio Costa é CEO da Suporte Postos, especialista em mercados internacionais de combustíveis, conselheiro e interventor nomeado pelo CADE, com foco em governança e estratégia no setor downstream.

 

As opiniões expressas nos artigos são de responsabilidade de seus respectivos autores e não correspondem, obrigatoriamente, ao ponto de vista da RPAnews. A plataforma valoriza a pluralidade de ideias e o diálogo construtivo.
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