Planejamento varietal, construção do perfil do solo e integração entre nutrição química e biológica ganham peso em um cenário de maior estresse climático e pressão por eficiência no canavial
Embora o planejamento agrícola das usinas e produtores seja contínuo, a safra 2026/27 entra agora em uma fase decisiva do ponto de vista técnico. Em um ambiente marcado por maior variabilidade climática, custos elevados e exigência crescente por eficiência operacional, decisões relacionadas ao solo, à nutrição e à formação do canavial tendem a determinar não apenas o desempenho da próxima safra, mas a longevidade produtiva das áreas. A avaliação é de Vinícius Vigela, da área de Desenvolvimento Técnico de Mercado da Nitro, que defende uma abordagem mais estrutural no manejo, com foco no perfil do solo e no sistema radicular.
Segundo o especialista, o planejamento varietal e a formação de viveiros assumem papel estratégico neste momento. A escolha das variedades, de acordo com ele, precisa ir além do teto produtivo e considerar a resiliência a estresses climáticos, cada vez mais recorrentes. “Avaliar o desempenho de novos materiais em áreas experimentais agora é determinante para definir quais variedades ocuparão as áreas de reforma”, afirma.
A sanidade das mudas, nesse contexto, é tratada como ponto inegociável. Vigela ressalta que viveiros livres de problemas como raquitismo e escaldadura são fundamentais para garantir vigor e estabilidade produtiva ao longo do ciclo. Paralelamente, ele chama atenção para a necessidade de olhar além da camada superficial do solo, uma vez que a resposta produtiva futura está diretamente associada à qualidade do sistema radicular em formação. “A eficiência será definida pela profundidade do sistema radicular.”

Perfil do solo e sistema radicular entram no centro da estratégia
Nesse contexto, a construção do perfil do solo em profundidade se consolida como um dos principais pilares do manejo, segundo o especialista, que destaca a correção química em camadas mais profundas, com atenção especial à presença de cálcio como uma ferramenta decisiva para mitigar os impactos de veranicos ao longo do desenvolvimento da cultura. “A reforma do solo é a única janela de oportunidade para realizar correções estruturais de forma eficiente antes do fechamento do canavial”, afirma.
Ao tratar da resposta nutricional da cana, o especialista ressalta que ela é resultado da interação entre fatores climáticos imediatos e o histórico de manejo do canavial. A disponibilidade hídrica, segundo ele, atua como regulador operacional da nutrição, pois condiciona a solubilização e o transporte dos nutrientes até as raízes. “Sem chuva, a planta interrompe sua fisiologia e o investimento em nutrição perde eficiência”, observa.
Por outro lado, Vigela aponta que o manejo acumulado e a saúde do solo são determinantes para o aproveitamento dos fertilizantes. Canaviais com histórico de compactação ou danos radiculares por pragas apresentam capacidade de absorção limitada, independentemente da dose aplicada. Em contrapartida, áreas onde houve investimento prévio na construção do perfil do solo, com correções em profundidade e uso de resíduos orgânicos e insumos biológicos, tendem a apresentar maior estabilidade química e melhor resposta produtiva ao longo dos ciclos.
Onde o manejo nutricional ainda perde eficiência
Entre os erros mais recorrentes no manejo nutricional, Vigela destaca a falta de visão sistêmica e de longo prazo. Segundo ele, ainda é comum a limitação da adubação à camada superficial, o uso de fórmulas fixas sem considerar exportação de nutrientes por variedade ou histórico produtivo dos talhões, além do desequilíbrio entre macro e micronutrientes associado à compactação do solo.
Em um ambiente de custos elevados, outra fonte relevante de perda de eficiência está no momento da aplicação dos fertilizantes. Adubações realizadas em solos secos ou sob risco de chuvas intensas favorecem perdas por volatilização e lixiviação, comprometendo o retorno do investimento nutricional.
Nutrição integrada e biológicos ganham espaço no canavial
Embora o setor venha avançando tecnicamente, Vigela avalia que o uso de “receitas prontas” ainda é uma realidade em muitas áreas. O manejo tradicional persiste pela facilidade operacional, mas há uma evolução consistente em direção ao manejo por ambiente de produção, impulsionado pela agricultura de precisão. “Produtores e usinas mais tecnificados já priorizam a personalização da nutrição com base no potencial genético da variedade e nos dados históricos”, afirma.
Nesse cenário, os insumos biológicos deixaram de ocupar um papel complementar marginal e passaram a integrar a estratégia nutricional. Segundo Vigela, microrganismos fixadores de nitrogênio, promotores de crescimento radicular, solubilizadores de fósforo e bioinsumos para controle de pragas elevam a eficiência dos fertilizantes minerais e reduzem a dependência de insumos convencionais. Ele ressalta, no entanto, que os biológicos não substituem os fertilizantes químicos, mas atuam de forma complementar. “Eles não criam nutrientes, mas aumentam a eficiência do que já está disponível no sistema”, explica.
Para garantir produtividade, ATR e longevidade do canavial, o especialista defende investimentos consistentes na construção do perfil do solo em profundidade, no controle da compactação, no uso de mudas de alta sanidade e na diversificação varietal. A queda precoce de produtividade em canaviais de quarto e quinto cortes, segundo ele, é um indicativo claro de falhas no manejo nutricional, especialmente quando há foco exclusivo na reposição superficial de nutrientes.
Diante de estresses climáticos cada vez mais frequentes, a nutrição atua como uma barreira fisiológica para a planta. O potássio tem papel central no controle osmótico, enquanto micronutrientes como boro e zinco contribuem para a integridade celular e a resposta ao estresse térmico. “Uma planta bem nutrida tem maior capacidade de recuperação após eventos climáticos adversos”, resume.
Ao deixar um alerta técnico para quem projeta a safra 2026/27, Vigela reforça que a eficiência futura será definida pelo que acontece abaixo da superfície. “Se o solo estiver compactado ou com alumínio tóxico impedindo o crescimento radicular, é possível aplicar o adubo mais caro do mercado e, ainda assim, ter um canavial que sofre no primeiro veranico e se torna inviável financeiramente nos ciclos seguintes”, conclui.
Natália Cherubin para RPAnews