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Setor precisa ampliar consumo de etanol para acompanhar avanço da produção, defendem especialistas

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Especialistas defendem que avanço da produção, impulsionado pelo etanol de milho, exige novos mercados consumidores e maior valorização do biocombustível

O crescimento da produção de etanol no Brasil, impulsionado pela expansão do etanol de milho, começa a expor um novo desafio para o setor sucroenergético: ampliar o consumo do biocombustível em um cenário de demanda mundial de açúcar estagnada, mercado doméstico enfraquecido e exportações pressionadas. Na avaliação de especialistas, manter o equilíbrio do mercado dependerá cada vez mais da abertura de novos mercados e da capacidade do setor de estimular o consumo interno.

Essa avaliação foi apresentada durante debate promovido pela Orplana, que reuniu o CEO da entidade, José Guilherme Nogueira, o diretor da Datagro, Guilherme Nastari, o pesquisador do Pecege João Rosa, conhecido como Botão, e Leandro Boncompagni, da BRRP.

Ao analisar o cenário do setor, Nastari afirmou que os desafios atuais não se restringem ao aumento da produção. Segundo ele, o mercado convive simultaneamente com consumo mundial de açúcar estagnado, dificuldades para ampliar a demanda por etanol, crescimento acelerado da produção de etanol de milho e um ambiente mais competitivo para os biocombustíveis. Nesse contexto, defendeu que o Brasil reduza sua dependência dos mercados tradicionais e desenvolva novas oportunidades de consumo. “A gente não pode ficar dependente de mercados tradicionais.”

Consumo mundial de açúcar perdeu ritmo

Entre os fatores que ajudam a explicar o cenário atual, Nastari chamou atenção para a mudança estrutural na demanda mundial de açúcar. Segundo ele, o crescimento do consumo, que durante muitos anos avançou entre 1,8% e 2,5% ao ano, praticamente deixou de existir. “Quando eu comecei a trabalhar, o crescimento anual era de 1,8% ao ano. Hoje está zero. Não cresce mais o consumo mundial de açúcar.”

Na avaliação do diretor da Datagro, a desaceleração é observada principalmente nos países desenvolvidos e também em grandes consumidores, como China e Índia. O crescimento permanece concentrado em países da África e parte do Sudeste Asiático.

Nastari também rebateu a percepção de que o Brasil seria o responsável pela pressão sobre os preços internacionais do açúcar. “O Brasil não está aumentando a oferta de açúcar no mundo.”

Segundo ele, a conjuntura atual resulta da combinação entre consumo menos dinâmico, utilização de estoques por países importadores e mudanças no fluxo internacional de comércio.

Expansão do etanol de milho amplia oferta

Enquanto a demanda cresce em ritmo menor, a produção brasileira de etanol continua avançando, principalmente com o desenvolvimento do etanol de milho.

Segundo Nastari, o país conta atualmente com 32 unidades produtoras de etanol de milho, sendo 13 plantas flex, outras 19 em construção e mais 15 projetos em fase de aprovação. Na avaliação do especialista, essa tecnologia deixará de ser concentrada apenas nas regiões produtoras de milho e deverá chegar gradualmente a praticamente todas as usinas do país. “Vai ter etanol de milho em todas as usinas de cana.”

Para ele, esse movimento acompanha uma transformação do próprio setor sucroenergético, em que a cana deixa de ser apenas matéria-prima para açúcar e etanol e passa a fornecer energia e biomassa para uma série de novos produtos, ampliando as possibilidades de geração de valor dentro das usinas.

Setor ainda depende do preço para vender etanol

Apesar da expansão da produção, Nastari afirmou que o consumo interno do etanol hidratado não acompanha esse crescimento.

Segundo ele, a participação do hidratado no abastecimento da frota flex caiu de aproximadamente 38% para 28%, indicando perda de espaço mesmo em um cenário de preços competitivos.

Na avaliação do diretor da Datagro, essa redução está diretamente relacionada à forma como o setor se comunica com o consumidor. “A gente nunca investiu para fidelizar o cliente.”

Segundo Nastari, historicamente o etanol foi comercializado quase exclusivamente pelo fator preço, sem que seus benefícios ambientais, sociais e econômicos fossem apresentados de forma consistente ao consumidor. “A gente só sempre ficou exposto a preço.” Para ele, essa estratégia limita o crescimento do mercado.

“O consumidor brasileiro põe etanol porque é barato. Ele não põe etanol porque é verde, porque emprega, porque desenvolve.”

Ao comentar esse cenário, Nastari afirmou que o setor precisa mudar sua forma de comunicação. “Isso é marketing.” Na sequência, reforçou que o preço continua sendo praticamente o único argumento utilizado para incentivar o consumo do biocombustível. “O único atributo que a gente usa para vender etanol é preço. Preço é o atributo mais pobre que tem.”

Segundo o diretor da Datagro, a consequência já aparece no mercado doméstico. O etanol hidratado deixou de cumprir parte do papel que historicamente exercia de absorver o excedente de produção do setor. “A gente deixou de consumir, de 2019 para 2026, mais de 8 bilhões de litros de etanol.”

Mercado externo também enfrenta dificuldades

Além das dificuldades no mercado interno, Nastari afirmou que as exportações brasileiras de etanol atravessam um dos momentos mais desafiadores das últimas décadas.

Segundo ele, os embarques estão nos menores níveis dos últimos 23 anos, resultado da maior concorrência internacional e da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos, fatores que também reduzem a capacidade de escoamento da produção brasileira.

Na avaliação do especialista, a combinação entre mercado doméstico enfraquecido, exportações pressionadas e crescimento da oferta reforça a necessidade de ampliar a demanda pelo biocombustível.

João Rosa, do Pecege, complementou essa análise ao destacar que a elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina para E32 representa um avanço importante para o setor, mas, isoladamente, não altera de forma significativa o equilíbrio do mercado. Segundo ele, o impacto estimado é de um a dois centavos por quilo de ATR, efeito inferior ao provocado pela política de preços da gasolina.

Marketing passa a ser prioridade para o setor

Na avaliação dos participantes, o crescimento da produção brasileira de etanol — tanto de cana quanto de milho — torna indispensável ampliar o consumo interno e desenvolver novos mercados capazes de absorver essa oferta adicional.

Para Nastari, esse desafio não depende apenas de políticas públicas. Segundo ele, toda a cadeia sucroenergética precisa atuar de forma coordenada para comunicar melhor os diferenciais do etanol, deixando de vender o biocombustível apenas pela competitividade do preço.

O diretor da Datagro defendeu que o setor passe a investir na construção de uma relação mais duradoura com o consumidor, valorizando atributos como a redução das emissões de carbono, a geração de empregos, o desenvolvimento tecnológico e a contribuição do etanol para a economia brasileira.

Na avaliação do especialista, esse trabalho deve envolver usinas, produtores, consultorias, associações e demais agentes da cadeia produtiva.”Todas as startups que eu conheço do planeta Terra têm orçamento de propaganda e marketing. Nós do setor, consultores, usineiros, produtores de cana, associação, precisamos fidelizar o cliente.”

Natália Cherubin para RPAnews

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Episódio 27: Como a tecnologia está transformando as fábricas de açúcar?

Episódio 25: Manejo de plantas daninhas em cana: por que começar antes faz toda a diferença?

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