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Sem grandes fusões ou aquisições, o setor sucroalcooleiro vive uma “consolidação silenciosa”, na avaliação do analista Andy Duff, do Rabobank. Segundo ele, as usinas com liquidez financeira e acesso a crédito com boas taxas estão recebendo mais cana dos fornecedores independentes, que são os arrendatários ou donos da terra onde se planta a matéria-prima para a fabricação do etanol e açúcar.

“É uma transferência de acesso à cana dos fracos para os mais fortes. Isso gera um círculo vicioso em que as empresas em melhor situação financeira expandem sua capacidade de moagem enquanto as usinas frágeis vão ficando cada vez mais sem matéria-prima”, explica.

Segundo Andy, essa transferência de acesso à cana se evidencia ao analisar os volumes de moagem da região Centro-Sul, que estão patinando há três anos. O analista inglês, que mora no Brasil há 13 anos, diz que o setor está claramente dividido entre empresas cada vez mais fortes e empresas cada vez mais frágeis. A pandemia, que provocou redução no consumo e nos preços do etanol, evidenciou a divisão entre as usinas.

“Aquelas empresas com liquidez financeira, crédito e capacidade de tancagem puderam esperar o melhor momento para vender o etanol. Já as frágeis, que precisam de um fluxo de caixa para fazer o negócio girar, não tiveram escolha porque têm que vender nesta semana para almoçar na semana que vem”, observa.

O desafio dessas empresas em situação frágil é como sair desse círculo vicioso e ter dinheiro para investir no canavial. “Uma boa safra como a deste ano não é suficiente para isso”, afirma Duff.

O setor passa por problemas desde 2008, quando a recessão na economia norte-americana afetou todo o mundo, houve excesso de açúcar no mercado internacional e o governo brasileiro congelou o preço do etanol ao controlar o valor da gasolina.

Segundo levantamento de outubro da RPA, consultoria especializada na agroindústria canavieira, 96 usinas (ou 22%) de um total de 444 estão em recuperação judicial e 27 (6%) estão falidas. Estão paradas 103 usinas ou 23% do total.

Ricardo Pinto, diretor da RPA, diz que há casos de usinas que fecham unidades deficitárias e passam sua cana para outras indústrias. O consultor afirma que as aquisições continuam a ser uma opção, mas não há tendência de concentração no setor, que tinha 220 grupos econômicos há dez anos e hoje mantém cerca de 180.

“Houve uma queda grande no valor dos negócios. De 2006 a 2010, tradings e grupos internacionais compraram usinas pagando US$ 100 por tonelada de cana. Há quatro anos, o valor era de US$ 40 e hoje está entre US$ 10 e US$ 20”, observa.

O cálculo é feito dividindo o valor pago pela capacidade instalada de processamento de cana da unidade. No início de novembro, o fundo de investimentos Íntegra Special Situations adquiriu a usina Revati da Renuka do Brasil, que está em recuperação judicial e parada há dois anos, pagando R$ 263,5 milhões em leilão ou cerca de US$ 12 por tonelada. A usina tem capacidade de moer 4 milhões de toneladas.

Nova safra

Nas previsões do Rabobank, a próxima safra açucareira terá impacto da melhor atratividade do produto diante das curvas dos preços internacionais para açúcar e petróleo em 2021/22. “O mercado de etanol deve ser bem apertado e ainda temos que rezar para que a demanda de etanol seja maior do que a deste ano”, diz Duff.

Em números, a nova safra do Centro-Sul deve ser 4% menor, com 575 milhões de toneladas. Para a produção de açúcar está prevista uma redução de 10%, passando de 38,2 milhões de toneladas para 34,2 milhões.

Na produção de etanol de cana, a estimativa é de uma queda de 27 bilhões de litros para 25,6 bilhões. O que deve cair também é a qualidade, medida pela quantidade de Açúcar Total Recuperável (ATR), que atingiu neste ano o recorde da série histórica, segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

A seca prolongada e a perspectiva de efeitos do La Ninã explicam a queda. “Para que a seca não tenha efeito na produtividade, será necessário um clima perfeito na entressafra, o que é muito improvável”, afirma Duff. Além disso, o especialista cita uma redução prevista na área de cana por conta do avanço da supervalorizada soja.

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