Tecnologia Agrícola – Cálcio, magnésio e enxofre: mais produtividade e longevidade

Autor mostra a importância destes componentes na adubação visando a produtividade e a longevidade das soqueiras

* Fabio Vale

Para que as culturas se desenvolvam adequadamente e alcancem o potencial produtivo com retorno econômico são necessários alguns requisitos indispensáveis: local favorável à fixação de suas raízes, temperatura adequada, luz solar, ar, água, controle de pragas e doenças, além da quantidade suficiente de nutrientes. Essas necessidades são atendidas, em maior ou menor proporção, pelas condições de clima e solo do local onde se encontra a planta.

A cana-de-açúcar ocupa grande área de produção dentro do Brasil, sobretudo concentrando-se nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, locais com clima tropical, onde pode ser encontrada praticamente 85% de toda área produtiva do País.

Importante salientar as características dos solos das regiões tropicais, locais onde prevalecem altas temperaturas e precipitação, que geraram, ao longo do tempo, alterações químicas e perdas de elementos por erosão e lixiviação intensa. Nestes casos, os minerais primários foram alterados ou transformados, levando à perda de elementos básicos (cálcio, magnésio, potássio, sódio e sílica) e à formação de minerais secundários como caulinita, goethita e gibbsita. Este processo de intensa alteração deu origem a solos ácidos, muito pobres quimicamente, bastante intemperizados, profundos, com baixa capacidade de troca catiônica (CTC) devido à prevalência de argilas de baixa atividade e, em alguns casos, solos com mineralogia dominada por oxidróxidos de ferro e hidróxidos de alumínio.

Apesar da cana-de-açúcar estar sendo plantada nos mais variados tipos de solo, é bastante frequente o seu cultivo em solos com fertilidade mais restrita em todo seu perfil, como os Latossolos e Argissolos distróficos, álicos e ácricos. Landell et al. (2003) já mostraram que, nesses tipos de solo, as médias de produtividade são mais baixas. É também notório que a partir do terceiro corte ocorre diminuição do potencial produtivo que pode ser associado às menores fertilidades desses solos, sobretudo relacionadas à deficiência de cálcio (Ca), magnésio (Mg) e enxofre (S) no perfil do solo (Figura 1).

Dessa maneira, as práticas de correção do solo e adubação balanceada devem ser respeitadas durante todo o ciclo da cultura, objetivando áreas mais produtivas e também com maior longevidade. Entende-se por adubação balanceada aquela baseada em análises de solo e que preveem a adição de todos os macro e micronutrientes em quantidades suficientes para se atingir os potenciais produtivos em todos os cortes.

O Ca, Mg e S são considerados macronutrientes secundários, isto é, as plantas necessitam de alta quantidade durante o seu ciclo produtivo, na ordem de quilogramas por hectare. O Ca e Mg estão presentes nos calcários, enquanto que o Ca e S são constituintes do gesso agrícola. Normalmente, são adicionados ao solo em função das doses dos corretivos e dificilmente se contempla a adição também nas adubações de plantio ou soqueiras. Deve-se salientar que as doses dos corretivos aplicadas no preparo dos solos antes da implantação dos canaviais têm o objetivo de se corrigir características prejudiciais ao desenvolvimento das plantas, isto é, diminuir a acidez e a toxidez de alumínio. E que essas doses dos corretivos são definidas em função das características dos solos, sendo que nos solos com baixa CTC, como os das regiões tropicais, as doses normalmente não são tão elevadas, apenas satisfatórias para se corrigir os solos. Porém, as quantidades de Ca, Mg e S fornecidas geralmente não são suficientes para a nutrição por muitos cortes.

Esses três nutrientes possuem papel importante dentro da nutrição mineral da cana-de-açúcar. O Ca é responsável pela divisão das células, atuando na resistência da parede celular, contribuindo para a resistência à pragas e doenças. É considerado estimulante do desenvolvimento de raízes e folhas, sendo que se recomenda manter o teor no solo acima de 25 mmolc/dm3. Já o Mg é o centro da clorofila, molécula responsável pela absorção da luz solar durante a fotossíntese. Além disso, tem participação efetiva no transporte de assimilados (carboidratos, açúcares etc) para os órgãos de acúmulo, e no caso da cana-de-açúcar, favorece a maior concentração de sacarose nos colmos, devendo ser mantido em teores acima de 9 mmolc/dm3 no solo. O S é constituinte de numerosos compostos da planta: proteínas, aminoácidos (metionina, cistina e cisteína), reguladores de crescimento (tiamina, biotina e glutamina), entre outros, e o teor no solo adequado é de 15 mg/dm3.

As soqueiras normalmente são adubadas somente com fertilizantes contendo nitrogênio, fósforo e potássio. Pouco se atenta à aplicação de doses de Ca, Mg e S, mesmo nos solos com maior risco de deficiência. O correto seria realizar análises de solo logo após os cortes e identificar as necessidades desses nutrientes, que podem estar sendo responsáveis pela redução da produtividade média dos canaviais. Dessa maneira, pode-se criar um programa de adubação que contemple também a adição desses elementos.

Mesmo nas soqueiras as fontes mais utilizadas para a reposição são os corretivos, calcários como fonte de Ca e Mg, e gesso agrícola como fonte de Ca e S. O ponto positivo dessas fontes é que são abundantes no mercado e de custo relativamente baixo.

Tem-se verificado em análises de solo retiradas a partir do segundo corte, que os teores de Ca, Mg e S podem estar abaixo do adequado, porém não existe necessidade de reposição de calcário e gesso, devido o solo ainda apresentar pH na faixa adequada e saturação por bases de média a alta, pois são solos com baixa CTC, e também não existe presença de alumínio tóxico em profundidade. Vale salientar que aplicações de calcário em solos sem necessidade de correção do pH podem potencializar a volatilização do nitrogênio dos fertilizantes aplicados nas soqueiras, mesmo com uso da fonte nitrato de amônio. Além disso, também podem aumentar a precipitação do fósforo do solo e dos fertilizantes em função do Ca fornecido associado à elevação do pH causada pelo calcário.

Devido às características desses insumos, disponibilizados na forma de pó e normalmente úmidos, eles devem ser aplicados de forma individualizada, já que não se recomenda as misturas entre eles, nem a mistura com os fertilizantes granulados. As doses normalmente são elevadas, pelo menos 1 t/ha, e aplicadas à lanço e em área total, muitas vezes com distribuição desuniforme em relação às linhas de cultivo, e geralmente fornecendo quantidades acima da necessidade dos nutrientes. Isso pode levar ao aumento do custo de produção e mesmo assim não apresentar efeito significativo em termos de produção, principalmente ao se comparar com aplicações desses nutrientes na forma de fertilizantes granulados em misturas com as fontes de NPK.

Atualmente tem se avaliado o potencial de um novo produto para aplicação mais ajustada desses nutrientes em soqueiras de cana-de-açúcar, o Polysulphate, que é um fertilizante natural obtido do mineral Polihalita (14% K2O, 12% Ca, 3,6% Mg e 19,2% S), importado do Reino Unido e já utilizado comercialmente no Brasil. São grânulos naturais, compatíveis para serem misturados com os principais fertilizantes nitrogenados (ureia e nitrato de amônio), fosfatados (MAP e superfosfato simples) e potássicos (KCl) utilizados nas adubações das soqueiras. Dessa maneira, pode-se fornecer todos os macronutrientes em uma única aplicação, localizados ao lado ou sobre a linha da cultura.

CASE

Avaliação realizada no município de Catanduva, SP, na safra 2016/17, em talhão com a variedade RB 867515 em terceiro corte, mostrou o potencial do fertilizante, conforme se observa na Figura 2. A adubação padrão da fazenda, apenas fornecendo nitrogênio e potássio localizados ao lado das linhas das plantas produziu 124,6 t/ha de colmos. Área que recebeu a mesma adubação, porém com aplicação extra de 1 t/ha de gesso agrícola em área total atingiu 127,9 t/ha. Já a aplicação dos nutrientes Ca, Mg e S em única operação, utilizando-se uma mistura de nitrato de amônio, KCl e Polysulphate, mantendo as doses de nitrogênio e potássio, permitiu ganho de produtividade, atingindo 132,1 t/ha (acréscimo de 6% em relação à adubação convencional e de 3,3% em relação ao manejo com gesso agrícola).

Recomenda-se monitorar anualmente a fertilidade do solo através de análises nas áreas de soqueira e buscar a manutenção dos teores de Ca, Mg e S. Em caso de necessidade de reposição, a utilização dos corretivos – calcário e gesso agrícola – pode ser interessante, sobretudo quando os solos também estiverem ácidos e com presença de elementos tóxicos, como o alumínio. Porém, a utilização de fertilizantes contendo esses nutrientes, como o exemplo do Polysulphate, permitirá um manejo anual mais ajustado, aplicado junto com as adubações convencionais, e que trará o aumento da produtividade média e, consequentemente, da longevidade dos canaviais.

* Fabio Vale é engenheiro agrônomo e diretor Técnico da Adubai Consultoria Agronômica