Tecnologia Agrícola – A questão da produtividade da cana-de-açúcar

A queda de produtividade do canavial, como tem ocorrido nos últimos anos, estaria relacionada a produtividade do primeiro corte?

*José Luiz Ioriatti Demattê

Aumento da idade média do canavial, falta de reforma, seca acentuada, presença de geadas em determinadas regiões e presença de veranicos (entre outubro a abril) são alguns dos fatores relatados pelos especialistas do setor como responsáveis pela queda de produtividade dos canaviais. Concordo com a afirmação.

De qualquer maneira, a produtividade agrícola da cana-de-açúcar no Centro-Sul, após a safra 2010, está estacionada na faixa das 72 a 78 t/ha, inclusive em São Paulo, principal produtor de cana (Tabela 1). Neste caso específico é possível observar que das safras de 2006 a 2010 a média de produtividade estava na faixa de 80 t/ha, com 11,1 t de ATR/ha, contra 73 t/ha e uma média de toneladas de ATR/ha de 9,7 nas safras de 2011 a 2017, com uma diferença média de 1,3 t de açúcar/ha, o que não é pouca coisa. Tais quedas indicadas, principalmente após a safra 2010, são devido aos fatores indicados, mas também deve-se a intensa mecanização, principalmente do corte e plantio mecanizado, e a presença da palha na superfície do solo.

No caso da palha há uma série de atributos favoráveis, tais como a redução da evaporação da água do solo e da temperatura, assim como o aumento da amplitude térmica do solo, sensível redução da compactação, contenção de açúcar e potencial para a produção de energia, entre outras. Por outro lado, ela pode ser “maléfica”, favorecendo a proliferação de pragas do solo, aumentando a intensidade da geada, desfavorecendo a brotação da cana devido a redução da temperatura do solo, aumentando o potencial de doenças etc. Além disso, ela contém macro e micronutrientes, uns prontamente disponíveis, como é o caso do potássio, outros disponibilizados mais lentamente ou imobilizados, como é o caso do nitrogênio, assim como uma série de nutrientes que podem ser mineralizados ao longo dos anos. Quantos anos? O gráfico 1 simula o caso da mineralização do nitrogênio, indicando que 50% do total existente na palhada ficaria disponível pelos próximos 21 anos. E os micronutrientes? Infelizmente pouco ainda se sabe a este respeito, entretanto, e dependendo da posição que eles estariam nos compostos da folha, podem ser rapidamente ou não mineralizados.

As colhedoras de cana, assim como os transbordos e tratores, e não estando adequadamente adaptados ao espaçamento e aos RTKs, tendem a aumentar o tráfego sobre a linha da cana, causando uma série de transtornos como redução das trocas gasosas, aumentando a densidade do solo, inclusive nos arenosos, aumentado a fixação do fósforo, reduzindo o teor de fosforo do caldo, a disponibilidade de nutrientes e de umidade do solo.

Com a vinda do plantio mecanizado uma série de especulações tem sido feitas, principalmente em relação ao fato do plantio manual ter resultado melhor em termos de produtividade do que o plantio mecanizado. Possíveis explicações tem sido consideradas como a translocação de enzimas na muda, maceração de gemas devido ao corte mecanizado, a própria plantadora, ao tipo de sulco etc. O fato é que o plantio mecanizado, apesar de ter evoluído na área de cana não está ainda totalmente definido.

Sabendo disso, o setor canavieiro reagiu através de uma série de manejos, havendo aí uma sensível evolução nos mais diversos segmentos agrícola, como sensoriamento remoto aplicado nas diversas fases da cultura, o sistema de sulcação visando corte mecanizado, a grande evolução no sistema de transporte etc. Entretanto, a produtividade e o ATR não evoluíram.

O envelhecimento do canavial, a falta de reformas e a ação das condições climáticas são pontos indicados que explicariam a queda de produtividade, o qual concordamos, porém, vem a questão: haveria outros fatores atrelados a estes tópicos que são continuamente citados por revistas especializadas e consultores? Infelizmente, sim.

A QUESTÃO DAS VARIEDADES

Nos últimos 30 anos – das safras 1984/85 até a 2015/16 – foram executadas 1,6 bilhões de análises de colmo de cana citados por Andrade e Silva, da Orplana (Stab, 2016), indicados na Tabela 2, ilustrando valores da Pol% Cana e do ATR neste longo período. Observe que, mês a mês, no período de safra (de abril a novembro) praticamente não houve aumento da Pol% Cana, pelo contrário, houve redução. No período de safra de 1984/85 até safra 2008/09 a Pol% Cana esteve na média de 14,98% e no restante das safras, até 2015, foi reduzida para 13,83% e o ATR de 148 kg/t de cana para 138 kg/t de cana, respectivamente.

De acordo com Andrade e Silva (2016), o que se observa nos acréscimos ou decréscimos dos valores da Pol% Cana ao longo das safras se deve unicamente as oscilações climáticas e não as variedades, da mesma maneira que o aumento ou diminuição da t/ha de cana. Tal fato pode ser presenciado nesta safra 2018/19, onde o acentuado período seco em todo Centro-Sul tem aumentado o ATR e em consequência trazido queda da produtividade agrícola. Se novamente persistirem estas condições climáticas, no final da safra teríamos novamente valores do ATR/ha na faixa de 10,5.

De qualquer maneira e devido ao grande esforço das instituições relacionadas a obtenção de variedades comerciais, testadas com corte mecanizado, assim como ao grande número deste material colocado à disposição das unidades, não se tem ainda conseguido acréscimo expressivo neste fundamental parâmetro. É de conhecimento geral que a eliminação de variedades se deve principalmente a doenças, mas outros fatores também são importantes. Dependendo da maior ou menor suscetibilidade a doenças a variedade pode ter maior ou menor estabilidade. Além do mais, a exuberância de determinada variedade não significa estabilidade, pois nota-se com a mesma velocidade que as novas variedades são introduzidas elas estão sendo, na maioria dos casos, eliminadas. Onde estaria o erro? Tudo leva a crer que estaria justamente no pouco tempo de observação antes de ser posto na área comercial. Na maioria dos casos os testes de validação tem ficado para os usuários decidirem, o que não está correto.

Faltam ainda novas variedades precoces e tardias para solos de baixa fertilidade, onde tem-se destacado a RB 867515, apesar dos inconvenientes observados como a perda de produtividade em corte mecanizado em solo arenoso e ao ataque da podridão de topo. Como se observa, a questão varietal adaptada as condições anteriormente citadas ainda não está totalmente resolvida. Em futuro próximo, com a expansão da cana transgênica, tudo leva a crer que tais fatores serão atenuados.

PRODUTIVIDADE DAS CANAS DE ANO E MEIO

A escolha da cana de ano e meio ocorreu por uma série de quesitos, mas principalmente por trazer redução da influência da compactação, de ervas daninhas e pragas do solo, do tráfego de máquinas e equipamentos na linha de cana. Por outro lado, tem sido feitas aplicações de insumos, minerais ou orgânicos, parcelados ou não, tanto em área total como no sulco e posteriormente aplicações aéreas de fertilizantes após o desenvolvimento do canavial. Sendo assim, uma série de tópicos ditos negativos, como os comentados anteriormente, foram eliminados.

Portanto, o principal objetivo deste trabalho é avaliar se houve ou não aumento da produtividade agrícola, em t/ha, ao longo destes últimos anos em relação aos inúmeros procedimentos feitos no plantio. Para tal finalidade, foram utilizadas informações cedidas pelo CTC (resultados de safras de todo Centro-Sul de 2008 até maio 2018) que correspondem a um total de 230 usinas, das quais foram selecionadas 104 usinas que enviaram informações de produtividade das safras de 2008 a 2017. Deste número foram selecionadas usinas em função da faixa de produtividade: acima de 125 t/ha; entre 115 a 125 t/ha; entre 105 a 114 t/ha; entre 95 a 104 t/ha; entre 80 a 94 t/ha e abaixo desta produtividade. O Gráfico 2 ilustra a frequência do número de usinas em relação as produtividades.

É possível que a produtividade das usinas do Centro-Sul, de média de 131,2 a 80 t/ha, ilustre seguramente as regiões e os solos cultivados das usinas pesquisadas. De qualquer maneira, as produtividades nas safras anteriores a 2011 ou 2012 (Tabela 3) são semelhantes as produtividades das safras mais recentes, 2013 a 2017, independentemente das faixas de produtividade.

A Tabela 3 ilustra a média de produtividade das safras 2008 a 2017 de usinas de elevada produtividade. Note que nas safras 2011 e 2014, a produtividade média destas usinas foi menor devido as condições inadequadas do clima, vindo daí a afirmação de Andrade e Silva (2016) de que os acréscimos ou decréscimos nos valores da t/ha ao longo das safras se deve unicamente as oscilações climáticas e não às variedades. Sendo assim vem o questionamento: houve acréscimo na produtividade das canas de ano e meio apesar de todos os esforços que estão sendo feitos e aplicados, como sistemas de plantio, fertilizantes, inseticidas, fungicidas, variedades etc? De acordo com os dados não tem havido tal acréscimo.

Por outro lado, há usina classificada de elevada produtividade no Estado de São Paulo, com 65% de ambientes desfavoráveis (D a G), com 53% cultivado de RB 857515 e SP 832847 e idade média superior a 4 ganhando prêmios de produtividade. Como explicar? A tônica aqui se refere ao sistema disciplinar empregado em todas as atividades agrícolas. É o exemplo a ser seguido, enquanto não vier novas tecnologias vencedoras que possibilitem o aumento de produtividade agrícola e industrial.

* José Luiz Ioriatti Demattê é professor Titular e ex-Chefe do Departamento de Solos e Nutrição de Plantas da Esalq/USP