Tecnologia Agrícola – Qual é o espaçamento ideal para os canaviais?

Natália Cherubin

Considerando os 9 milhões de ha plantados com cana-de-açúcar no Brasil, é possível encontrar uma grande diversidade de ambientes de produção, nos quais o espaçamento da entrelinha é uma importante variável na determinação das condições e do tipo de manejo agronômico a ser adotado, do plantio a colheita, passando por todos os tipos de tratos culturais. Antes da colheita mecanizada houve uma série de espaçamentos utilizados na cultura da cana como 1,5 X 1,5; 1,4 X 1,4; 1,10 X 1,10; 1,0 X 1,0 e 0,90 x 0,90. Os espaçamentos menores do que 1,5 X 1,5 ou 1,4 X 1,4 foram instalados em solos de baixa fertilidade, não somente em solos arenosos, mas também em solos de textura mais argilosa e onde as condições climáticas eram extremamente desfavoráveis, como em regiões do Nordeste e Centro-Sul do país.

Uma série de experimentos realizados demonstraram que espaçamentos mais fechados que 1,5 X 1,5 ou 1,4 X 1,4 eram mais produtivos em comparação aos espaçamentos mais abertos, enquanto a produtividade se mostrava semelhante ou ligeiramente menor. De acordo com José Luiz Ioriatti Dematte, professor Titular e ex-Chefe do Departamento de Solos e Nutrição de Plantas da Esalq/USP, os espaçamentos de 1,5 X 1,5 m ou 1,4 X 1,4 m acabaram sendo instalados em solos de melhor fertilidade. No entanto, haviam usinas com diversos tipos de solos, desde os argilosos de boa fertilidade até arenosos ou extremamente arenosos de baixa fertilidade. Então, o que fizeram? Em casos como estes, definir um espaçamento era uma tarefa extremamente difícil, pois um canavial de uma usina com dois espaçamentos seria inviável devido a uma série de inconvenientes em termos de bitolas de equipamentos. Sendo assim, grande parte das unidades optou por espaçamentos mais fechados do que 1,5 X 1,5 ou 1,4 X 1,4. O espaçamento 1,10 X 1,10 iniciou na região de Lençóis Paulista, SP, devido as bitolas dos tratores e caminhões, e se espalhou no mundo canavieiro em usinas que apresentavam solos de baixa fertilidade.

Paralelamente, a área de desenvolvimento das usinas estava preocupada com o corte mecanizado e experimentos foram instalados nas mais diversas regiões canavieiras do país. Neste aspecto, houve um dilema: como ajustar os melhores espaçamentos para a preservação da rua de cana uma vez que as fabricantes de colhedoras não iriam alterar as bitolas das máquinas? Sendo assim, e através dos resultados obtidos até àquela época, espaçamentos duplos de 0,50 X 1,50 ou 0,50 X 1,40 m, assim como no espaçamento mais aberto com modificações relacionadas ao tipo de sulcador – no caso, sulcador de base larga ou sulco duplo mais fechado – de 0,40 X 1,50 m, foram as apostas de algumas usinas, que, na ocasião, investiram nestes espaçamentos em área comercial. Uma série delas, em maior número no Nordeste, passaram a utilizar o espaçamento 0,50 X 1,50 ou 0,50 X 1,4 m.

Beauclair: “Existem diferenças varietais, ambientes de produção distintos, épocas e períodos de desenvolvimento particulares que interagem entre si tornando o espaçamento ideal único para cada caso”

O que ocorreu foi que neste sistema e, dependendo da topografia, segundo Dematte, um dos sulcos ficava mais raso do que o outro e por ocasião do corte mecanizado o arranquio ou danificação da cana do sulco mais raso ficava comprometida, aumentando as falhas nas soqueiras. Ocorreu também aumento das perdas de colheita, principalmente no primeiro corte, que foram acentuadamente bem maiores do que no sulco convencional, de 1,5 X 1,5 ou 1,4 X 1,4, e houve maior dificuldade na cobrição da cana, assim como o impedimento da operação de quebra lombo no 0,50 m. “Sendo assim e, apesar dos esforços no sentido de ajustar as perdas e as falhas no corte mecanizado, muitas usinas abandonaram, infelizmente, o sistema. Outras, poucas por sinal, investiram nos inconvenientes e obtiveram sensível redução nas perdas de matéria-prima, aumentando a longevidade das socas”, conta Dematte.

Quem decidiu encarar precisou aumentar a profundidade do sulco (a base do sistema, realizado com sulcador de disco (semelhante ao usado no Nordeste), acabando com a necessidade do quebra lombo no espaçamento fechado. Ainda de acordo com Dematte, ajustes foram feitos nos equipamentos de plantio e de soqueira (o fertilizante é aplicado na entrelinha de 0,50 m) ajustando melhor o sistema, inclusive com plantio mecanizado e o uso de torta de filtro.

CONVENCIONAL PELA MECANIZAÇÃO

Atualmente no Brasil há dois principais tipos de espaçamento: de linhas simples e de duas linhas (duplo alternado). A maioria das usinas utiliza o de 1,5 m simétrico por conta da mecanização. Esse espaçamento, de acordo com Regis Ikeda, especialista de Marketing de Produto da Case IH, pondera melhor a questão agronômica de aproveitamento de área (metros lineares/ha) e também a mecanização.

Segundo o professor Edgar Gomes Ferreira de Beauclair, do departamento de Planejamento e Produção da Esalq/USP, outros países como Austrália e EUA trabalham com 1,8 X 1,8 m pela mesma razão. “Maiores adensamentos, apesar de proporcionar maior número de perfilhos por hectare, na colheita mecânica apresentavam perdas tão altas na operação que não valia a pena mantê-los. Além disso, devido as bitolas das máquinas, acentuou-se a compactação sobre as linhas de cana, afetando a brotação e a produtividade dos cortes subsequentes e reduzindo a longevidade da cultura. Assim, em troca disso, aceitou-se a redução do número de metros de cana por hectare por uma maior eficiência na operação de corte e preservação das touceiras. Em todo caso, é importante frisar que experimentos mostram que a cana poderia perfeitamente ser cultivada em espaçamentos menores até 0,7 m, de acordo com a variedade, ambiente de produção e épocas de plantio”, observa Beauclair.

Para Oscar Braunbeck, diretor de Agricultura do Centro de Ciência e Tecnologia de Bioetanol, mesmo com o ajuste para 1,5 m visando uma adequação parcial do plantio à bitola das colhedoras, a bitola da colhedora deveria ser de 1,5 m para praticamente eliminar o dano provocado pelas máquinas às soqueiras no espaçamento de 1,5 m. Considerando que a largura da soqueira pode atingir 0,6 m, o espaço livre para o tráfego na entrelinha é de 0,9 m, onde caberia com folga de 0,5 m uma esteira com 0,4 m de largura. Isto se a bitola fosse de 1,5 m, no entanto, a bitola da colhedora é de aproximadamente 1,9 m para melhorar sua estabilidade ao tombamento lateral. Nesse caso, a folga para desvios de trajetória da esteira é nula, condição essa que leva ao pisoteio das soqueiras.”

José Luís Coelho, consultor estratégico de Marketing Cana-de-açúcar da AGCO para a Valtra, afirma que, ao contrário do que poderia se pensar, o espaçamento de 1,5 m não foi determinado como resultado de pesquisas agronômicas que comprovassem que essa formatação de canavial foi orientada para produtividade e/ou retorno econômico.

DUPLO ALTERNADO E SUAS LIMITAÇÕES

O espaçamento de 0,9 X 1,5 m é conhecido como duplo alternado e foi implementado mais recentemente em algumas usinas e produtores. Este espaçamento, utilizado em aproximadamente 20% dos canaviais brasileiros, segundo especialistas, visa adensar linhas duplas, aumentando a população por área, em relação ao 1,5 m, gerando também outros benefícios, como aumento no rendimento da colheita, menor tráfego e redução de custos.

“O espaçamento duplo alternado ainda possibilita ambiente melhor para o desenvolvimento de raízes, menor custo com manutenção e consumíveis da colheita e maior produtividade. Sabemos, porém, que inúmeros trabalhos de pesquisa mostram que espaçamentos mais adensados, de 1,0 a 1,1 m simétricos têm grande tendência de obtenção de maior produtividade, basicamente pela maior população, mas sua mecanização é menos viável, por causa do pisoteio dos equipamentos”, afirma Ikeda.

Além dos já citados pontos, Dematte adiciona a maior possibilidade da aplicação de fertilizantes e compostos orgânicos na entrelinha de 0,90 m, a possibilidade de canteirizar em maior volume de solo e o maior controle da cigarrinha devido a remoção parcial da palha como pontos fortes do sistema duplo alternado.

De pontos fracos ele cita a maior perda de cana, na faixa de 10 a 12%, mesmo com usinas e fornecedores que tem menor perda em comparação ao 1,50 X 1,50 m; menor profundidade de sulcação (deve ser sensivelmente melhorado como no sulco 0,50 m); e maior quantidade de falhas nas soqueiras devido ao arranque ou maceração de gemas (relacionado a profundidade de plantio e a velocidade da máquina). “Mas o que fazer para resolver isso? Ajustar e melhorar os pontos fracos do sistema assim como melhorar ainda mais as máquinas. Produtividade acima de 130 t/ha, muito comum em algumas usinas nos primeiros cortes, tem sido difícil de atingir. Há casos de plantio alternado com irrigação de gotejo, de média acima de120 t/ha em seis cortes, onde as perdas tem sido consideráveis. Portanto, como se observa, a questão para nas máquinas, uma vez que na área agrícola se consegue atenuar tais inconvenientes”, salienta Dematte.

Coelho acredita que a prática somente é recomendada para solos de baixa fertilidade, onde existe necessidade de maior número de plantas por unidade de área para compensar a menor produtividade natural. “É um sistema que exige significativo investimento para implantação, especialmente quando a área agrícola da usina já está consolidada, pois exige a adequação e/ou mudança de todos os equipamentos como bitolas dos tratores, implementos de cultivo e colhedoras de duas linhas.”

Para Beauclair a colhedora de duas linhas, com altos índices de perdas foi o que acabou prejudicando a expansão do sistema em mais áreas. “Além disso, o espaçamento duplo alternado é também comumente associado a outras práticas como preparo profundo, canteirização e irrigação por gotejamento. Em todos os casos fica difícil analisar o efeito de cada prática isoladamente e a canteirização, uma das principais razões do surgimento desse espaçamento, pode ser adotado mesmo com espaçamento simples.”

Em 2004, Dematte revela que houve uma reunião técnica com os diretores e equipe agrícola da Raízen e a posição foi a seguinte: como 65% das usinas da companhia apresentavam solos de baixa fertilidade e que, portanto, cortando cana com máquinas neste tipo de solo em espaçamento de 1,5 X 1,5 m não seria competitivo, algo deveria ser feito. Ficou então decidido que a colhedora iria cortar duas linhas de cana, 0,90 X 1,50 m melhorando sensivelmente a eficiência das máquinas e reduzindo o custo final da colheita. A iniciativa teria como melhorar de 15 a 20% ou até mais o rendimento por máquina por ocasião da colheita.

Na época que foi decidida a mudança, não se sabia praticamente nada a respeito da implantação do sistema, ou seja, como sulcar, plantar, cobrir, aplicação da torta de filtro, soqueira etc. Houve necessidade de um novo aprendizado que ao longo dos anos foi sendo aprimorado e que, segundo Dematte, ainda necessita de muitas adequações, assim como no espaçamento de 1,50 X 1,50 m.

“Houve casos de tráfego na linha de 0,90 m compactando o solo, que posteriormente e gradativamente foi sendo reduzido ou eliminado. Na ocasião da mudança para o alternado na Raízen, o objetivo fundamental era o de reduzir o custo final do corte mecanizado, o que foi obtido, porém não havia interesse, na época, de aumento da produtividade agrícola”, conta.

MUDANÇA DE ESPAÇAMENTO: POSSÍVEL?

Perguntamos aos especialistas se seria possível voltar ao convencional após implementar o duplo alternado ou vice-versa. E, segundo Dematte, deve-se levar em consideração uma série de questões relacionadas a atuação da equipe agrícola e dos diretores, afinal, se não houver consenso das limitações do sistema e a das alternativas para reduzir ou eliminar as limitações, a unidade acabará migrando para o espaçamento 1,50 X,1,50 m.

“Grande parte das usinas no espaçamento 1,50 X 1,50 m que apresentam ambientes de produção A e B não estão conseguindo ajustar a produtividade agrícola em função destes ambientes justamente devido a compactação, e em consequência de todos os demais fatores relacionados a este tema. Por que outras usinas e fornecedores estão migrando para o alternado? Com certeza, tais empresas estão conscientes dos inconvenientes do sistema e pretendem ajustá-los. É o que está ocorrendo.”

Ikeda afirma que a obtenção de bons resultados com o duplo alternado pode levar tempo já que faltam estudos e há grandes mudanças culturais em relação ao manejo, além do uso de novos equipamentos. “Todos esses fatores podem influenciar no resultado final. Observamos que, quando foi iniciada a implantação do espaçamento duplo alternado, muitas usinas ainda tinham uma porcentagem muito expressiva de área colhida manualmente. Isso significa que muitas delas ainda não contavam com o domínio por completo da colheita mecanizada no espaçamento simples e elas já passaram para o duplo alternando, gerando uma mudança muito drástica”, observa.

Ikeda lembra que a mudança para o duplo alternado não envolve somente a colheita, mas o manejo de forma geral e o entendimento do comportamento do canavial por pelo menos seis cortes em uma quantidade expressiva de área em diversos climas para estudo e comparativo.

É provável que tenham faltado pesquisas para esse entendimento completo e para que o resultado esperado na teoria atingisse ١٠٠٪ na prática para todos que adotaram esse espaçamento. Outro ponto relevante e que precisa ser levado em consideração é a dificuldade que muitos produtores tiveram durante o plantio mecanizado para esse espaçamento, por conformação e uniformidade de sulco na distribuição de mudas e o próprio manejo pós-plantio, fazendo com que o canavial iniciasse de forma limitada. Muitos que testaram, usam ou usaram o espaçamento duplo alternado afirmam que ele tem um ótimo resultado no solo arenoso e pouco no argiloso. Afirmação que faz muito sentido, porque no solo argiloso a planta tem condições melhores de desenvolvimento e no espaçamento de ٠,٩ m provoca maior competição das linhas duplas, fazendo com que reduza o TCH versus a mesma condição plantada no espaçamento de 1,5 m”, acrescenta Ikeda.  

Já no terreno arenoso (ou ambiente de produção de menor potencial), a limitação do solo faz com que a planta fique mais distante do seu potencial de desenvolvimento e, com o uso do duplo alternado, aumenta-se a população de plantas na área sem ter grande influência de competição das linhas duplas, pois essas canas já se desenvolveriam menos, assim se aumenta o TCH da cana pelo aumento de população.

“Hoje cada usuário está consolidando o seu espaçamento e não tende a alterar no curto prazo. Houve muita dificuldade no início e, atualmente, o setor aprendeu e se adaptou para conseguir extrair mais dentro da sua forma de manejo”, reflete Ikeda.

Para Braunbeck, a decisão de retornar ao espaçamento simples parece inadequada, mas depende de um cálculo econômico dos ganhos conseguidos no custo de colheita com a colhedora de duas linhas e os ganhos de produtividade registrados em função da redução da compactação (pisoteio), quando cotejados com o valor estimado das perdas de cana que ocorrem na colheita de duas linhas. “Feita essa análise e feita a escolha pelo duplo alternado, a decisão de abandonar esse espaçamento só deveria acontecer diante de alguma mudança muito significativa nas condições de operação que justifiquem um câmbio tão radical.”

Atualmente não há muito o que fazer. Ou se permanece no espaçamento convencional de 1,50 X 1,50 m ou no 0,50 X 1,50 m ou no alternado 0,90 X 1,50 m. A escolha da mudança para qualquer um destes espaçamentos compreende a atuação da equipe agrícola e diretores. Se não houver consenso, Dematte sugere permanecer no 1,50 X 1,50 m.

“Por outro lado, imagine uma usina com elevado percentual de solos de baixa fertilidade no espaçamento de 1,50 X 1,50 m e produtividade na faixa média de cinco cortes de 65 a 75 t/ha, muito comum em São Paulo. No terceiro corte e em cana adulta há possibilidade de enxergar a entrelinha. Em casos como estes há necessidade de estudos aprofundados sobre a possibilidade de migrar para o alternado, pois seria um caso de sobrevivência da empresa. O corte mecanizado com duas linhas de 1,50 X 1,50 m não deixa de ser um alento, porém a questão permanece a mesma, ou seja, o aumento do rendimento do corte mecanizado assim como o aumento das perdas. E se houver diversos tipos de solos em função da textura, mesmo assim, há necessidade de estudos para tomar a decisões de migração ou não do espaçamento”, aponta Dematte.

ESPAÇAMENTO IDEAL: EXISTE?

A definição de espaçamento ideal é muito complexa, pois como há inúmeras variáveis que devem ser ponderadas e cada local tem sua peculiaridade. No entanto, na visão de Ikeda, a melhor opção é a que proporciona mais retorno financeiro, que é muito influenciada pela que gera maior TCH e maior longevidade. “O setor tem de inovar, mas o conservadorismo também é válido quando faltam certezas.”

Beauclair afirma que existem muitos experimentos na literatura clássica e atual que indicam que fisiologicamente a cana não precisa de um espaçamento tão largo, e que a única razão para tal adoção é o maquinário existente. No entanto, acredita que não existe um espaçamento único que possa ser considerado ideal para todos os casos. “Existem diferenças varietais, ambientes de produção distintos, épocas e períodos de desenvolvimento particulares que interagem entre si tornando o espaçamento ideal único para cada caso. Como isso, na prática é inviável operacionalmente, deve-se adotar o espaçamento que seja compatível com a maior parte dos ambientes de produção e das variedades neles cultivadas, respeitando sempre a maior limitação existente, que são as máquinas disponíveis para colheita”, opina.

Para Coelho não existem receitas mágicas que sejam adequadas para todos os ambientes de produção. Naturalmente, quando se prioriza um programa para controle de tráfego é preciso considerar que todos os equipamentos tem que estar alinhados entre si e, em especial, com a genética da cana. “Nesse sentido, considerando-se que já se dispõe de soluções de bitola de 3,0 m para quase todos os equipamentos, desde que a genética e as condições climáticas permitam, é razoável se pensar em espaçamentos submúltiplos de 1,5 m, tanto simples como alternados.  O que não podemos mais é ficar fazendo estudos baseados em ‘tentativas e erros’, pois isso custaria muito caro e demandaria um tempo que que o setor sucroenergético já não dispõe mais.”

Braunbeck afirma que existem diversos estudos que mostram que a redução de espaçamento está associada a ganhos muito significativos de produtividade, principalmente se as plantas são posicionadas com espaçamentos equidistantes no sulco, sendo estes iguais a distância entre sulcos no caso de espaçamentos reduzidos (plantio de precisão). “Existem registros de experimentos (não comerciais) com espaçamentos de até 0,5 X 0,5 m, sendo 0,5 m entre sulcos e 0,5 m entre plantas. Esta configuração resultou em ganhos de produtividade e redução do diâmetro dos colmos, sem alterações significativas no teor de açúcar ou fibra da matéria-prima”, destaca.

Braunbeck adiciona que como o espaçamento de plantio está atrelado à bitola das colhedoras, para que haja mudanças significativas de espaçamento, seria preciso pensar em uma reformulação total do processo de colheita, passando para colhedoras com bitolas acima de 6 m e não apenas efetuando adaptações. “O potencial de ganhos com produtividade e redução de custos associado a estas mudanças são de tal magnitude que tornam desprezíveis os custos de desenvolvimento de novas máquinas, que são necessários.”

Dematte concorda com todos os especialistas. De fato não existe espaçamento ideal. De acordo com ele, o espaçamento de 1,50 m é adequado para solos de melhor fertilidade como tem sido visto em muitas usinas, inclusive em São Paulo. Há usinas testando espaçamentos maiores que 1,50 m, inclusive alterando sistema do sulco, ao invés de sulco em V para sistema trapezoidal, o que seria ideal inclusive para solos de boa fertilidade. Entretanto, são experimentos e testes. A base toda do sistema seria a redução do tráfego sobre a linha de cana, ou seja, preservar o vaso.”

Há muitos anos, mais precisamente em outubro de 2000, foi testado na Usina da Barra, SP, o espaçamento triplo. Os resultados (Tabela 1) mostram que este tipo de espaçamento tende a perder produtividade em comparação com os demais. “Mais recentemente no Centro-Sul foi testado tal sistema em plantio e soqueira – nesta foi ressulcada a entrelinha de 1,50 m e plantado a linha central – e não foi adiante por conta da perda de produtividade, principalmente na rua central. Tais resultados indicam que a quantidade de água disponível no solo e a insolação são fatores limitantes aos espaçamentos”, destaca Dematte.

PARA ONDE ESTAMOS INDO?

Em grãos, soja, milho, sorgo etc, a produtividade está aumentando ano a ano, assim como o aumento do tamanho dos equipamentos de plantio e colheita. A justificativa para isso são inúmeras, sendo o fator econômico de fundamental importância. Enquanto a cultura de grãos é de primeiro mundo, a cana é, infelizmente, de terceiro mundo, segundo Dematte. Sendo assim, há necessidade de maior velocidade na evolução de máquinas e espaçamento para a cana. “Na área agrícola está havendo muita evolução, porém os custos de produção estão aumentando dia a dia e a produtividade, infelizmente, estacionada, inclusive de primeiro corte, o que não deveria ocorrer.”

O corte mecanizado de duas ruas de 1,50 X 1,50 m, que já é realidade em usinas e produtores de cana, deve ser o futuro, segundo Dematte. “Acredito que logo será possível cortar em três ou mais ruas de cana, considerando que o alternado seria mais viável e o corte de quatro ruas seria feito apenas em topografias mais suaves. Nas encostas acredito que continuaríamos usando o convencional de duas ruas. De qualquer maneira, tais alternativas devem ser questionadas e se possível colocadas em prática”, conclui.

Para Braunbeck, se for considerado que a qualidade do plantio resulta em maior produtividade, a resposta é usar o menor espaçamento possível compatível com o ambiente de produção e não apenas compatível com as bitolas das máquinas existentes. “Atualmente, o menor espaçamento médio que se consegue é de 1,2 m, no caso do espaçamento combinado, o qual foi implementado para reduzir o pisoteio do solo e o custo da operação que propicia a colheita de duas linhas simultâneas. Para que o espaçamento diminua além desse valor seria necessária uma mudança drástica na tecnologia de colheita onde a bitola das colhedoras aumentaria para valores acima de 6 m com colhedoras de linhas múltiplas, nos moldes praticados na colheita de grãos”, conclui.