Tecnologia Agrícola – Você sabe como usar o lastro

Fazê-lo corretamente pode trazer redução da compactação de solo, diminuição no consumo de combustível e aumento na velocidade de trabalho, isso sem alterar a qualidade de operação

Alisson Henrique

O trator é a ferramenta mais importante para quase 100% das operações agrícolas. Apesar de itens como robustez, torque, potência e tecnologias embarcadas serem importantes, um dos fatores que faz toda a diferença no resultado final das operações é o lastro, que se feito da maneira correta, pode contribuir para a redução da compactação de solo, refletindo diretamente numa melhor brotação da cana, aumentando o ciclo de cortes, além de reduzir o consumo de combustível e possibilitar aumento na velocidade de trabalho. Mas será que todos sabem fazê-lo corretamente?

O lastreamento deve obedecer a um equilíbrio na distribuição do peso adicionado ao trator, seja por lastro metálico/sólido ou água. De acordo com o professor do Nempa (Núcleo de Ensaios de Máquinas e Pneus Agroflorestais) da FCA/Unesp Botucatu, Kléber Lanças, os lastros, em qualquer situação ou condição, tem como função adequar o peso do trator e distribuí-lo entre os eixos dianteiros e traseiros, em função do tipo de engate do conjunto trator e equipamento montado, semi-montado e de arrasto.

A distribuição de peso de forma incorreta afeta os níveis de patinagem, trazendo como consequências um desgaste excessivo dos pneus e componentes mecânicos, além de perda de força de tração, aumento de consumo de combustível e baixo rendimento. Sendo assim, a configuração do lastro tem grande importância na performance dos tratores, pois garante o melhor aproveitamento da transmissão de potência do trator ao solo, permitindo maior estabilidade e reduzindo o power hop (galope).

O especialista em Motomecanizarão Luiz Nitsch, diretor da Sigma Consultoria Automotiva, explica que o power hop geralmente é causado por desbalanceamento na distribuição do peso físico nos seus eixos de tração, que deve ser 35+-5% no eixo dianteiro e 65+-5% no eixo traseiro. “Se houver insistência operacional, será certa a ruptura de algum componente da transmissão do trator.”

Rafael Tonette, especialista de Marketing Tático Case IH acrescenta que, considerando o uso de conjuntos trator-implemento, a correta lastragem proporciona a transformação da potência do motor em potência de tração da forma mais eficiente possível, contribuindo diretamente no resultado da produção agrícola e no uso racional de energia.

Alexandre Stucchi, gerente de Marketing para pneus agrícolas da Prometeon do Brasil, explica que ao lastrear abaixo do ideal, os pneus irão patinar facilmente, provocando perda de velocidade, aumentando o desgaste da banda de rodagem e no consumo de combustível. Já no caso da lastração excessiva, o solo é compactado acima do que deveria, aumentando a resistência ao rolamento, o que vai causar desgaste excessivo do equipamento.

LASTRO LÍQUIDO OU METÁLICO/SÓLIDO?

O lastro utilizado para ajuste dos tratores pode ser metálico ou líquido, independente da operação agrícola que se esteja fazendo. Stucchi explica que o mais importante do lastro dos conjuntos roda e pneu é, uma vez determinado o peso da operação e a pressão recomendada para esta operação, garantir o equilíbrio operacional adequado ao trator para evitar o power hop.

Ele defende que a lastração com água tem o benefício de ter custo mais baixo, ser mais rápido e fácil de realizar, além de garantir a possibilidade de graduar à vontade. Já a lastração com contrapesos deve ser feita apenas em trabalhos mais pesados e retirados assim que o trator voltar para uso em situações normais. “No caso de lastro líquido em pneus diagonais, deve-se observar o máximo de 75% do volume do pneu para não eliminar suas propriedades de amortecimento e flexão. Já nos pneus radiais, a Pirelli recomenda que deve-se preencher até no máximo 40% do volume”, complementa.

Já Mauro Oliveira, gerente de Vendas da Trelleborg do Brasil, opina que o ideal seria adequar o trator sem a utilização de água no interior do pneu porque, segundo ele, faz com que a lateral do pneumático perca um pouco da sua flexibilidade e, consequentemente, contato com o solo (menor footprint). Ele explica que normalmente se utiliza os dois tipos de lastros em uma mesma máquina, um complementando o outro. “No Brasil, não conseguimos chegar ao peso ideal da máquina sem a utilização do lastro líquido. Não existe espaço físico no trator para a ‘transformação’ de lastro líquido em lastro metálico.”

Rafael Kozak, engenheiro de Suporte ao Produto da New Holland, diz que hoje o lastro líquido, por ser inicialmente mais barato, é o mais usado, no entanto, é o mais prejudicial a longo prazo devido à dinâmica da água dentro do pneu. Ele defende que sempre que possível se utilize o lastro sólido e o lastro líquido apenas quando e se necessário, respeitando o volume de 40% tanto para pneu diagonal quanto para radial. “A diferença é a construção da estrutura dos pneus, capacidade de tração, em que o mais eficiente é o pneu radial, mas tudo depende de quanto o cliente está disposto a custear e da aplicação do trator.”

Lanças conta que hoje em dia as empresas têm lastrado os tratores com 75% de água (considerado o máximo) e completando o que for necessário com lastros sólidos para chegar no peso e distribuição ideais.

A utilização de água no interior dos pneus são as mesmas tanto para os pneus diagonais como para os radiais. “Normalmente os pneus radiais são montados sem câmara de ar. Dessa maneira, a água fica em contato direto com a aro e o interior do pneu, então é necessário uma maior proteção ao aro contra a ferrugem e a certeza que todo conserto/reparo ocorrido na parte interior do pneu esteja bem vulcanizado para evitar que a água se infiltre para o interior da parede do pneu e oxide as lonas têxteis, ocasionando o sucateamento prematuro do pneu”, pontua Oliveira.

O lastro é definido de acordo com o índice de patinagem da operação, que deve ser entre 12% e 18%. Pneus radiais tem maior aderência com menor peso. “Sabendo que o lastro máximo é 55kg/cv e a patinagem máxima é 18% fica fácil adequar a máquina para manter a menor relação de peso e patinagem”, explica Alberto Toledo, coordenador de Marketing de Produto Tratores da Valtra.

LIMITE DE LASTRO

Segundo Mauro Oliveira, gerente de Vendas para Equipamento Original da Trelleborg do Brasil, o ideal seria adequar o trator sem a utilização de água no interior do pneu, que faz com que a lateral do pneumático perca um pouco da sua flexibilidade e consequentemente contato com o solo (menor footprint)O máximo de lastro permitido é determinado pela estrutura de cada trator. Os fabricantes informam esses valores nos manuais de operação. Lanças explica que para operações pesadas, como preparo de solo, o peso ideal do trator deve ser correspondente a 60 kgf/cv, ou seja, para um trator de 200 cv, seu peso deve estar próximo de 12.000 kgf. Para serviços médios, como tratos culturais, ele explica que esse valor pode passar para 55 kgf/cv – 8.250 kgf em um trator de 150 cv – e 50 kgf/cv para serviços leves como transbordo em áreas com pouca declividade.

Como hoje em dia o trator com tração dianteira é o usual, a distribuição do peso do trator na dianteira e na traseira ficam estipulados em 35% e 65%, respectivamente. Lanças conta que para conseguir, com o mesmo trator ou tratores semelhantes, os pesos e a sua distribuição, que irão fornecer maior desempenho do trator com menor consumo energético, torna-se necessário a adequação dos lastros, que normalmente devem ser colocados ou retirados para cada condição de uso do trator.

“Na verdade, peso, tanto líquido quanto sólido, reflete da mesma maneira na reação dos rodados no solo. O que há de diferente, na verdade, é a posição do lastro em relação ao solo, que pode modificar o CG (Centro de Gravidade do trator – mais para baixo ou mais para cima), alterando a estabilidade do trator. Também o preço do lastro (a água é considerada de graça) pode influir”, detalha Lanças.

PECANDO PELO EXCESSO

Especialistas pontuam que os principais erros são colocar lastro líquido ou sólido em quantidade excessiva, não dividir corretamente o lastro entre os eixos dianteiro e traseiro do trator, padronizar a lastragem para diferentes operações e lastrear tratores com potências ou estruturas diferentes da mesma maneira. Para o especialista de Marketing Tático Case IH, um dos principais erros é mudar um equipamento de operação sem a devida alteração em seu lastro de trabalho. “Precisamos ter muita sinergia neste processo. Se isso não acontecer, certamente teremos prejuízos a curto e longo prazo tanto em performance quanto em custo.”

Edmilson Gomes Leal, responsável pelo departamento de Manutenção Automotiva da Usina Ferrari, relata que culturalmente se tem uma impressão que, quanto mais peso tem o trator, melhor será sua tração ou “pegada” no solo. No entanto, essa falta de conhecimento acaba gerando desgastes mais acelerados. “A maior dificuldade em usinas e grandes frotas agrícolas é a constante mudança de operações dos tratores, já que cada tipo de operação e implemento requerem um lastro específico e normalmente as empresas não conseguem viabilizar estas configurações dos tratores na mesma velocidade com que mudam de operações no campo.”

MENOS DIESEL, MAIS EFICIÊNCIA

Para se chegar numa combinação ideal, que una economia de combustível e maior eficiência, Tonette pontua que é preciso determinar a relação peso-potência a ser usada para aquela determinada operação, considerando o implemento a ser tracionado ou montado e as condições do solo. Na sequência, define-se, de acordo com a operação realizada e recomendação técnica, a distribuição de pesos teórica entre os eixos dianteiros e traseiros do trator.

Com o auxílio de uma balança é feita a pesagem dos eixos dianteiros e traseiros e, assim, é possível definir a real necessidade de incremento ou retirada de pesos, sejam eles sólidos ou líquidos, para alcançar a distribuição de pesos desejada.  “Após a lastragem correta, o operador deve conferir o avanço do trator, que precisa estar entre 1% e 5% de medição da patinagem. Em alguns modelos de tratores este valor já é apresentado em equipamentos eletrônicos dentro da cabine.”

Tolleto chama a atenção para a importância do índice de patinagem. “Para usar corretamente o lastro do trator e consequentemente aumentar a produção, diminuindo a quantidade de diesel, deve-se usar da informação do índice de patinagem para sua operação respeitando o limite máximo de 55kg/cv. Se a máquina indicar baixo índice de patinagem, o indicador serve para baixar o lastro da máquina.”

Renato Moreira de Andrade, gerente de Manutenção Agrícola da Clealco, revela que a usina trabalha hoje com uma tabela determinada para cada tipo de operação, mantendo-as fixadas na porta dos tratores. “Assim, o operador aciona o motorista borracheiro e os mecânicos para adequar o lastro ideal de acordo com a operação específica”, explica.

PREOCUPAÇÃO COM O TEMA

O setor sucroenergético vem se preocupando mais com o assunto porque percebeu que a lastragem correta gera significativa economia no consumo de combustível, pneus e, consequentemente, diminui os custos operacionais, acarretando maior lucro para a empresa. “Além disso, a lastragem correta reduz quebras e paradas para manutenção do equipamento, aumentando a disponibilidade do trator”, adiciona Tonette.

Lanças concorda que o setor tem se preocupado mais com o assunto, no entanto, diz que a mudança é bem recente, pois há bem pouco tempo quase ninguém fazia a adequação do conjunto motomecanizado para uma determinada operação agrícola, que envolve:

 • Tamanho adequado do trator para a operação selecionada e equipamento correspondente;

• Lastragem correta do conjunto;

• Seleção correta do pneu e da sua pressão para o peso que incide nele e a velocidade de deslocamento;

• Ajuste do avanço do trator (1% a 5%): relação entre a rotação das rodas dianteiras e traseiras;

• Ajuste final no campo com patinagem entre 8 e 12% e mesma patinagem nos pneus dianteiros e traseiros.

“Hoje cada vez mais as usinas têm buscado ganhos de performance, o que contribui diretamente para a redução de custos. Desta maneira, vejo esse assunto sendo de grande importância, uma vez que impacta em dois dos maiores custos agrícolas, que são diesel e peças”, afirma o gerente de Manutenção Agrícola da Clealco.

Para Leal, apesar das empresas se preocuparem, nem todas trabalham esta variável e acabam configurando os tratores para condições extremas, mesmo que estes veículos estejam operando situações mais leves. Para ele, isso pode estar acontecendo por falta de informação, conhecimento ou devido ao fato da constante mudança de operação, implemento e tipo de solo. “Atualmente as velocidades entre mudança de área ou operação é muito maior do que a capacidade da área de manutenção adequar os tratores, o que pode acarretar em uma sobrecarga da equipe. Mas é importante entender que o lastro correto reflete diretamente na redução dos custos das operações e também da manutenção da frota de tratores e por isso deve ser visto com mais atenção”, conclui.

“O principal indicador de lastro correto é o índice de patinagem. Sabendo que o lastro máximo é 55kg/cv e a patinagem máxima é 18% fica fácil adequar a máquina para manter a menor relação de peso e patinagem”, explica Alberto Toledo, coordenador de Marketing de produto tratores da Valtra.

INSTRUÇÕES PARA  USO DA ÁGUA NO LASTRO  ENCHIMENTO

1) Levantar a roda do veículo e girá-la até que a válvula tenha alcançado a posição vertical mais elevada;

2) Desparafusar o núcleo da válvula. Introduzir água no pneu com um tubo de borracha aplicado sobre o corpo da válvula utilizando uma torneira comum ou reservatório situado num ponto mais elevado;

3) Destacar, de tempos em tempos, o tubo da válvula para permitir que o ar contido no pneu saia livremente;

4) Suspender o enchimento quando a água começar a sair pela válvula. Nesse ponto, o enchimento corresponderá a aproximadamente 75% do volume interno do pneu;

5) Para diminuir este valor, mover o pneu até outra posição, de modo que a válvula regule a quantidade de água introduzida;

6) Parafusar novamente o núcleo sobre o corpo da válvula e efetuar o enchimento com ar, até atingir a pressão recomendada.

ESVAZIAMENTO

1) Levantar a roda do veículo, fazendo-a girar até a válvula atingir a posição vertical mais baixa. Desparafusar o núcleo da válvula deixando sair a água;

2) Aplicar um tubinho de borracha de comprimento conveniente (pescador) no suporte do núcleo, introduzindo-o na câmara de ar e, em seguida, após parafusar o núcleo no corpo da válvula, encher de ar o pneu;

3) Remover a armação interna do núcleo, deixando sair a água residual;

4) Retirar o tubinho de borracha e parafusar o núcleo da válvula;

5) Encher o pneu com ar na pressão recomendada.