Moagem deve alcançar 610 milhões de toneladas na safra 2025/26, com recuperação esperada para o próximo ciclo; cenário de preços pressiona açúcar e favorece mix mais alcooleiro
O setor sucroenergético do Centro-Sul deve encerrar a safra 2025/26 com moagem próxima de 610 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, consolidando o ciclo como a quarta maior safra da história, mesmo diante de uma retração de 2,2% no processamento até a segunda quinzena de janeiro. Ao mesmo tempo, o mercado de etanol perdeu sustentação em fevereiro, pressionado pela perda de competitividade frente à gasolina, enquanto o cenário externo, marcado pela alta do petróleo, pode alterar essa dinâmica nos próximos meses. As informações constam no Boletim de Commodities de março, elaborado pela FG/A.
Ao longo da safra, a produtividade agrícola apresentou recuo, refletido na queda do ATR médio, que passou de 141,45 kg/t para 138,34 kg/t (-2,5%), enquanto o ATR total registrou retração de 4,4%, segundo dados compilados pela consultoria. Apesar disso, a produção de açúcar manteve leve crescimento, atingindo 40,24 milhões de toneladas (+0,9%), em um contexto de maior direcionamento do mix para o adoçante.
As condições climáticas, por outro lado, já indicam uma possível inflexão para o próximo ciclo. De acordo com o relatório, o volume de chuvas acumulado até fevereiro ficou 7,9% acima da média histórica, o que tende a favorecer a recuperação da produtividade agrícola na safra 2026/27. Nesse cenário, a expectativa é de aumento do processamento de cana entre 10 milhões e 30 milhões de toneladas.
No mercado de açúcar, embora os contratos em reais tenham registrado valorização mensal de 1,0%, o pano de fundo segue pressionado pela expectativa de oferta global elevada. A FG/A destaca que a Índia deve liderar o crescimento da produção mundial em 2025/26, ainda que revisões recentes tenham reduzido parcialmente as estimativas para o país.
Além disso, a consultoria chama atenção para o posicionamento dos fundos especulativos, que mantiveram, em fevereiro, o maior volume líquido de posições vendidas dos últimos 20 anos, equivalente a cerca de 13,5 milhões de toneladas de açúcar, fator que contribui para a manutenção das cotações em níveis mais baixos.
Diante desse cenário, o prêmio negativo do açúcar tem levado à expectativa de um mix inicial mais alcooleiro na safra 2026/27. A avaliação é de que, à medida que os números oficiais da nova safra forem divulgados pela UNICA, os preços tendem a buscar níveis mais equilibrados.
Etanol perde sustentação com paridade elevada
No mercado doméstico, o etanol hidratado apresentou perda de sustentação ao longo de fevereiro. Segundo o indicador do CEPEA para o posto de Paulínia (SP), o biocombustível encerrou o mês cotado a R$ 3,05/litro, queda de 3,0% no período.
O movimento foi consequência direta da perda de competitividade frente à gasolina. Após a valorização registrada no início do ano, a paridade atingiu 72% nos postos de São Paulo, reduzindo a atratividade do etanol para o consumidor final.
Dados da UNICA reforçam esse cenário, indicando que as vendas de etanol hidratado recuaram 15,3% em janeiro na comparação com o mesmo período da safra anterior, evidenciando um ajuste imediato da demanda diante da quebra da vantagem econômica na bomba.
No Brasil como um todo, a paridade também se mantém elevada, em 77,8%, enquanto os preços médios ao consumidor atingiram R$ 5,01/litro para o etanol e R$ 6,44/litro para a gasolina, reforçando o cenário de menor competitividade do biocombustível.
Petróleo elevado pode mudar o cenário
Apesar da fraqueza observada no curto prazo, o cenário externo pode alterar a trajetória do etanol nos próximos meses. O relatório destaca que a intensificação do conflito no Oriente Médio impulsionou a maior alta mensal do petróleo desde 1990, com valorização de 27%.
No início de março, o barril chegou a atingir US$ 119,50, encerrando o período próximo de US$ 98,96. Como reflexo, o preço da paridade de importação da gasolina (PPI) alcançou R$ 3,38/litro, segundo a FG/A.
Na avaliação da consultoria, caso o patamar elevado do petróleo seja sustentado, a defasagem dos preços domésticos da gasolina em relação ao PPI pode abrir espaço para reajustes positivos, o que tenderia a recompor a competitividade do etanol e sustentar suas cotações.
Mesmo com a retração na produção de etanol de cana (-9,2%), o etanol de milho segue ampliando participação na matriz energética. A produção do biocombustível a partir do grão avançou 13,4% na safra 2025/26, com destaque para o crescimento de 29,5% no etanol anidro.
Com isso, o etanol de milho contribui para mitigar a queda na produção total, que recuou 4,6% no período, reforçando sua importância crescente dentro da oferta nacional de biocombustíveis.
Natália Cherubin para RPAnews

