Representantes da Fenasucro, CEISE Br e empresas fornecedoras apontam que avanço das usinas flex impulsiona integração de processos, matérias-primas e novas rotas de bioenergia
A expansão das usinas de etanol de milho e das operações flex está impulsionando mudanças que vão além do aumento da capacidade de produção de biocombustíveis no Brasil. Para representantes da Fenasucro & Agrocana, do CEISE Br e de empresas fornecedoras de tecnologia, o setor caminha para um modelo cada vez mais integrado, no qual diferentes matérias-primas, processos industriais e rotas de produção passam a coexistir dentro de uma mesma estrutura operacional.
Na avaliação dos entrevistados, a combinação entre cana e milho representa um dos principais exemplos dessa transformação, exigindo novas soluções de engenharia, automação, eficiência operacional e integração de processos.
Para Paulo Saraiva, diretor do CEISE Br e CEO da PS7 Consultoria, a expansão do etanol de milho traz impactos que vão além da construção de novas plantas.
“A expansão do mercado é apenas a face mais visível desse movimento. O etanol de milho traz novas demandas de engenharia, logística, automação, eficiência energética, gestão de coprodutos e integração de processos. Ao mesmo tempo, estimula ganhos de produtividade e inovação em toda a cadeia bioenergética, incluindo as usinas de cana-de-açúcar.”
Segundo ele, o setor caminha para modelos cada vez mais integrados, nos quais diferentes rotas de produção coexistem e se complementam.
A mesma avaliação é compartilhada por Daniela Ribeiro, diretora do CEISE Br e sócia da Tubesteel.
“Mais do que uma nova rota produtiva, o etanol de milho fortalece a matriz bioenergética brasileira, amplia a diversificação de matérias-primas e contribui para a expansão da bioeconomia nacional. Esse movimento cria novas oportunidades para a indústria de base, reduz a sazonalidade de parte da cadeia produtiva e estimula investimentos em tecnologia, equipamentos, engenharia, automação e serviços especializados.”
Para a executiva, o crescimento das novas plantas tem ampliado a participação da indústria nacional em projetos que envolvem desde sistemas industriais e automação até armazenagem, tratamento de água, geração de vapor e integração de processos.
Biorrefinarias flexíveis e híbridas avançam
Na visão de Paulo Montabone, diretor da Fenasucro & Agrocana, o setor caminha para uma nova etapa de desenvolvimento.
“Estamos num caminho sem volta para as biorrefinarias flexíveis e híbridas. As nossas indústrias já estão no mercado de etanol de cereais há bastante tempo, tropicalizando equipamentos, sistemas e processos. As biorrefinarias flexíveis serão a próxima tendência do mercado.”
Segundo ele, boa parte da indústria fornecedora já atua simultaneamente nos segmentos de cana e cereais. “Boa parte dos processos é semelhante e hoje temos vários expositores que são líderes tanto no segmento da cana quanto no de cereais.”
Para Montabone, o avanço dessas operações também contribui para mudanças na dinâmica operacional das usinas. “Hoje a eficiência e a otimização são a chave do negócio. Com a aproximação das usinas flex e híbridas, as paradas serão praticamente inexistentes. Um ciclo de 365 dias vem aí.”
Integração exige novas soluções industriais
A convivência entre diferentes matérias-primas dentro da mesma unidade industrial também vem exigindo adaptações tecnológicas.
Na avaliação de Ágata Turini, diretora comercial da Fertron, as operações flex demandam uma integração que vai além da simples adaptação de equipamentos. “A planta integrada exige diálogo entre dois mundos: o da moenda, da fermentação de caldo, das caldeiras de bagaço — e o da moagem seca, da liquefação enzimática, da secagem de DDGS.”
Segundo ela, o desafio passa pela integração de diferentes processos industriais dentro de uma mesma operação. “Quando a planta alterna entre cana e milho ao longo do ano, ela precisa de uma arquitetura de automação que reconfigure receitas, set-points e fluxos sem refazer engenharia toda vez. É uma nova forma de pensar a indústria.”
A executiva destaca ainda que a integração envolve não apenas a produção de etanol, mas também a gestão dos coprodutos gerados ao longo do processo. “Uma planta de milho gera múltiplos coprodutos — etanol, DDGS, óleo e CO₂ — e cada linha precisa conversar com as outras.”
Visão integrada ganha importância
Para Marco Zanato, gerente comercial da HPB, a evolução das plantas industriais exige uma visão cada vez mais abrangente dos processos.
“O crescimento da indústria de etanol de milho representa uma das transformações mais relevantes do setor sucroenergético brasileiro nas últimas décadas. As plantas possuem elevada exigência de disponibilidade operacional, operação praticamente contínua ao longo do ano e forte sensibilidade aos custos energéticos.”
Segundo ele, a integração entre diferentes etapas produtivas aumenta a importância da eficiência operacional.
“A geração de vapor deixou de ser vista apenas como uma utilidade industrial e passou a ocupar uma posição estratégica dentro da rentabilidade do empreendimento.”
Na avaliação do executivo, o setor demanda cada vez mais soluções capazes de integrar eficiência energética, disponibilidade operacional e competitividade industrial.
Bioenergia amplia possibilidades
Para Paulo Montabone, a integração observada atualmente entre diferentes matérias-primas representa apenas uma parte das transformações em curso no setor.
Segundo ele, temas como biogás, biometano, combustível sustentável de aviação (SAF), captura e utilização de carbono, hidrogênio verde e novas rotas da bioeconomia vêm ganhando espaço crescente nas discussões da indústria.
“Logo mais veremos ecossistemas produzindo proteínas, alimentos, biocombustíveis, produtos químicos e até plásticos de origem renovável dentro de uma mesma cadeia. Tudo aquilo que hoje conhecemos vindo do fóssil poderá ser produzido a partir da biodiversidade que temos.”
No CEISE Br, a visão é semelhante. Para Paulo Saraiva, a capacidade de integrar tecnologias será um dos fatores determinantes para a competitividade futura do setor.
“Mais do que uma tecnologia específica, o protagonismo estará na capacidade de integrar diferentes soluções para aumentar eficiência, competitividade e sustentabilidade. O futuro da bioenergia passa pela integração de tecnologias capazes de reduzir custos, aumentar produtividade e fortalecer o conceito de biorrefinaria.”
Natália Cherubin para RPAnews



