A diversificação de produtos é a chave para o fortalecimento do setor sucroenergético

Por: João Henrique de Lima Rissi

Ao longo dos últimos 10 anos, a evolução do prêmio do açúcar, ou seja, a diferença entre o preço deste e do etanol hidratado, mostrou como a década foi marcante para o setor sucroenergético. Após a crise de 2008, com toda a tensão gerada, o setor ganhou fôlego com um ciclo de alta nos preços do açúcar. No entanto, o ano precedeu outros três de grandes dificuldades:

As intervenções do governo federal na formação do preço da gasolina, base para formação dos preços de etanol, impediram que a Petrobras operasse de acordo com o mercado. Os preços do etanol então atingiram patamares artificialmente baixos no mercado doméstico, ao mesmo tempo que o açúcar remunerava mal, forçando o setor a operar em dois mercados deprimidos.

O resultado não podia ser diferente: vários grupos sucroenergéticos encerraram suas atividades nesse período. Já em 2016, a gasolina voltou a ter como referência os preços internacionais, assim como o mercado de açúcar voltava a um novo ciclo de alta.

Histórico do Prêmio do Açúcar – Mercado à Vista

Histórico do Prêmio do Açúcar – Mercado à Vista. (Elaboração FG/A).

Desde então, o setor vem conseguindo alcançar bons resultados, ora maximizando sua produção de etanol no ciclo de alta do petróleo, ora a produção de açúcar no terceiro ciclo de alta da década. Essa breve retrospectiva demonstra como o setor precisou se adaptar para diminuir as incertezas e aumentar seus resultados.

Além do ótimo desempenho operacional, as companhias que conseguiram crescer com saúde financeira são aquelas que tiveram disciplina para execução de seu hedge, ou seja, proteção para garantir preços remuneradores, assim como, aquelas que também souberam realizar investimentos chave a partir da diversificação das fontes de receita e, consequentemente, dos riscos.

Uma das formas de reduzir as incertezas e aumentar os retornos esperados para o setor sucroenergético está na possibilidade da mudança do mix de produção. A flexibilidade permite a escolha entre a produção de açúcar e etanol, conforme as condições do mercado. Com a exceção dos anos em que houve intervenção na gasolina, a flexibilidade permitiu que as companhias sucroenergéticas maximizassem seus resultados.

Contudo, de acordo com a UNICA, na safra 2019/20, 19,2% da moagem do Centro-Sul foi realizada por unidades autônomas, ou seja, plantas que produzem apenas etanol anidro e hidratado como produtos principais.

Outra parcela relevante do setor possui margem limitada para alterar seu mix de produção devido à proximidade com a capacidade plena de moagem ou por particularidades de suas indústrias. Cada unidade possui realidades operacionais e regionais distintas que podem garantir bons resultados mesmo com uma menor variedade de produtos.

É inegável, no entanto, que se um grupo conseguiu alcançar bons resultados no ano de 2020 apenas a partir da produção de etanol ou com um mix para açúcar intermediário, poderia ter conquistado ainda mais com uma capacidade de produção de açúcar superior.

Uma outra alternativa para as unidades sucroenergéticas alcançarem maior rentabilidade é a exportação do seu excedente da energia, utilizando o bagaço da matéria-prima, a cana-de-açúcar, como combustível.

A cogeração de energia se difundiu amplamente no setor nos últimos dez anos, fruto do avanço do entendimento de que a venda de energia gera valor. Através de contratos de longo prazo, com preço acordado esse valor é gerado tanto por conta do incremento nos retornos como pela redução de risco do negócio como um todo. Independentemente da escala, os grupos sucroenergéticos podem ganhar vantagens competitivas com esse investimento.

O indicador de geração média do setor no Brasil foi de 16,2 kWh por tonelada de cana moída em 2010 para 35,0 kWh por tonelada em 2019. Porém, um dos grupos referências em cogeração, a CerradinhoBio, exportou 87,9 kWh por tonelada na safra 2019/20, 150% acima da média setorial brasileira, demonstrando que ainda há muito espaço para que o setor aumente sua participação na matriz energética.

A expansão da cogeração pode ocorrer pelo incremento de usinas conectadas ao Sistema Integrado Nacional (SIN), assim como pela renovação dos equipamentos existentes, dado que com o progresso tecnológico as turbinas vêm aumentando sua eficiência em converter o vapor em energia elétrica.

Novos caminhos vêm sendo trilhados por alguns players. Com avanços tecnológicos e consequente redução de custos para implantação, sua difusão deve aumentar a cada dia.

São exemplos dessa linha de investimentos o etanol de segunda geração, fabricado principalmente a partir da palha e do bagaço da cana-de-açúcar, e o biogás, produzido a partir da vinhaça e da torta de filtro e utilizado para a geração de energia elétrica e para a produção de biometano, um combustível que pode substituir o diesel na frota agrícola mediante adaptações.

Neste bom momento do mercado para o etanol e principalmente para o açúcar, as companhias têm a oportunidade de avaliar investimentos em áreas que podem evoluir e se fortalecer. Iniciativas nesse sentido garantem menor risco para o negócio e maior sustentação do fluxo de caixa a médio e longo prazo.

Além da escolha do melhor projeto para cada caso, a escolha de fontes de capital com prazo e custos adequados são determinantes para que o investimento gere bons frutos e fortaleça a companhia.

Por:  João Henrique de Lima Rissi, analista da FG/A