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Consultor faz análise sobre as oportunidades que podem surgir a partir da incorporação da Biosev pela Raízen

*Por Ricardo Pinto

Ontem, dia 08 de fevereiro, foi anunciada a fusão da Biosev e suas 9 usinas com a Raízen, com 26 usinas. A nova Raízen agora passa de 73 para 105 milhões de toneladas de cana de capacidade de processamento anual.

Minha intenção aqui é de fazer uma breve análise da situação das duas empresas antes da fusão, ou seja, da safra 2019/2020, e que oportunidades podem surgir para a nova Raízen. Aliás, esta análise certamente foi realizada pela administração da Raízen antes da decisão da fusão.

Considerando que a Raízen processou 59,6 milhões de toneladas de cana, ela estava com uma capacidade ociosa de 18,4%. No caso da Biosev, que processou 27 milhões de toneladas, a capacidade ociosa foi de 15,6%. Portanto, a ociosidade combinada da nova Raízen seria de 17,5%, um indicador a ser rapidamente reduzido.

Das 26 usinas da Raízen, há casos de possível sobreposição de canaviais, o que oportuniza o desligamento de usina sem afetar significativamente a moagem total da nova Raízen para reduzir a ociosidade geral. Assim, podemos supor que:

  • A Junqueira, usina da Raízen fundada em 1910, com 56% da capacidade da Vale do Rosário, da Biosev, e que está a 87 quilômetros de distância por estrada da Vale do Rosário, poderia ser uma candidata a desligamento em prol de encher mais de cana a Vale do Rosário,
  • A Cresciumal, da Biosev, com 2,1 milhões de toneladas de cana de capacidade, poderia ser “absorvida” pela Costa Pinto (4,6 milhões de capacidade, da Raízen), que está a 101 km por estrada,
  • No Sudoeste do Mato Grosso do Sul, onde a Biosev possui 3 unidades (Passatempo, Rio Brilhante e Maracaju, esta última desligada), a usina Caarapó, da Raízen, com 2,2 milhões de toneladas de cana de capacidade, poderia ser desligada em prol da Rio Brilhante, com 4,2 milhões de toneladas de cana de capacidade.

Além disso, existe a situação de duas usinas grandes e modernas próximas uma da outra: 87 km por estrada. Trata-se da Bonfim – da Raízen, com 5,2 milhões de toneladas de cana de capacidade – e da Santa Elisa – da Biosev, com 5,4 milhões de capacidade. Canaviais poderiam ser trocados entre ambas as usinas para redução de custo com transporte de cana.

A usina Lagoa da Prata, da Biosev, fundada em 1948 e isolada na região Central de Minas Gerais, com 2,6 milhões de toneladas de cana de capacidade de moagem anual, poderia ser a base para o crescimento de um novo polo produtivo da Raízen ou, dada a falta de sinergia com demais usinas e sua idade, poderia ser candidata ao desligamento.

  Sem dúvida, há muitas oportunidades, como, é claro, importantes desafios numa fusão desta magnitude.

Mais um ponto importante é a forte concentração de usinas que a nova Raízen passa a ter na região de Ribeirão Preto, também chamada de “Faixa de Gaza” pela grande disputa por cana spot, fornecedores de cana e terras.

Com 5 usinas e uma capacidade de processamento anual de praticamente 22 milhões de toneladas de cana, esta região ultrapassa em 10 milhões de toneladas o polo de Piracicaba, onde a Raízen praticamente encerrou tais disputas, inclusive chegando a mudar a metodologia de pagamento de arrendamentos e parcerias agrícolas com o critério de 118,58 ao invés de 121,97 kg de ATR para precificação da tonelada de cana.

Sem dúvida, há muitas oportunidades, como, é claro, importantes desafios numa fusão desta magnitude. Num passado recente, a fusão das usinas Santa Elisa e Vale do Rosário em 2007, gerando a Santelisa Vale, não foi bem sucedido. Há quem diga que o fator principal para o insucesso tenha sido a demora em se criar uma nova (e única) cultura corporativa. Ao contrário, mantiveram-se as duas culturas das empresas anteriores que constantemente se chocavam.

Este problema parece não existir na Raízen, que costuma ser rápida na mudança organizacional e cultural, qualidade que já existia na Cosan antes da fusão com a Shell. A torcida de todos é pelo sucesso da nova Raízen, que, sozinha, na safra 2019/2020 teria processado 15,6% mais cana do que o segundo maior país exportador de açúcar do mundo, a Tailândia.

 

*Ricardo Pinto é consultor especializado no segmento canavieiro e sócio-diretor da RPA Consultoria e RPAnews

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