O mercado internacional de petróleo reagiu inicialmente com alta aos ataques militares dos Estados Unidos na Venezuela e à captura do presidente Nicolás Maduro, mas os preços logo perderam força e voltaram à estabilidade. De acordo com Gustavo Vasquez, gerente de petróleo e GLP da Argus, a alta ocorreu no momento de maior tensão geopolítica. Depois disso, o mercado absorveu o evento diante da ampla oferta global. “O impacto imediato foi um fortalecimento dos preços com o aumento das tensões, seguido por queda ou estabilização após o ataque de fato.”
Segundo o analista, o episódio trouxe incerteza relevante para as exportações e a produção venezuelana, ainda que mudanças efetivas não tenham se concretizado até agora. A percepção de risco já vinha crescendo nas últimas semanas, com apreensão de navios e maior cautela por parte de compradores. Vasquez lembra que fornecedores já estavam relutantes em oferecer petróleo venezuelano antes mesmo do ataque norte-americano. “A perspectiva imediata para as exportações da Venezuela é incerta.”
Em dezembro, a apreensão de dois navios pelos EUA levou vendedores a reterem ofertas de petróleo do tipo Merey para entregas no fim de janeiro, antecipando possível interrupção de fornecimento a partir do final do primeiro trimestre de 2026. Caso a restrição persista, o impacto tende a se concentrar no mercado de petróleo pesado e com alto teor de enxofre, no qual a Venezuela tem participação relevante.
A Argus destaca que o país não está totalmente integrado aos mercados globais por causa das sanções americanas. Grande parte do petróleo venezuelano é direcionada a refinarias independentes na China, que importaram cerca de 430 mil barris por dia em 2025, volume inferior a 20% do total processado por essas plantas. As estatais chinesas não compram petróleo do país, apesar do desconto de US$ 11 a US$ 12 por barril abaixo do Ice Brent em janeiro. Já os Estados Unidos aparecem como segundo principal destino, com cerca de 120 mil barris por dia em dezembro, movimentados pela Chevron, que continua operando na Venezuela.
Vasquez afirma que não há perspectiva realista de aumento imediato da produção venezuelana, que foi de 934 mil barris por dia em novembro, segundo fontes secundárias da Opep que incluem a Argus. A retomada a níveis anteriores às sanções, como os 1,2 milhão de barris por dia registrados em 2018, dependeria de investimentos internacionais robustos e do fim das restrições. Isso exigiria também mudanças profundas no ambiente legal e de negócios do país. “Trata-se de uma perspectiva duvidosa diante da provável instabilidade após a deposição de Maduro.”
A análise aponta ainda que reconstruir a infraestrutura petrolífera venezuelana demandaria anos e possivelmente centenas de bilhões de dólares. Refinarias continuam enfrentando apagões frequentes, trechos de gasodutos foram roubados e muitos equipamentos essenciais foram retirados de operação. Além disso, a indústria vem sofrendo com a perda de profissionais desde a década de 1990, quando trabalhadores da estatal PDV foram afastados por razões políticas ou deixaram o país.
No mercado de fretes, o impacto também segue concentrado na Venezuela. As exportações do país são realizadas principalmente por uma chamada “frota sombra”, fora do circuito convencional de petroleiros. Excluindo a Venezuela, Vasquez afirma que o afretamento na América Latina permaneceu estável após o ataque, com um trader reservando um VLCC no Brasil para embarque no próximo mês. A taxa na rota Brasil–China está no menor patamar em cinco meses, por volta de US$ 2,90 por barril, sem sinais de mudança no dia 5 de janeiro. Já a taxa para transporte de nafta do Báltico russo ao Caribe está em US$ 69,17 por tonelada, o maior nível em 20 meses.
Na China, o governo reagiu com forte indignação à prisão de Maduro, em parte por causa de investimentos no upstream venezuelano e também devido ao passivo estimado em US$ 12 bilhões vinculado a esquemas de empréstimo atrelado a petróleo. Vasquez avalia que não há risco imediato de escassez global de petróleo. O impacto maior ocorre no petróleo pesado venezuelano Merey-16, usado na produção de betume destinado principalmente à província de Shandong, onde refinarias independentes respondem por cerca de 40% da produção chinesa.
Shandong recebe hoje cerca de 430 mil barris por dia de petróleo venezuelano e 130 mil barris por dia de petróleo pesado iraniano. Caso as importações de Merey sejam interrompidas, a tendência mais provável é de redução na produção de betume a partir de março, período em que chegam as cargas atualmente negociadas no mercado spot. Outra possibilidade seria a compra de petróleo mais caro — cenário visto como menos provável.
Natália Cherubin para RPAnews