Plantas de produção de etanol conectadas ao Sistema Interligado Nacional (SIN) estão submetidas a requisitos relacionados à operação e segurança do sistema elétrico
A expansão do setor de biocombustíveis no Brasil está transformando o perfil da indústria sucroenergética e trazendo para o centro do debate um tema que, até pouco tempo atrás, parecia distante do campo: a segurança cibernética. O crescimento do etanol de milho, a modernização das usinas e a integração entre processos industriais, sistemas digitais e infraestrutura elétrica fazem com que a proteção cibernética deixe de ser apenas uma preocupação da área de tecnologia e passe a ser estratégica para a continuidade operacional.
Para os hackers, o setor sucroenergético apresenta uma vantagem especialmente relevante: a capacidade de transformar uma invasão digital em prejuízo operacional imediato e de grande proporção. Uma usina paralisada deixa de produzir etanol, açúcar e, em alguns casos, energia elétrica, enquanto cana e milho continuam chegando e precisam ser processados dentro de determinadas janelas. Essa combinação cria forte pressão sobre as empresas para restabelecer rapidamente as operações, o que pode aumentar o poder de barganha de grupos de ransomware em uma eventual extorsão. Quanto maior a dependência da operação de sistemas digitais e maior o custo de uma parada, maior tende a ser o interesse criminoso por aquele alvo. Têm-se, ainda, ataques cuja intenção é somente sabotar uma planta, sem um motivo financeiro por trás.
Leonardo Cardoso, Diretor de Relações Institucionais da TI Safe, empresa pioneira em cibersegurança de infraestruturas críticas, explica que é justamente na intersecção entre produção de combustível, geração de energia e digitalização que surgem os riscos. Segundo ele, o ambiente regulatório brasileiro tem contribuído para mitigá-los. “As plantas conectadas ao Sistema Interligado Nacional (SIN) – gigantesca rede térmica e elétrica que coordena e conecta a produção e o transporte de energia elétrica no Brasil -, estão submetidas a requisitos relacionados à operação do sistema elétrico e à segurança cibernética. A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) estabelece diretrizes para que os agentes adotem boas práticas, identifiquem e tratem riscos e tenham capacidade de prevenir, detectar, responder e recuperar-se de incidentes. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) também mantém controles mínimos de segurança cibernética aplicáveis ao ambiente regulado”, explica o especialista.
Nível de proteção precisa acompanhar o aumento da produção
De acordo com a União Nacional do Etanol de Milho (UNEM), a moagem do grão para a produção de etanol no Brasil apresenta uma expansão acelerada e uma gradual descentralização regional. Mato Grosso lidera o setor desde o início da série histórica, saltando de discretas 0,23 milhão de toneladas na safra 2014/15 para uma estimativa de 13,52 milhões de toneladas em 2025/26. Paralelamente, novos polos ganharam forte tração a partir de 2018/19, com destaque para Mato Grosso do Sul, que se consolidou como a segunda força ao projetar 4,75 milhões de toneladas, e Goiás, com estimativa de 2,11 milhões de toneladas para o ciclo atual.
Na prática, acrescenta Cardoso, a expansão da geração de energia a partir de biomassa e a maior automação das plantas precisam caminhar lado a lado com investimentos em proteção digital. “Uma usina moderna reúne sistemas de supervisão, controle, automação, telecomunicações, sensores, redes corporativas e equipamentos responsáveis por processos físicos críticos. O risco ganha dimensão ainda maior com a convergência entre Tecnologia da Informação (TI) e Tecnologia Operacional (TO). Uma invasão iniciada no ambiente corporativo pode, dependendo da arquitetura e das proteções existentes, representar uma porta de entrada para ambientes operacionais”, diz.
Caso recente corrobora a importância de plantas mais resilientes
Um episódio ocorrido na Austrália em junho deste ano mostrou concretamente esse risco. A Mackay Sugar, segunda maior produtora de açúcar bruto do país, sofreu um incidente cibernético que interrompeu as operações das usinas de Farleigh e Racecourse. O ataque afetou o processamento, a colheita e o transporte de cana, levando produtores da região a suspender temporariamente as atividades. Cerca de 1.300 propriedades fornecem cana para a empresa. Posteriormente, o grupo de ransomware The Gentlemen reivindicou a autoria, embora a Mackay Sugar tenha informado que ainda investigava a natureza e a extensão do incidente.
O caso australiano funciona como alerta para o Brasil. À medida que as usinas se tornam mais automatizadas, conectadas e relevantes para a produção de energia e combustíveis, cresce também o impacto potencial de uma interrupção cibernética. “A ameaça pode vir ainda de fornecedores de tecnologia, empresas de logística e outros integrantes da cadeia de suprimentos, que podem representar pontos de entrada ou propagação de incidentes”, afirma o Diretor da TI Safe.
Leonardo reforça que o desafio é garantir que a modernização das usinas produza não apenas mais eficiência, produtividade e conectividade, mas também maior resiliência. “Em um setor responsável por produzir combustível, energia e movimentar uma extensa cadeia agrícola e industrial, estar conectado ao mundo digital significa também estar preparado para se defender dele”, diz.




