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Por Zilmar José de Souza

A geração de bioeletricidade a partir da cana-de-açúcar para a rede deve chegar a aproximadamente 23 mil GWh em 2020, apresentando um crescimento em torno de 1% em relação a 2019. Foi um ano desafiador para a bioeletricidade e o setor elétrico brasileiro por conta pandemia de Covid-19.

Antes do início da pandemia de Covid-19, a previsão de crescimento da carga de energia elétrica era de 4,4% em relação a 2019. Porém, logo em abril de 2020, o consumo de energia elétrica no Brasil teve redução de 6,6% em relação a abril de 2019. Em maio de 2020, a redução do consumo chegou a 11% em relação a maio de 2019, com redução de 14% na indústria e 25% no comércio.

Com o relaxamento das restrições de convívio social, acabou ocorrendo a retomada do consumo de energia elétrica no país, fazendo com que agosto de 2020 fosse o primeiro mês em que o consumo apresentou crescimento positivo (1,4% em relação ao mesmo mês de 2019). Ainda assim, a expectativa é que a carga retraia em 1,5% em 2020.

Embora permaneça com taxas de crescimento bem abaixo de seu potencial, a bioeletricidade sucroenergética tem se mostrado estratégica cada vez mais para o setor elétrico brasileiro.

Os quase 23 mil GWh ofertados de geração excedente à rede pela bioeletricidade sucroenergética representaram uma produção equivalente a:

  • 5% do consumo anual de energia elétrica ou a atender 12 milhões de residências, mas que em meses como junho e julho, estimulada pela safra da cana-de-açúcar, a geração mensal costuma atingir seu ápice, chegando a representar 8% do consumo brasileiro.
  • Reduzir as emissões de CO2 em 7 milhões toneladas, equivalente a 67% da emissão de gases de efeito estufa pela frota circulante de automóveis no Estado de São Paulo, em 2019. Essa redução de emissões também representa uma marca que somente seria atingida com o cultivo de 49 milhões de árvores nativas ao longo de 20 anos.
  • Ter poupado 15 pp da energia armazenada nos reservatórios das hidrelétricas no submercado Sudeste/Centro-Oeste, por conta da maior previsibilidade e disponibilidade da bioeletricidade justamente no período seco e crítico para o setor elétrico (91% da geração da bioeletricidade sucroenergética ocorreram entre abril e novembro em 2020). Lembrando que chegamos no fim de dezembro de 2020 com menos de 17% de energia armazenada no submercado Sudeste/Centro-Oeste.
  • Quase 30% da geração de energia elétrica pela Usina Itaipu em 2019 ou 56% da geração pela Usina Belo Monte em plena operação.

Ao longo de 2020, tivemos os seguintes destaques do lado do mercado:

A comercialização no mercado livre tem crescido conforme avança a abertura de mercado e a migração de consumidores cativos para aquele mercado.

Devido pandemia de Covid-19, todos os leilões de energia nova de 2020, que contratariam energia de novos projetos de geração no mercado regulado, foram suspensos e oficialmente cancelados em dezembro.

O último Leilão de Energia Nova (LEN) em que a biomassa da cana participou foi o Leilão A-6, realizado em outubro de 2019, juntamente com empreendimentos hidrelétricos, eólicos, fotovoltaicos e termelétricas a gás natural e biomassa em geral. Na oportunidade, o gás natural foi a fonte que mais comercializou energia no LEN A-6, de 2019, levando sozinho 40% da demanda total com três projetos. Os projetos de bioeletricidade da cana representaram apenas 4% da demanda contratada, com seis projetos.

Primeiro semestre: apesar da queda abrupta no consumo de energia elétrico, não ocorreu inadimplência sistêmica nos mercados regulado e livre de energia.

Setembro: a Lei 14.052 foi aprovada com o objetivo de resolver a judicialização do risco hidrológico nas liquidações financeiras mensais no Mercado de Curto Prazo, que se arrasta desde 2015 e afeta bastante a bioeletricidade. Dívida judicializada atual é de R$ 10,3 bilhões. Estima-se que setor sucroenergético tenha a receber em torno de R$ 500 milhões desta dívida.

Dezembro: divulgado o cronograma estimado para os leilões de energia nova e existente no mercado regulado para 2021 a 2023:

2021: previstos Leilões de Energia Nova A-3 e A-4, a serem realizados em junho, e dos Leilões de Energia Nova A-5 e A-6, a serem realizados em setembro.

2022 e 2023: previstos LENs A-4 e A-6, em abril e setembro de cada ano.

Bioeletricidade em 2021

E 2021? Dentro de uma agenda mínima setorial, vale mencionar os seguintes pontos importantes para a bioeletricidade:

  • Avanço do projeto de modernização do Setor Elétrico no Congresso: esperadas importantes alterações no ambiente de comercialização.
  • Acordo da dívida sobre risco hidrológico: destravamento do Mercado de Curto Prazo. Primeiros pagamentos da dívida de R$ 10,3 bilhões previstos para abril de 2021.
  • Expansão do mercado livre: consumidores livres passam a ser aqueles com demanda superior a 1.500 kW para fins de migração do mercado cativo para o livre (atualmente, exige-se 2.000 kW).
  • Esperada retomada do consumo de energia elétrica: crescimento médio anual da carga em 3,6% entre 2021 e 2025.
  • Projetos novos de bioeletricidade e de biogás: oportunidades para cadastro em quatro leilões de energia nova.

Esperamos que 2021 possa ser um ano para avançar com o aproveitamento do potencial da bioeletricidade sucroenergética e a fonte possa contribuir (ainda mais do que contribui) para a sustentabilidade e a segurança do suprimento na matriz energética brasileiro!

Zilmar José de Souza é gerente de bioeletricidade da UNICA (União da Indústria da Cana-de-Açúcar)

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