Editorial – Saiba brigar

Saiba brigar

Ricardo Pinto

Marido e mulher estavam fazendo compras no shopping center. Num determinado momento, o marido vislumbra uma vitrine que mostra um pacote de seis cervejas artesanais por R$ 30. Ao lado, numa outra loja, a mulher descobre um creme antirrugas também pelo preço de R$ 30.

Como o casal não queria gastar mais do que R$ 30 naquele passeio, surge a indefinição: qual dos dois produtos deveriam comprar.

O marido, buscando apresentar um argumento infalível para convencer sua mulher, diz:

– Amor, a cerveja vai te fazer parecer bem melhor à noite do que o creme antirrugas!

Foi assim que a briga começou…

Obviamente, estamos imaginando que a briga do casal durou pouco, tendo ficado só numa discussão. Aliás, qual é a diferença entre conversa, discussão e briga?

A resposta é: a temperatura. Quando falamos de assuntos de pouca importância, onde não há conflito de opiniões, podemos dizer que se trata de uma conversa. A partir do momento em que o assunto é mais relevante e passa a haver um confronto, torna-se uma discussão, que pode até ficar mais acalorada. Finalmente, se a temperatura subir muito, vira uma briga.

Vale lembrar que uma conversa já pode começar acalorada, independentemente do assunto, se um ou todos os participantes estiverem física ou psicologicamente comprometidos como quando estão cansados, com fome, embriagados, irritados ou mesmo frustrados.

Outro ponto importante que nos afeta, e muito, é que toda briga suga nossas energias, sejam as brigas grandes ou pequenas, curtas ou prolongadas. Por exemplo, você nunca terminou um dia extenuado, esgotado e achando não ter feito nada de concreto? Será que não foi um dia cheio de brigas?

Justamente por isso que há muitas pessoas que assumem a postura “sou da paz” e “estou sempre de boa”, ou seja, que evitam a todo custo entrar em discussões ou brigas. Infelizmente estas pessoas ou têm de “engolir muitos sapos” – convivendo com grande frustração e desconforto nos seus relacionamentos interpessoais – ou são impositores, que convivem somente com aqueles que lhe obedecem por medo, mas que não lhe respeitam e, em algum momento, certamente lhe frustrarão e, pior, lhe trairão.

Fugir das brigas é até possível em relação a pessoas com quem tenhamos pouca proximidade e vínculo. Porém, quando o assunto for importante, se ele o machuca ou o deixa indignado, fale sobre isso mesmo que eventualmente a conversa evolua para uma briga. É errado sempre se omitir ou se anular para evitar brigas.

Logo, em relação às brigas, sugerimos algumas pequenas regras para tornar sua vida e sua carreira profissional mais satisfatórias e prazerosas:

• mude sua programação mental e se convença de que, em determinados casos e com determinadas pessoas, não é errado discutir ou brigar;

• quando a temperatura da conversa sobe muito, não há mais diálogo. Aquele que está “cego de raiva” também fica surdo – às vezes, até mudo. Assim, aja com inteligência e bom senso para dominar as temperaturas, tanto da sua parte como da dos demais. O exercício contínuo de buscar dissipar sua irritação ou raiva em discussões e brigas te proporcionará atingir o resultado cada vez mais rápido;

• se o outro está se irritando e subindo a voz, você deve diminuir o volume da sua, falando mais lentamente. Deixe claro que você está adotando uma postura de apaziguar os ânimos, mas tenha cuidado com o tom para que não pareça uma provocação e tenha efeito contrário;

• busque controlar seu tom de voz e sua própria irritação para trazer de volta sua racionalidade. Ser capaz de continuar argumentando com lógica e coerência, mesmo quando se está irritado, é prioritário. Continue a ouvir e a levar em consideração o que o outro diz, mesmo que discorde dele;

• adote uma linguagem corporal amigável, inclinando-se ou aproximando-se do outro, olhando-o nos olhos e até colocando sua mão no ombro dele. Se possível, faça um elogio. Se for uma pessoa mais próxima, diga que gosta dela. Com isso, costuma-se mudar a sintonia da briga, de forma a não deixar a temperatura subir a ponto do outro se fechar e parar de racionalizar;

• há momentos em que não se deve brigar, como, por exemplo, quando as pessoas estão cansadas ou pilhadas com outros assuntos. Evite discutir com uma pessoa no momento em que ela esteja tão pilhada a ponto de só querer descontar as frustrações dela contigo;

• escolha suas brigas. Ninguém dispõe de tanta energia para brigar por qualquer coisa ou assunto que lhe incomode. Aqueles que têm o hábito de não levar desaforo para casa entram em brigas demais, brigas estas que lhes esgotam e consomem muito de seu tempo. A vida nos apresenta inúmeras brigas e é preciso saber escolher aquelas em que vale a pena entrar e quais devemos ignorar ou relevar. Aliás, o grande segredo a ser aprendido é o de escolher cada vez menos brigas, até o dia em que nenhuma será importante o suficiente a ponto de valer a nossa paz interior;

• no final, desculpar-se, se for o caso, e fazer as pazes é fácil e prazeroso. Brigas e discussões servem pra você se expressar. Depois delas, você e o outro se conhecem melhor, gostam-se mais ou, no mínimo, respeitam-se mais.