Há mais de cem anos, o Brasil iniciou uma trajetória única e pioneira na descarbonização dos transportes ao testar o uso do etanol em veículos. O que começou como experimento tecnológico, nos anos 1920, transformou-se em política de Estado em 1975, com o lançamento do Proálcool, criado em resposta à crise do petróleo e à necessidade de reduzir a dependência de combustíveis importados. À época, a motivação era essencialmente econômica, mas o programa
estabeleceu as bases industriais e logísticas de uma alternativa energética que atravessaria décadas.
Após a crise de abastecimento no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, o etanol perdeu espaço, mas voltou ao centro do debate com força em 2003, com o lançamento dos veículos flex. A tecnologia deu ao consumidor a liberdade de escolha entre gasolina e etanol e reposicionou o biocombustível como solução prática, escalável e de rápida adoção. Mais do que uma inovação automotiva, o flex tornou-se uma estratégia de transição energética capaz de reduzir emissões.
Desde então, o etanol deixou de ser apenas uma alternativa econômica e passou a integrar uma agenda ambiental mais ampla, impulsionada por grandes investimentos e pelo avanço regulatório. O aumento gradual da mistura na gasolina
(do E25 ao E27), chegando atualmente ao E30, com perspectiva de avanço para o E35, ampliou o uso do biocombustível de forma silenciosa, mas altamente eficiente, ao substituir combustível fóssil sem impactar o comportamento do
consumidor. Paralelamente, cresceu a produção e o uso do etanol hidratado (E100), especialmente em motores flex.
Quando o Brasil lançou, em 2003, o primeiro veículo 100% flex do país, talvez poucos imaginassem o alcance daquela decisão. Anos mais tarde, este modelo abriu caminho para uma nova relação entre o brasileiro, o carro e o etanol. Ao longo dos anos, enquanto o setor automotivo evoluía, o etanol mostrou sua capacidade de se reinventar e se adaptar a novos cenários. Hoje, essa mesma vocação ganha uma nova forma ao se encontrar com a eletrificação. Em 2019, a Toyota lançou no Brasil seu primeiro híbrido flex, sinalizando o início da convergência entre eletrificação e biocombustíveis no mercado nacional. Em 2024, a Stellantis deu mais um passo nessa trajetória ao lançar, em Minas Gerais, o primeiro veículo híbrido flex produzido no estado, unindo motor elétrico e etanol e contando com incentivos como a isenção de IPVA no primeiro ano, um sinal de que inovação, política industrial e descarbonização podem, sim, avançar juntas.
O diferencial dessa estratégia está na Análise de Ciclo de Vida (ACL). Estudos indicam que veículos fabricados no Brasil e abastecidos com etanol, sejam a combustão ou híbridos, apresentam alguns dos menores níveis de emissão de CO₂
do mundo, rivalizando com modelos 100% elétricos quando considerados os impactos totais de produção, uso e descarte. Este é o conceito que chamamos de berço ao túmulo. Avaliações como as conduzidas pela consultoria global de estratégia, Boston Consulting Group (BCG) mostram que a frota brasileira, baseada altamente competitivos em comparação a países com eletricidade intensiva em fonte fóssil.
Esse desempenho é reforçado por políticas públicas estruturantes, como o RenovaBio, o programa Mover e a Lei do Combustível do Futuro, que conectam certificação ambiental, estímulo à inovação e previsibilidade regulatória. Todo o
processo produtivo do etanol é certificado, transformando o atributo “renovável” em métrica verificável e comparável, e não apenas em discurso.
Nesse cenário, a expansão da oferta também se diversifica: o etanol de milho já representa cerca de 30% da produção total e segue e crescimento, ampliando a capacidade de atender à demanda ao longo do ano e reforçando a segurança de
abastecimento necessária para sustentar misturas mais altas e novos usos do biocombustível.
O futuro do etanol, porém, vai além do carro de passeio. Projeções baseadas em estudos da LCA Consultores indicam que, até 2040, cerca de 80% da frota brasileira poderá utilizar etanol puro ou em mistura. A frota deve ser composta
majoritariamente por veículos flex (62,4%), com crescimento relevante dos híbridos (20%). Ao mesmo tempo, a demanda por etanol será impulsionada por novos modais, como a aviação (SAF) e o transporte marítimo, além do ciclo Otto. Esse movimento pode mais que dobrar a produção nacional, dos atuais cerca de 33 bilhões para aproximadamente 74 bilhões de litros em 2040.
No transporte pesado, o biometano surge como complemento estratégico, especialmente para ônibus e caminhões, ampliando o papel dos biocombustíveis na redução de emissões. Nesse contexto, o etanol deixa de ser visto como solução isolada e passa a atuar como molécula central de uma transição energética integrada, conectando mobilidade leve, pesada, aviação e logística.
Ao longo de um século, o Brasil construiu uma rota própria de descarbonização, baseada em ativos nacionais, inovação e políticas públicas. O etanol, longe de ser uma tecnologia do passado, consolida-se como infraestrutura do futuro, não mais restrita ao automóvel, mas como peça-chave de uma estratégia energética pragmática, escalável e alinhada à urgência climática.
*Mário Campos é presidente SIAMIG Bioenergia e Bioenergia Brasil