Insumos Agrícolas: Preços de defensivos e fertilizantes não devem cair

Por Natália Cherubin

A Pandemia do novo Coronavírus (Covid-19) no Brasil e no mundo vem desestabilizando todos os segmentos econômicos, inclusive o de insumos agrícolas como fertilizantes e defensivos químicos. Apesar de ainda não haver escassez destes produtos, compras antecipadas podem fazer com que os preços destes insumos subam e até mesmo venham a faltar no mercado.

Hoje, o Brasil importa cerca de 80% de fertilizantes e defensivos, já que a oferta doméstica destes itens é incapaz de atender as necessidades do setor agrícola nacional. A China tem grande peso na produção mundial destes insumos e, mesmo que sua produção se destine, principalmente, a seu mercado interno, problemas de oferta, como os causados pela crise do Coronavírus, fazem com que haja busca no exterior, induzindo ao aumento de preços e prejudicando os produtores rurais brasileiros.

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Peterson Felipe Arias dos Santos, doutor em economia e analista de mercado do Pecege, explica que mesmo que parte da produção chinesa de insumos agrícolas, especialmente do potássio, tenha como destino basicamente o mercado interno, o maior impacto ocorreu com fosfatos e alguns defensivos como glifosato, cuja exportação é significativa e a produção se concentra fortemente na província de Hubei, epicentro original da pandemia.

“O preço internacional do MAP aumentou mais de 15% entre o final de dezembro e início de março, passando a cair um pouco desde então devido à retomada da atividade produtiva. Esse aumento de preços, porém, não aconteceu com o glifosato, por exemplo, porque as indústrias estavam com bons estoques devido à baixa procura durante todo o ano passado”, analisa Santos.

Desvalorização cambial gera aumento de preços

Mesmo com preços internacionais constantes, a desvalorização cambial é quem puxará os preços dos insumos. De acordo com Santos, os aumentos já estão acontecendo com os fertilizantes e é apenas questão de tempo para chegar mais amplamente aos defensivos conforme os estoques forem sendo renovados, ainda que provavelmente o repasse do dólar mais caro seja apenas parcial.

Apesar do real aumento de preços puxado pela desvalorização cambial, o pesquisador reforça que não há falta de insumos nem no Brasil, nem no mercado externo. Existem relatos de produtores agrícolas no Brasil, EUA e Europa antecipando compras com receio de ficarem sem insumos, da mesma maneira que muitas pessoas correram aos supermercados para adquirir produtos básicos no início das quarentenas.

“De fato, os produtores devem buscar realizar suas aquisições aproveitando-se de estoques de insumos antigos, formados sob uma situação cambial bem mais favorável, mas não existe falta de produtos e uma corrida às compras poderá acabar se convertendo em um aumento antecipado de preços e falta momentânea de produtos”, afirmou o analista à RPAnews.

Redução de compra insumos

Se por um lado alguns poderão antecipar suas compras, há também uma tendência de que produtores brasileiros, como os do setor canavieiro por exemplo, diminuam suas compras de insumos no sentido de reduzir custos.

“A dificuldades na geração de caixa de algumas empresas por conta da queda do preço do etanol pode fazer com que priorizem os gastos com a colheita da safra atual, deixando de lado investimentos com reflexos positivos na safra 2021/22. O resultado disso tende a ser invariavelmente uma redução de produtividade agrícola que pode ser negativa quando o mercado se recuperar” observa o analista de mercado do Pecege.

Queda dos preços não devem ocorrer

Mesmo com a gradual retomada da economia chinesa, que já tem sua oferta próxima da normalidade, e mesmo com problemas de demanda e queda do preço do petróleo, que atinge cadeias como a de insumos, o analista não vê possibilidade de reduções nos preços internacionais de fertilizantes e defensivos.

“Do lado da oferta, podemos dizer que a situação já é próxima da normalidade. No mercado mundial o principal fator para o movimento de preços neste ano tende a ser a demanda. O comércio mundial de insumos agrícolas está partindo de uma base muito fraca, pois o ano de 2019 foi marcado por problemas climáticos no mundo, derrubando a demanda e os preços de insumos. Diante da simples normalização das safras internacionais, é natural que se espere a recuperação dos preços em dólares dos insumos agrícolas”, explica.

Um alívio pontual, de acordo com ele, é a queda do preço do petróleo que possui efeitos em todas as cadeias produtivas, porém tal benefício tende a ser diluído até chegar no comprador.

Outros players importantes de insumos agrícolas

Além da China, existem outros players importantes de fosfatados em países do norte da África, Rússia e EUA.  Os nitrogenados são produzidos em sua maioria na Rússia e EUA, mas também em países do Oriente Médio, onde há disponibilidade elevada de gás natural. No caso do potássio, a produção é mais concentrada, de acordo com o analista do Pecege, em países como Rússia, Belarus e Canadá.
Já em defensivos, em se tratando de produtos genéricos como os herbicidas mais utilizados  como o glifosato e o 2,4-D, o outro produtor muito importante é a Índia. “Com o aperto das regras ambientais na China, inclusive, tem ocorrido a migração de empresas para a Índia, além da própria intenção do governo chinês de concentrar a indústria, o que tende a aumentar os preços no longo prazo.”
Em se tratando de produtos com patentes ainda em vigência como a grande maioria dos inseticidas e fungicidas, a distribuição geográfica é bem mais ampla, pois depende de decisões internas às detentoras que são grandes multinacionais, podendo haver produção mesmo em países desenvolvidos, cujos custos trabalhistas e de compliance ambiental são bem mais elevados.

O Pecege Projetos desenvolveu um material completo sobre os “Movimentos do setor de insumos agrícolas diante da Covid-19: Incertezas e dificuldades”. Você pode conferir AQUI