Participação feminina no agro aumenta, mas média salarial ainda é desafio

O aumento do nível de escolaridade das mulheres no setor respondeu por cerca de 22% do aumento real observado nos rendimentos médios. Apesar desse avanço, o rendimento médio das que atuam no agronegócio é 27% inferior ao dos homens

Por: Alisson Henrique

Após décadas de muita luta, que ainda continua, as mulheres vêm finalmente conseguindo conquistar mais espaço no mercado de trabalho e até mesmo posições de liderança nos mais variados segmentos da economia. No agronegócio, tradicionalmente muito masculino, não é diferente. As coisas estão mudando. Ainda bem!

Pensando no mês da mulher, a RPAnews preparou uma matéria especial em que mostra como vem crescendo a participação das mulheres dentro deste setor e que, sim, elas podem atuar onde quiserem.

Engana-se quem pensa que a participação delas se concentra apenas nos escritórios das propriedades ou em funções estritamente administrativas. A porteira está se abrindo para a participação feminina e elas estão cada vez mais capacitadas para atuar no campo.

Aos 41 anos, Daniela de Fátima Moriyama é uma dessas mulheres que abrem a porteira todos os dias. Mas motorizada. Ela é motorista de caminhão canavieiro da Biosev, um dos maiores grupos de cana-de-açúcar do Brasil.

Daniela trabalhava como auxiliar de escritório, tinha vontade de trabalhar no agro e assim realizou o sonho. Fez curso para mudar a categoria da sua carteira de habilitação para tentar ingressar em usina.

Daniela trabalhava como auxiliar de escritório. Fez curso para mudar a categoria da sua carteira de habilitação para tentar ingressar em usina.
Daniela trabalhava como auxiliar de escritório. Fez curso para mudar a categoria da sua carteira de habilitação para tentar ingressar em usina.

“Entrar no agro foi uma escolha e já estou trabalhando como motorista canavieira na empresa há três safras. Meu trabalho consiste em levar a cana da frente de colheita até a usina de carreta. Para falar a verdade, enjoei de trabalhar na cidade e queria trabalhar no campo e não importava o que dissessem, queria trabalhar na usina com cana. Sendo assim, nem tentei uma vaga de escritório. Me candidatei diretamente para a vaga de motorista canavieira e aqui estou”, conta orgulhosa.

“Na Biosev, as mulheres trabalham predominantemente na área administrativa. No entanto, a companhia está trabalhando continuamente não só para aumentar o número de mulheres em todas as áreas e posições, mas principalmente para levá-las cada vez mais para a operação”, explica Leandro Neves, Head de RH da Biosev.

Recentemente, na unidade da Biosev, Vale do Rosário, em Morro Agudo, SP, foram contratadas 22 aprendizes pelo SENAI, todas mulheres dos cursos de mecânica, elétrica e TI, com objetivo de promover a diversidade de gênero em atividades antes realizadas só por homens na companhia.

Em outubro de 2019, a Biosev assinou um termo de compromisso com os Princípios do Empoderamento das Mulheres, da ONU Mulheres e do Pacto Global. Ao todo são sete princípios que ajudam as empresas a incorporar valores e práticas, visando a equidade de gênero em seus negócios.

Entre os compromissos estão o tratamento de mulheres e homens de forma justa, respeitando e apoiando os direitos humanos e a não-discriminação; a garantia da saúde, segurança e bem-estar dos públicos feminino e masculino nas empresas; o estímulo à educação, capacitação e desenvolvimento profissional de mulheres.

“A maioria dos meus colegas que desempenha essa mesma função são homens. Em Leme, somos apenas duas motoristas canavieiras, mas vejo que a Biosev e outras empresas do agro tem pensado em recrutar mais mulheres. Até vejo anúncios mais diretos falando ‘precisa-se de mulheres’. Penso que contribuo para que haja oportunidade para outras. Gosto muito do que eu faço e não vejo a hora de a safra começar outra vez”, adiciona Daniela.

De acordo com a companhia, atualmente a empresa conta com 809 mulheres no quadro de funcionários, ocupando os mais variados cargos. O número, que representa 9,02% do quadro total, já mostra resultado dos esforços da companhia: seis meses atrás esse índice era de 7%. Destas colaboradoras, 60 ocupam cargos de liderança.

Em contrapartida com o que é visto, a usina Diana Bioenergia, localizada na cidade de Avanhandava, interior de São Paulo, tem hoje mais mulheres atuando na indústria e no campo do que na área administrativa. Segundo a empresa, das 116 mulheres que compõe a empresa, apenas 26 atuam no administrativo, enquanto 79 e 11 desempenam suas funções no campo e na indústria, respectivamente.

Diferentemente da média, hoje na usina Diana Bioenergia o número de mulheres trabalhando no campo e na indústria supera o de mulheres que exercem suas funções no setor administrativo, culturalmente uma área em que o público feminino concentra suas funções.

No setor há mais de 13 anos, Gisele Pacheco Torrezan, coordenadora de planejamento e manutenção da Diana, explica que no início apenas buscava uma colocação no mercado de trabalho relacionado sua área de formação. Foi quando surgiu a oportunidade na empresa.

“Comecei a carreira na manutenção industrial e conforme foram surgindo as oportunidades fui conquistando cada uma delas. Hoje já faz 10 anos que estou à frente do PCM industrial como coordenadora de planejamento e manutenção. Confesso que não foi nada fácil chegar até aqui. Por se tratar de um setor majoritariamente masculino, houve muitas dificuldades em princípio”, revela.

No início, ela explica que conseguia perceber o preconceito. No entanto, passou longe de desistir de seu objetivo. “Apreendi a lidar com isso enfrentando essas barreiras com muito trabalho e comprometimento. No decorrer do tempo essas barreias foram superadas e conquistei meu espaço. Sou apaixonada pelo meu trabalho e a cada dia que passa me dedico mais e invisto em conhecimento para continuar conquistando as novas oportunidades que aparecerão”, ressalta.

ELAS JÁ LIDERAM 30% DO SETOR

Uma pesquisa realizada pela Abag (Associação Brasileira do Agronegócio) apontou que as mulheres que atuam no agronegócio são responsáveis pela gestão de, no mínimo, 30% do segmento.

Número superior ao registrado na indústria (22%) e na área de tecnologia (20%). Segundo o estudo, 60% das entrevistadas têm curso superior e 88% das entrevistadas são independentes financeiramente.

Vanessa Sabioni é fundadora da rede AgroMulher, agência que incentiva o aumento da participação feminina no campo.
Vanessa Sabioni é fundadora da rede AgroMulher, agência que incentiva o aumento da participação feminina no campo

“Apesar da informalidade do setor, percebemos que, a cada dia, as mulheres buscam melhorar sua qualificação profissional por meio de cursos, palestras e troca de informações com outras mulheres do setor. Percebo uma preocupação muito maior pela busca de aprendizado e qualificação”, afirmou Vanessa Sabioni, fundadora da rede AgroMulher, agência que incentiva o aumento da participação feminina no campo.

De acordo com o levantamento do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, nos últimos anos houve um aumento do número total de mulheres trabalhando no agronegócio em 8,3%.

Diante desse cenário, a participação delas no mercado de trabalho do agro cresceu consistentemente, passando de 24,11% para 27,97%, entre 2004 e 2015 – último dado consolidado. Já o número de homens atuando no setor diminuiu 11,6%.

Diversos fatores atuam de forma conjunta para este aumento. Primeiramente, revela Nicole Rennó, pesquisadora da área de macro do Cepea, o aumento da participação feminina no agro responde a um movimento mais geral de mudança do papel da mulher na sociedade e na economia brasileira.

“Algumas tendências que estimulam a participação da mulher no mercado de trabalho são a redução da fecundidade, a distribuição mais uniforme das tarefas domésticas e o avanço no nível de qualificação das mulheres, por exemplo”, relata.

Olhando especificamente para o agronegócio, ela explica, o crescimento dos segmentos agroindustrial e de agrosserviços no total de empregos, segmentos em que a participação da mulher é usualmente mais alta do que na agropecuária, também favorecem o aumento da participação feminina no agronegócio como um todo.

Em termos dos segmentos do agronegócio (insumos, agropecuária, agroindústria e agrosserviços), há uma maior concentração das mulheres na agroindústria e nos agrosserviços.

Em entrevista à RPA, pesquisadora do Cepea conta que dentro das agroindústrias, as atividades que se destacam com alta concentração feminina são a produção de alimentos, bebidas, produtos têxteis e vestuário. Já na agropecuária, ou dentro da porteira, a concentração de mulheres é mais frequente na horticultura e fruticultura, na avicultura, na produção de grãos e na bovinocultura (em especial de leite).

Para Nicole Rennó, a discriminação salarial ainda é uma grande barreira para as mulheres. Créditos: Comunicação Cepea.
Para Nicole Rennó, a discriminação salarial ainda é uma grande barreira para as mulheres

AVANÇO EXISTE, MAS MÉDIA SALARIAL AINDA É MENOR

As mulheres enfrentam desafios diários no mercado de trabalho, e são diversas as histórias e situações individuais. Mas, pensando nas mulheres de forma geral, um grande desafio, ressalta a pesquisadora Nicole Rennó, ainda é a discriminação salarial.

“Diversos estudos já mostraram isso para o Brasil, e nós mostramos especificamente para o agronegócio: apesar de as mulheres apresentarem características que justificariam um rendimento médio superior ao dos homens, por exemplo, uma escolaridade média superior, elas ainda recebem, em média, menos que os homens”, conta.

De acordo com a pesquisa do Cepea, o aumento do nível de escolaridade das mulheres ocupadas no setor de 2004 a 2015 respondeu por cerca de 22% do aumento real observado nos rendimentos médios nesse mesmo período, que foi de 57%.

Apesar desse avanço, nota-se que o rendimento médio das mulheres que atuam no agronegócio ainda esteve por volta de 27% inferior ao de homens ocupados no mesmo setor, também quando considerado de 2004 a 2015.

Já a diferença entre os rendimentos da força feminina que trabalha no agronegócio e da que está ocupada fora deste setor esteve em torno de 37%, com vantagem para as que atuam nos demais segmentos da economia. No período analisado, esses diferenciais mantiveram certa estabilidade.

Entre as mulheres ocupadas no agronegócio, a diferença no rendimento médio está relacionada principalmente, à escolaridade, à idade e à região de atuação.

No caso do primeiro item, o estudo identificou que, em 2014/15, o rendimento médio de mulheres ocupadas no agro e com 13 anos ou mais de estudo era 154,8% superior àquele recebido por mulheres sem instrução.

No caso do fator regional, verifica-se que trabalhadoras do Sul do País obtiveram maior remuneração média mensal do que ocupadas em outras localidades, sobretudo no biênio 2014/15.

Neste ponto, pesquisadores do Cepea indicam que há evidências de que este comportamento pode estar relacionado aos fatores históricos que balizaram a organização agrícola de forma diferente nos vários estados.

Ao comparar os rendimentos médios observados entre homens e mulheres empregados no agronegócio, a pesquisa mostrou uma diferença, em termos absolutos, de R$ 149,04 em favor da mão de obra masculina em 2004/05 (ou de 27,39%) e de R$ 227,25 em 2014/15 (ou de 26,84%).

Isso indica que, apesar de a mão de obra feminina apresentar, em média, atributos que justificariam a existência de um rendimento médio superior àqueles pagos aos homens do setor (tais como instrução, classificações na ocupação e regiões de domicílio), esta acaba por receber um salário inferior.

OS PRINCIPAIS DESAFIOS

Por muitos anos o principal desafio, explicam às fontes ouvidas pela RPA, era o preconceito do “não vai saber fazer melhor que o homem, não tem capacidade”. No entanto, tem-se percebido uma mudança nesse fato. “A gente tem se empenhado para fazer tudo direito para abrir esse caminho para outras mulheres e crescer nunca é demais. Vou lutar para isso porque estou superfeliz no agro”, relata a motorista canavieira da Biosev.

Para a pesquisadora da área de macro do Cepea, a falta de oportunidades para cargos mais altos (ainda ocupados predominantemente por homens) e as jornadas duplas ou mesmo triplas das mulheres (que além de atuarem no mercado de trabalho, continuam exercendo as tarefas domésticas e cuidando dos filhos) também pode ser elencada como um dos desafios rumo à igualdade.

A gente tem se empenhado para fazer tudo direito para abrir esse caminho para outras mulheres e crescer nunca é demais. Vou lutar para isso porque estou superfeliz no agro, relata a motorista canavieira da Biosev.

Gisele Pacheco ressalta que com uma maior profissionalização do setor, se fez necessário a busca por mão de obra qualificada. Para ela, é justamente aí que se abrem as portas para entrada das mulheres nos mais variados cargos neste setor.

No entanto, ela ressalta que ainda não dá para falar que não há dificuldades e diferenças entre homens e mulheres no mercado de trabalho. Todavia, ela ressalta que a mulher vem sim conquistando seu espaço.

“Como no setor do agro é um ambiente mais masculinizado, aparentemente o maior desafio é a abertura do mercado de trabalho para que seja dada a oportunidade de demonstrar seu trabalho. Mas, onde isso já se iniciou, as mulheres vêm se destacando. Tanto que tem aumentado significativamente a liderança feminina neste setor”, adiciona.

Para ela, as mulheres, mais do que nunca, estão agora inseridas neste mercado de trabalho, tanto na operação, nos processos de tomada de decisão, presença na mesa dos conselhos e atuando em posições de governo. “Estou confiante de que podemos continuar progredindo e cada vez mais buscando essa transformação”, destaca Gisele.