Quais foram os desafios da safra 2019/20 de cana-de-açúcar?

Apesar da safra 2019/20 ter sido marcada por diversas variáveis climáticas, na avaliação de produtores e usinas, foi uma temporada melhor do que a anterior

Natália Cherubin

A safra 2019/20 de cana-de-açúcar está caminhando para o seu fim em muitas das unidades brasileiras. E como toda safra, essa foi mais uma que não ocorreu exatamente conforme o esperado. De acordo com muitos produtores e usinas, a temporada foi uma verdadeira montanha russa.

A expectativa no início do ciclo era um pouco negativa, diante da falta chuvas no final de 2018 e início de 2019 (dezembro-janeiro), período decisivo para o crescimento da lavoura. No entanto, entre abril e maio, os ânimos voltaram a ficar mais positivos, porque vieram as chuvas mais regulares, o que refletiu na recuperação dos canaviais, mas atrapalhou o ritmo de colheita.

Entre junho-julho ocorreram as geadas, que em maior ou menor grau, causaram não só perdas, que serão sentidas na próxima safra – com impactos graves em Mato Grosso do Sul e Goiás – como também demandaram o replanejamento de colheita de muitas unidades atingidas por todo o Centro-Sul. Em setembro e outubro as chuvas também não vieram e a seca provocou grandes incêndios nos canaviais.

Falando de mercado, o cenário foi parecido com o que era esperado. Enquanto os preços do açúcar chegaram a seu menor número nos últimos tempos (US$ 10 cents), a safra caminhou, mais uma vez, mais alcooleira e com preços melhores para biocombustível. O setor bateu recordes de produção e consumo de etanol, que deve fechar, de acordo com Arnaldo Correia, diretor da Archer Consulting, com 3% de crescimento em relação ao ano anterior.

Segundo Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da Unica, apesar das variáveis que impactaram serem quase sempre as mesmas, o clima, as geadas, as variáveis mercadológicas – preço do petróleo, preços do açúcar, câmbio, preços da gasolina – e os fatores regulatórios, tanto na área tributária quanto trabalhista, um destaque da temporada foi a gestão das empresas, que evoluiu muito.

“O resultado da safra foi acima da expectativa inicial com melhor produtividade, dado condições climáticas mais favoráveis e com as melhores práticas agrícolas, resultando em maior quantidade de açúcares por hectare. Do ponto de vista agrícola, o veranico prolongado com muitos focos de incêndio em áreas colhidas e a colher demandou dispêndios para o setor. Níveis atuais de preços do açúcar já eram esperados pelo setor, então a oferta e a demanda de etanol foi o ponto positivo”, adiciona Rodrigues.

Para o produtor e diretor da Tecnocana, Paulo Roberto Artioli, a safra 2019/20 foi melhor que a passada. “Começamos ano com uma visão bem mais pessimista do que está realmente nos mostrando. Isso porque tivemos um dezembro e janeiro com uma estiagem bastante forte, bem na época que fizemos as estimativas. Diante de toda a conjuntura, ficamos preocupados com a produtividade, mas como uma safra de cana nunca é igual a outra, tivemos chuvas entre os meses de maio e abril. Isso fez com que os canaviais, os quais já estávamos investindo em tecnologias para melhorar a produção, tivessem uma resposta muito melhor do que esperávamos.”

Ricardo Junqueira, CEO da Diana Bioenergia diz que a temporada teve alguns desafios complicados, entre eles a volatilidade do dólar (US$), o clima com poucas chuvas e o preço do açúcar. No entanto, no caso da Diana Bioenergia, o principal desafio tem sido a grande quantidade de reformas e expansões que a unidade tem feito.

“Nesse ano são mais de 4.800 ha, em torno de 25% (1/4) dos nossos canaviais, as quais temos de avaliar variedade, MPB, meiosi, equipamentos, pessoal e, principalmente, o clima e logística. Mesmo assim, graças ao nosso pessoal e muito trabalho, tem dado tudo certo! Essa safra de cana-de-açúcar foi bem melhor, muito mais fácil do que ano passado e creio que o próximo ano deva ser um pouco mais fácil do que 2019. Vamos dar um passo de cada vez. Estou bastante satisfeito com a consistência da melhora dos indicadores da Diana.”

RenovaBio é desafio

André Rocha, presidente-executivo dos Sindicatos da Indústria de Fabricação de Açúcar e de Etanol de Goiás (Sifaeg/Sifaçúcar), afirma que as empresas continuam em busca da melhoria da produtividade e da eficiência. “Muitas empresas optaram por, no lugar de diminuir o seu endividamento, fazerem investimentos para melhorarem a eficiência. Todos estão trabalhando visando o RenovaBio no próximo ano.”

Ainda segundo Rocha, Goiás é o estado onde, proporcionalmente, se tem mais empresas aprovadas para o RenovaBio e diz que o grande desafio agora é trabalhar uma comunicação mais efetiva para que o consumidor opte, cada vez mais, pelo etanol.

Ricardo Pinto, diretor da RPA Conusltoria, também vê o RenovaBio como o maior desafio daqui em diante. “O maior desafio que se impõe para o setor é o RenovaBio, que implica em muitas novidades, muitas regulamentações e uma curva de aprendizado das usinas para conseguirem obter os Cbios. Isso está gerando uma forte busca por informações, por entendimento da metodologia e pela própria definição da metodologia. A própria Bolsa vai ter que regulamentar esses títulos, que são os CBIOS, mas ainda não se sabe exatamente como será a definição de preços. A grande surpresa é quanto vai custar um CBios.”

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