Rebaixamento de nota da Raízen por agência de classificação de risco levou a uma desvalorização dos títulos de dívida e a uma onda de vendas
O anúncio feito pela Raízen na manhã desta segunda-feira, 9, de que estava em processo de contratação de uma assessoria financeira e o downgrade recebido por agências de ratings desencadearam uma onda de vendas de seus títulos de dívida no mercado internacional (bonds) que pode até beneficiar a própria companhia. Esse movimento tornou os papéis mais baratos, o que pode facilitar sua recompra no mercado secundário, ajudando em sua reestruturação financeira.
Os papéis de dívida no mercado internacional estão sendo negociados entre 43% a 48% do valor de face, ampliando o recuo visto desde a semana passada, quando a desconfiança do mercado ganhou força. Mais cedo, o bond com vencimento em 2037 tinha queda de mais de 11%, negociado a 45,7% do valor de face.
O papel com vencimento em 2054 recuava quase 8%, sendo negociado a 43% do valor de face. O título que vence em 2035 teve desvalorização de 2%, negociado a 46,5% do valor de face. Os bonds que vencem em 2034 e 2032 são negociados a 46% e 48% do valor de face, com recuos superiores a 4%, segundo fontes que acompanham o mercado.
O movimento de desvalorização reflete a retirada de grau de investimento da Raízen pelas agências de classificação de risco S&P Global Ratings e Fitch, e a informação dada pela empresa de que estava contratando uma assessoria financeira.
A Raízen tem mais de US$ 2 bilhões em dívidas em títulos emitidos no exterior – ou cerca de R$ 10 bilhões. Considerando os descontos no valor de face dos papeis, a companhia precisaria gastar cerca de US$ 1,8 bilhão para recomprar todos os seus bonds, caso queira optar pela recompra de títulos de dívida como uma das formas de reduzir seu passivo.
Se a companhia quiser recomprar todos os títulos de dívida – o que inclui, além dos bonds, green notes, Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e debêntures – pelo atual valor de face, ela precisaria de mais de R$ 20 bilhões, segundo cálculos da consultoria FG/A.
Na semana passada, o JP Morgan divulgou em um relatório sobre a dívida da Raízen em que recomendava a compra dos bonds e mencionava uma estimativa de que a companhia teria US$ 5,3 bilhões (mais de R$ 25 bilhões) em liquidez, considerando desde caixa, linhas disponíveis e recursos a receber da venda de ativos. A companhia divulgará o balanço de seu terceiro trimestre da safra 2025/26 na próxima sexta-feira, 13.
Analistas do mercado acreditam que a companhia vai tentar novas recompras de títulos como forma de reestruturar seu passivo antes de tentar outros movimentos para repactuar sua dívida. Procurada, a companhia não comentou.
A última vez que a Raízen recomprou títulos de dívida no mercado foi há um ano, quando desembolsou US$ 154 milhões para recomprar 45% de suas notes para 2027.
Os títulos de dívida da Raízen no mercado local também estão em baixa, ainda que com quedas menores. As debêntures com vencimento em 2034 e 2039 são negociadas atualmente por um valor de face com desconto entre 30% e 40%, por exemplo. A Raízen tem mais de R$ 12 bilhões em títulos de dívida no mercado nacional.
Além disso, a Raízen tem mais de R$ 15 bilhões em títulos de dívida atrelados a critérios ambientais no mercado internacional, as green notes.
Ou seja, mais da metade da dívida da companhia está vinculada a emissões no mercado de capitais. Da dívida bruta da companhia no fim de setembro (encerramento do segundo trimestre da safra 2025/26), que era próxima de R$ 70 bilhões, aproximadamente R$ 38 bilhões estão em títulos na mão de investidores. O restante está na mão de bancos privados e do BNDES.
Globo Rural|Camila Souza Ramos e Rita Azevedo