Consultoria estima balanço negativo de 550 mil toneladas de açúcar diante de perdas na Europa e Ásia, enquanto Brasil segue como principal fornecedor global
O mercado global de açúcar entrará em déficit na safra 2026/27 (outubro a setembro), com um balanço negativo estimado em cerca de 550 mil toneladas, segundo a primeira estimativa da StoneX para o próximo ciclo.
Segundo a consultoria, o número marca uma “inflexão relevante” após dois anos consecutivos de superávit e sinaliza um cenário de maior aperto estrutural, impulsionado pela combinação entre riscos climáticos, redução de área plantada e mudanças no fluxo do comércio internacional.
“Nesta primeira leitura para 2026/27, já identificamos um déficit de aproximadamente 550 mil toneladas no balanço global de açúcar, o que altera de forma importante a dinâmica do mercado em relação aos ciclos anteriores”, afirmou o analista de inteligência de mercado da StoneX, Marcelo Di Bonifácio Filho.
“Esse movimento ocorre mesmo com crescimento da produção brasileira e reflete perdas relevantes na oferta de outras regiões-chave”, complementou.
Europa deve voltar a importar açúcar
Um dos principais vetores do déficit projetado pela consultoria está na União Europeia, onde a produção de açúcar a partir da beterraba deve recuar de forma significativa em 2026/27.
A StoneX estima queda de 6,1% na área cultivada na UE-27, refletindo a menor rentabilidade da cultura diante dos preços internacionais mais baixos observados nos últimos anos, além do avanço dos riscos fitossanitários.
Com isso, a produção do bloco, somada ao Reino Unido, deve cair para 15,3 milhões de toneladas, retração anual de 12,5%. Segundo a consultoria, o movimento recoloca a UE-27 na posição de importadora líquida de açúcar, após ciclos em que o bloco registrou superávits relevantes na balança comercial da commodity.
“A menor produção europeia terá impacto direto sobre o mercado internacional, especialmente no segmento de açúcar branco, que deve voltar a demandar volumes maiores de importação a partir de 2027”, destacou Di Bonifácio Filho.
El Niño ameaça oferta asiática
Na Ásia, a formação do El Niño aparece como principal fator de risco para a safra 2026/27. Segundo a StoneX, o fenômeno climático historicamente reduz a intensidade das monções no Sul e Sudeste Asiático, comprometendo a produtividade agrícola da região.
Na Índia, maior produtora e consumidora global de açúcar, a consultoria projeta produção de 27,9 milhões de toneladas de açúcar branco em 2026/27, leve queda em relação ao ciclo anterior, apesar da expectativa de expansão da área cultivada.
Segundo a StoneX, o principal ponto de atenção está na produtividade agrícola.
“Em anos de El Niño, a Índia tende a registrar monções menos intensas, o que impacta diretamente o rendimento dos canaviais. Mesmo com maior área plantada, o potencial produtivo pode ser limitado”, explicou o analista.
Com estoques de passagem mais restritos e incertezas quanto à disponibilidade de matéria-prima, a StoneX estima que a Índia terá espaço reduzido tanto para exportações de açúcar quanto para um desvio mais expressivo de cana para etanol na próxima temporada, limitando sua capacidade de aliviar o mercado global.
Na Tailândia, segundo maior exportador mundial de açúcar, o cenário também é de retração. Após uma safra 2025/26 considerada forte, a consultoria projeta queda de 14,6% na produção de açúcar em 2026/27, para 10,2 milhões de toneladas.
Segundo a StoneX, o movimento reflete a redução de área plantada, a maior competitividade da mandioca e os impactos negativos do El Niño sobre o regime de chuvas.
As exportações tailandesas devem cair de 8,5 milhões para 7,3 milhões de toneladas, reduzindo a disponibilidade de açúcar branco no mercado internacional.
China amplia produção; Paquistão avalia exportações
A China segue trajetória distinta dentro da Ásia, segundo a consultoria. O país caminha para o terceiro ano consecutivo de crescimento da produção, com estimativa de 12,5 milhões de toneladas em 2026/27, impulsionado por estímulos governamentais e pela maior atratividade econômica da cana frente a culturas concorrentes.
Ainda assim, os analistas da StoneX avaliam que o crescimento da produção chinesa não será suficiente para compensar as perdas esperadas na Índia, Tailândia e Europa.
No Paquistão, a safra 2025/26 surpreendeu com recuperação relevante da oferta. O país avalia a possibilidade de liberar cotas de exportação, o que pode gerar efeitos pontuais sobre o mercado de açúcar branco, mas sem alterar estruturalmente o balanço global.
Brasil segue como principal fornecedor global
No Brasil, a StoneX projeta que o Centro-Sul produza 41,5 milhões de toneladas de açúcar em 2026/27, alta de 6%, sustentada pelo aumento da moagem e pela expectativa de maior mix açucareiro ao longo do ciclo.
Mesmo assim, a consultoria destaca que o início da safra ocorre com perfil mais etanoleiro, reflexo da forte competitividade do biocombustível observada no ciclo anterior.
“O Brasil continua sendo o principal fornecedor global e terá papel fundamental no abastecimento do mercado. No entanto, o aumento esperado da produção brasileira, por si só, não é suficiente para neutralizar as perdas observadas em outras regiões produtoras”, avaliou Di Bonifácio Filho.
Mercado começa a precificar aperto global
Com a combinação de menor oferta europeia, redução das exportações asiáticas e déficit no balanço global, a StoneX projeta mudanças relevantes no fluxo internacional de açúcar.
Segundo a consultoria, a demanda por açúcar bruto tende a crescer entre refinadores do Oriente Médio, Norte da África e Sul da Ásia, ampliando a dependência do produto brasileiro.
“Esse efeito em cascata deve ser mais perceptível a partir do primeiro trimestre de 2027, quando a Europa já não contará com açúcar doméstico suficiente e o Brasil estará fora do pico de exportações”, explicou o analista.
Os estoques globais de açúcar, que crescem em 2025/26 devido ao superávit, devem recuar 0,7% em 2026/27, para 75,6 milhões de toneladas, estima a StoneX. Com isso, a relação estoque-uso deve cair para 38,9%, sinalizando menor colchão de segurança para o mercado.
“O mercado tende a passar a precificar com mais intensidade o risco de aperto ao longo de 2027, especialmente à medida que os efeitos climáticos do El Niño se materializem e o fluxo global de açúcar branco fique mais restrito”, concluiu Marcelo Di Bonifácio Filho.


