A decisão do governo brasileiro de compensar a disparada dos preços internacionais do petróleo com subsídio à gasolina pode provocar efeitos adversos para o mercado de etanol e para o setor sucroenergético, avaliou o analista Michael McDougall, em comentário.
Segundo ele, a medida reduz a competitividade do biocombustível, desestimula a formação de estoques e pode agravar os desafios financeiros enfrentados pelas usinas.
De acordo com McDougall, o subsídio à gasolina pode provocar uma série de efeitos colaterais sobre a cadeia sucroenergética. Entre eles estão o desestímulo à estocagem de etanol, o aumento da destinação de cana para a produção de açúcar e a redução da oferta futura do biocombustível no mercado doméstico.
“O subsídio à gasolina pode desestimular a formação de estoques de etanol e empurrar as usinas para o açúcar”, afirmou.
O analista também avalia que a medida pode estimular importadores estrangeiros a ampliar as compras de etanol brasileiro, reduzindo a disponibilidade do produto no país em um momento posterior.
Em sua avaliação, o cenário é particularmente sensível porque tanto o açúcar quanto o etanol vêm sendo negociados abaixo dos custos de produção. Ele acrescentou que a política pode ampliar a pressão financeira sobre parte das usinas.
Para McDougall, a iniciativa representa uma oportunidade perdida de utilizar uma das principais vantagens competitivas do Brasil para enfrentar o choque nos preços dos combustíveis.
Segundo ele, o país dispõe de uma alternativa doméstica à gasolina por meio do etanol e da ampla frota de veículos com tecnologia flex. “O Brasil já possui um substituto produzido internamente e significativamente mais barato”, disse.
Na visão do analista, o funcionamento natural do mercado permitiria que consumidores migrassem da gasolina para o etanol à medida que os preços dos combustíveis fósseis subissem, reduzindo a necessidade de intervenção governamental e reforçando o papel do programa flex como mecanismo de proteção contra choques externos.
McDougall argumenta que o governo praticamente neutralizou um aumento de 18,5% nos preços da gasolina ao anunciar uma compensação que reduziu o impacto líquido para cerca de 1,3% nas bombas. Pelas estimativas apresentadas por ele, a medida pode custar entre R$ 1 bilhão e R$ 1,2 bilhão por mês aos cofres públicos.
Para o analista, a decisão vai na direção oposta à lógica que orientou a criação do programa brasileiro de etanol e dos veículos flex, concebidos justamente para reduzir a dependência do país em relação à gasolina e amortecer oscilações nos mercados internacionais de energia.
Agência Estado| Leandro Silveira



