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Por: Marcos Fava Neves

Seguem nossas reflexões dos fatos e números da cana em novembro/dezembro e o que acompanhar em janeiro. Na cana, segundo dados da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), até o dia 16 de novembro, a moagem acumulada de cana na região Centro-Sul alcançou 516,97 milhões de t, queda de 11,8% em relação à mesma data do ciclo passado; são quase 70 milhões de t a menos. Até a referida data, 187 usinas já haviam encerrado as atividades neste ciclo, e apenas 75 plantas estavam em operação. Em relação à qualidade da matéria-prima, o teor acumulado de ATR é também menor que o da safra passada, em 1,48%, estando agora em 143,00 kg/t.

No total do Brasil, segundo a estimativa mais recente da Conab, a colheita nesta safra deve ser de 568 milhões de t, redução de 4,2% em relação ao ciclo passado, ou 86 milhões de t a menos. Já a produtividade foi indicada em 69 t por hectare, queda de 9,5% em relação à safra passada; são 7 t a menos por hectare! As baixas tem como principais reflexos os impactos do clima nas lavouras (seca e geadas), ao longo deste ano.

Considerando a safra que está por vir (2022/23), a StoneX estima que a área cultivada com cana-de-açúcar deva crescer 1,4%, alcançando 7,8 milhões de hectares. Se por um lado há expectativa de um aumento de produtividade agrícola de 5,0%, atingindo 72,5 t/ha, a qualidade da matéria-prima, ou seja o ATR médio, deve cair 1,2% chegando a 140,7 kg/t. Para a consultoria, o mix permanecerá estável, com 45% destinado à produção de etanol e os outros 55% para açúcar. Com isso a produção de etanol do ciclo 2022/23 foi avaliada pela consultoria em 29,7 bilhões de litros, sendo 19,5 bilhões do tipo hidratado e os outros 10,2 bilhões do anidro. Já a produção de açúcar está cotada em 32,4 milhões de t.

No segundo trimestre da safra atual (julho a setembro de 2021/22), a alta dos preços do etanolenergia e no açúcar (menos expressiva para este último) possibilitaram melhores condições de venda para as usinas. Segundo dados divulgados pelo Valor Econômico, a Raízen comercializou o biocombustível a um valor médio de R$ 3.664/m³, alta de 63% na comparação com o mesmo período do ciclo passado; na São Martinho, o crescimento nos preços foi de 68%, com média em R$ 3.284,5/m³. No caso do açúcar, o preço médio cresceu 43% para as duas empresas: Raízen com preços em R$ 1.959/t; e São Martinho com R$ 1.689,7/t.

A Tereos tem realizado interessantes investimentos rumo à transformação digital. Na cadeia de suprimentos para ter maior assertividade no planejamento das operações; na área agrícola, com algoritmos de auxiliam na identificação das ervas daninhas; na previsão de safra, com 70 estações meteorológicas gerando dados que alimentam o sistema para construção das estimativas de safra; nas operações com o rastreamento das máquinas e coleta de dados de eficiência operacional. O digital vem para trazer maior eficiência a gestão de nossos canaviais. Foi um prazer neste mês realizar a palestra de fechamento de safra para a empresa e ouvir sobre os compromissos de parcerias com os produtores.

No mercado de capitais, a Jalles Machado anunciou que fará a sua primeira emissão de debêntures simples, no valor de R$ 400 milhões, com a finalidade de investir na manutenção e melhoria dos canaviais, visando o aumento da eficiência produtiva do etanol em suas unidades. A exposição da Jalles ao mercado é algo louvável.

No açúcar, a primeira quinzena de novembro, a produção de açúcar na região Centro-Sul somou 625,6 mil t, queda de quase 50% na comparação com o mesmo período do ciclo anterior (foi de 1,24 milhão de t). No acumulado do ano, a produção do adoçante soma 31,84 milhões de t, baixa de 15,4%, segundo dados da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica).

As exportações de açúcar no mês de novembro foram de 2,66 milhões de t, valor 8,2% menor que no mesmo mês de 2020. O faturamento por sua vez atingiu US$ 921,59 milhões, crescendo 7,4%, devido ao aumento de preços de 17,0%, o qual compensou a redução do volume embarcado.

A safra global de açúcar, a qual considera o intervalo de outubro de 21 até setembro de 22, deve evidenciar um balanço deficitário de 1,8 milhão de t, o que representa uma ligeira recuperação frente ao cenário do ciclo 2020/21 onde o déficit chegou a 3,0 milhões de t, segundo informações da StoneX. Esse déficit é explicado por uma produção global de 186,6 milhões de t, crescimento de 1,6% frente a temporada passada; e demanda de 188,4 milhões de t, crescendo 0,9% em comparação a anterior.

Já a Organização Internacional do Açúcar (OIA) prevê um déficit global do adoçante na safra 2021/22 em 2,55 milhões de t, uma redução de 33,8% na comparação com o relatório de agosto (era de 3,85 milhões de t). Com isso, o OIA aponta a produção global de açúcar em 170,5 milhões de t e os estoques em 93,3 milhões de t, neste ciclo. A produção indiana do adoçante deve totalizar 31,5 milhões de t ( 1%), com exportação entre 4,5 e 6 milhões de t. Já na Tailândia, espera-se uma produção de 10,7 milhões de t ( 41,7%).

Enquanto isso, o USDA aponta para uma produção global do adoçante no ciclo 2021/22 de 181,1 milhões de t, se mantendo estável no comparativo com o anterior. O consumo por sua vez, está avaliado em 174,55 milhões de t, puxando pela demanda na China, Índia e Rússia. No cenário brasileiro, o órgão americano projetou produção de 36 milhões de t, queda de 6,1 milhões de t frente à temporada anterior, com exportação de 26 milhões de t, 6,15 milhões de t a menos que em 2020/21. A Índia deve produzir 34,7 milhões de t ( 3%) e exportar 7 milhões; enquanto na Tailândia espera-se 10 milhões de t, sendo praticamente 100% do volume destinado à exportação. Finalmente, na União Europeia e Reino Unido, a produção deve somar 17,2 milhões de t ( 12%), devido a um verão mais úmido que favorece a produtividade da beterraba.

No etanol, no acumulado da safra 2021/22 até 15/11, a produção total de etanol, alcançou 25,8 bilhões de litros (-8,8%), sendo 15,5 bilhões de litros do hidratado (-19,8%) e 10,4 bilhões de litros do anidro ( 14,8%). Do total produzido, 2,1 bilhões de litros (8,1%) tiveram o milho como matéria-prima. No acumulado do ano, as vendas do biocombustível somam 17,91 bilhões de litros, volume que é 6,4% menor que o registrado no mesmo período do ciclo passado na região. Olhando para o consumo interno, o Anidro corresponde à 6,4 bilhões de litros ( 20,5%) e o hidratado a 10,5 bilhões de litros (-11,8%).

Os embarques de etanol somaram apenas US$ 40,67 milhões em novembro, queda de 51,0% frente ao mesmo mês de 2020, com redução de 66% no volume.

O consumo de combustíveis do ciclo Otto (etanol e gasolina) no Brasil deve atingir 52 bilhões de litros em 2021, um crescimento de 5,5% frente a 2020, segundo divulgado pela StoneX. No entanto, com uma paridade favorável para gasolina, em 81,4%, esta deve ganhar participação frente ao biocombustível. A demanda por etanol hidratado foi avaliada em 17 bilhões de litros, o que representa uma redução de 13% em comparação ao ano passado.

A comercialização de carros híbridos e 100% elétricos alcançou valor recorde de 14 mil unidades no primeiro semestre de 2021, um crescimento de 80% frente ao ano anterior, de acordo com a StoneX. Apesar do crescimento, essa tipo de veículos ainda apresenta participação pouco representativa dentro da frota total, de aproximadamente 0,2%. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA) projeta que até 2035, os carros elétricos poderão representar até 62% da frota brasileira, com uma expansão gradual e de longo prazo.

Para concluir, os cinco principais fatos para acompanhar em janeiro na cadeia da cana:

1- Terminando a safra com cerca de 520 toneladas moídas. As chuvas ajudarão na cana de 2022, mas apresenta atrasado estágio de desenvolvimento… Estimativas ao redor de 560 a 570 milhões de toneladas, com área de 7,8 milhões de hectares. Mix deve se manter em 45% para açúcar e 55% para etanol. Esta entressafra trará emoções e os estoques devem ficar baixos.

2- Até outubro de 2021, as vendas de hidratado recuaram 7,5% em relação ao mesmo período de 2020 (de 15,6 para 14,4 bilhões de litros). Em outubro caíram quase 32% (1,3 bilhão de litros), com a participação do etanol no ciclo Otto vindo de 43% para 37%. StoneX coloca a demanda deste ano de hidratado em 17 bilhões de litros (13% menor). Anidro aumenta para 11 bilhões de litros. Para 2022/23 estimam a produção total em 29,7 bilhões de litros (19,5 bilhões de hidratado e 10,3 bilhões de anidro). Teremos elevação do consumo de combustíveis agora que começam as férias no Brasil. Qual o efeito dos preços no consumo?

3- O barril do petróleo tipo Brent em um mês veio de USD 84 para USD 66 e voltou a USD 72. Segue trazendo impacto na inflação. Qual será seu comportamento neste final de ano? Será que com possibilidades de novos isolamentos pode cair um pouco, mas tem a demanda de energia no inverno do hemisfério norte, enfim… O risco de “over-reaction” à nova variante do Coronavírus.

4- Açúcar caiu um pouco com queda do petróleo e bons indicadores de chuvas no Brasil podendo melhorar a condição da cana de 2022. Um boa janela de fixação de preços passou. StoneX prevê déficit na safra 2021/22 de 1,8 milhão de toneladas (produção de 186,6 milhões de toneladas, consumo de 188,4 milhões). Estima a produção no Brasil de 31,3 milhões de toneladas (12% a menos) nesta safra e 5,2% de crescimento, indo a 34,1 milhões de toneladas em 2022/23. Açúcar em 19 cents/libra peso na tela de março de 2022. Observar o caminhar dos preços em janeiro, , mas acreditamos em estabilidade.

5- Os problemas de preços e abastecimento de insumos e as necessidades da cana para boa performance na safra 2022/23. Os investimentos em renovação e nas soqueiras devem ser maiores, devido aos bons preços. E os insumos?

Valor do ATR: vamos ao nosso resumo do valor de ATR ao longo deste ciclo: abril em R$ 1,0141/kg; maio em R$ 1,0564/kg; junho em R$ 1,0630/kg; julho em R$ 1,0878/kg; agosto em R$ 1,1425/kg; setembro com R$ 1,209/kg; e outubro em R$ 1,2938/kg. O novo dado, referente a novembro, novamente apresenta alta nos preços do indicador, que fechou em R$ 1,3727. Com isso, o valor acumulado da safra 2021/22 está em R$ 1,1691. Com esta subida, é possível vislumbrar um ATR acumulado de R$ 1,25/kg até o final do ciclo.

Desejamos a todos um excelente 2022!

Por: Marcos Fava Neves, professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da EAESP/FGV em São Paulo, especialista em planejamento estratégico do agronegócio.

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