Compartilhar

Mesmo com uma projeção menor de produção de açúcar na safra 2021/22, diante das condições climáticas atípicas, como a estiagem entre setembro e outubro de 2020, que podem prejudicar o volume de cana e a concentração de ATR (Açúcar Total Recuperável), o déficit mundial e o reforço nas exportações – a depender do apetite chinês pelo açúcar brasileiro – manterão os preços elevados podendo também influenciar para um mix mais açucareiro nesta temporada.

De acordo com o levantamento do Cepea/Esalq (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) sobre as perspectivas para 2021, os preços favoráveis no mercado interno e a recuperação dos valores internacionais devem estimular a manutenção do mix mais açucareiro.

“Além disso, boa parte das exportações já está fixada para a próxima safra, o que compromete a flexibilidade para inverter o mix”, afirmam os pesquisadores do Cepea.

E mesmo que haja um fortalecimento acelerado da economia, o que poderia enfraquecer a moeda norte-americana frente ao Real, reduzindo as vantagens das exportações, as incertezas causadas pela pandemia e o novo ambiente de juros baixos, que não atrai mais o capital externo especulativo, indicam que o dólar pode se manter firme, o que, mais uma vez, beneficiaria as exportações.

Além desses aspectos, segundo os pesquisadores do Cepea, não existe sinalização segura de que o consumo de combustíveis aumente com força em 2021. O petróleo tem oscilado bastante, sem tendência definida.

“Se houver retomada de consumo interno, no entanto, a diferença entre os preços da gasolina e do etanol nos postos deve estimular sobremaneira seu consumo. Em relação ao consumo de açúcar, as mudanças ocorridas no Brasil e no mundo em 2020, especialmente devido à pandemia de Coronavírus, podem se estender para 2021”, destacam.

O que definirá os preços relativos dos produtos finais e, consequentemente a tendência de mix de produção das próximas safras, será a velocidade de transição para uma nova estabilidade econômica.

Portanto, o que determinará se o mix terá um incremento relativo em termos de açúcar ou de etanol não é o consumo interno do adoçante, mas, sim, as exportações desta commodity. O contrário vale para o etanol, uma vez que o mercado interno é o mais relevante.

Para o Cepea, cabe a questão: o mundo, e principalmente a China, continuarão a importar o açúcar brasileiro com a mesma intensidade neste ano? Caso positivo, a tendência seria de maior sustentação dos preços internacionais, favorecendo as receitas com exportação de açúcar.

“Outro aspecto parece ser a questão dos estoques mundiais, que devem ter se reduzido mediante a dificuldade de produção agrícola em diversos países”, afirmam.

Temendo o desabastecimento de açúcar, a China não renovou em 2020 a política de salvaguarda, que limita as importações de açúcar no país. Segundo o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), o país asiático tem o menor volume de açúcar estocado das últimas quatro temporadas. Com isso, o açúcar brasileiro poderá encontrar no ano de 2021 um voraz comprador, o que contribui para fortalecer a projeção do mix favorecendo o açúcar.

Mercado internacional

A Organização Internacional do Açúcar (OIA) prevê déficit na produção mundial de açúcar, de 3,5 milhões de toneladas, com a atual temporada mundial (2020/21) somando 171,1 milhões de toneladas, e o consumo, 174,6 milhões de toneladas.

Já o USDA prevê produção global de 181,86 milhões de toneladas e consumo de 173,76 milhões de toneladas. O USDA ressalta que as boas produções na Índia e principalmente no Brasil são as responsáveis pelo aumento no volume mundial. Na safra anterior, de 2019/20, a produção mundial foi de 165,49 milhões de toneladas de açúcar.

A Índia elevou a área cultivada com cana-de-açúcar em 9%, e, com isso, o maior consumidor mundial de açúcar deverá produzir 31 milhões de toneladas em 2020/21, segundo a Associação das Usinas de Açúcar da Índia (Isma, na sigla em inglês), aumento de 13% frente à temporada anterior. Já a produção na Tailândia foi castigada pela seca e, conforme o USDA, deve totalizar 7,9 milhões de toneladas, queda de 5% em relação ao ciclo anterior.

Pela terceira temporada consecutiva, a União Europeia deverá registrar recuo na produção. De acordo com o USDA, o bloco europeu deverá produzir 16,1 milhões de toneladas em 2020/21, volume 5,32% inferior ao de 2019/20. A queda está atrelada ao clima seco que atinge o bloco europeu por três anos e à incidência do vírus amarelo na beterraba açucareira, principalmente na França.

Queda na produção

A produção de açúcar deve ser menor na safra 2021/22, considerando-se que o Centro-Sul brasileiro atingiu recorde no volume em 2020, totalizando 38,09 milhões de toneladas, alta de 44,16% em relação ao ano anterior.

Adicionalmente, incêndios em alguns canaviais no período de seca prejudicaram a produção da cana-de-açúcar. Caso as chuvas da primavera e verão ocorram, mesmo que atrasadas, acredita-se que as perdas sejam minimizadas, mas ainda há incertezas quanto à intensidade do La Niña, fenômeno que pode diminuir a ocorrência de precipitações no Centro-Sul do Brasil nos próximos meses, de acordo com o Cepea.

Por enquanto, espera-se que a quantidade produzida de cana-de-açúcar disponível para moagem em 2021/22 seja de aproximadamente 585 milhões de t, segundo consultorias ligadas ao setor sucroenergético.

No que tange ao ATR, a estiagem foi favorável à cana-de-açúcar colhida em 2020, mas será prejudicial à cana a ser colhida em 2021. Na parcial da safra 2020/21 (de 1º de abril de 2020 até 1º de dezembro de 2020), foram obtidos 145,13 kg de ATR/tonelada de cana, e para 2021/22, as expectativas apontam para 138 kg de ATR/tonelada.

Cadastre-se em nossa newsletter