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O ciclo de baixa dos preços do açúcar desde a safra passada – que se aprofundou recentemente – fez sua primeira vítima no ano. Pressionada há meses por diversos pedidos de execução de dívidas na Justiça, a Clealco, dona de três usinas no Estado de São Paulo, protocolou ontem pedido de recuperação judicial, com débitos de cerca de R$ 1,3 bilhão.

O pedido ocorre pouco menos de um ano após a companhia acertar a reestruturação de uma dívida de quase R$ 900 milhões com vários bancos e após tentativa frustrada de buscar um sócio que a capitalizasse. Além da desvalorização do açúcar, a piora do cenário econômico também contribuiu para o plano de capitalização da companhia fracassar. “A janela de oportunidade da busca por capitalização, que era nosso objetivo três meses atrás, ficou um pouco comprometida”, afirmou Alberto Pedrosa, CEO da Clealco, ao Valor.

Acontece também em um momento crítico para empresas do setor que já vinham em dificuldades financeiras. Embora o dólar tenha disparado no primeiro semestre, o que costuma elevar a receita com as exportações de açúcar, as usinas têm dado preferência à produção de etanol, que é vendido no mercado interno, em reais. E a situação piora para empresas com parcela relevante da dívida em dólar, caso da Clealco. A companhia não divulgou qual é o tamanho dessa parcela.

A situação da Clealco agravou-se ainda por causa da deterioração de seus canaviais. Com o aperto de caixa, a empresa não conseguiu investir adequadamente em tratos culturais e na renovação das lavouras, o que tornou seus canaviais mais velhos e menos produtivos, reconheceu o executivo. Na safra passada (2017/18), encerrada em março, a Clealco processou 8 milhões de toneladas de cana, 10% menos que na temporada anterior. Na safra atual, a 2018/19, a moagem deve cair para 7 milhões de toneladas.

Com a falta de cana, uma das três usinas da Clealco, em Penápolis, está sem operar. As demais, em Queiroz e em Clementina, estão operando perto da capacidade máxima (4,5 milhões de toneladas e 3,5 milhões de tonelada de cana por safra, respectivamente).

Segundo Pedrosa, o pedido de recuperação judicial foi feito para manter a empresa operando e para recuperar sua capacidade de investimento em canaviais. “Queremos que a Clealco volte a ter moagem de 10 milhões de toneladas, o máximo atingido cinco anos atrás. Mas isso não é programa para um ano, mas para uns cinco”, afirmou.

Ele disse ser precipitado avaliar qual será o plano para conseguir recursos para pagar suas dívidas. Uma fonte a par do tema, porém, avaliou que a venda de usinas deverá ser a saída mais provável, uma vez que essa opção já era cogitada.

O balanço da Clealco na safra passada ainda não foi publicado. Mas, segundo Pedrosa, com menos produtos e o açúcar em baixa, a receita na safra 2017/18 recuou em ralação a 2016/17, quando faturou R$ 1,3 bilhão. A receita bruta da última safra, portanto, ficou abaixo da dívida inscrita na recuperação judicial.

Cerca de 75% da dívida incluída no pedido de recuperação referem-se a débitos com bancos, como Itaú, Rabobank e Santander. Já 13% referem-se a dívidas com fornecedores de cana, 10% são dívidas com equipamentos agrícolas e o restante dos credores são fornecedores diversos. Segundo Pedrosa, a Clealco não tem dívidas com os seus cerca de 3 mil empregados.

Fonte: Valor Econômico 

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