O mercado sucroenergético iniciou 2026 sob dinâmicas divergentes entre seus dois principais produtos. Enquanto o açúcar permanece sob pressão, refletindo um quadro de oferta global elevada e exportações aquecidas no Centro-Sul, o etanol segue em trajetória de valorização, sustentado por menor disponibilidade, estoques ajustados e consumo resiliente no mercado doméstico, de acordo com a análise da FG/A em seu mais recente boletim de commodities.
No campo produtivo, o Centro-Sul caminha para consolidar uma safra 2025/26 robusta, ainda que o volume moído até novembro apresente leve retração. Segundo a FG/A, a moagem acumulada chegou a 592,3 milhões de toneladas (-1,9%), mas o processamento total ainda pode se aproximar de 610 milhões de toneladas até março, sustentado pela boa disponibilidade de matéria-prima na reta final do ciclo. Em termos de qualidade, de acordo com o boletim, o ATR na segunda quinzena de novembro atingiu 133,8 kg por tonelada de cana (+6,8%), embora o acumulado da safra ainda registre queda de 2,5%.
Mesmo com essa combinação de menor volume e ATR mais fraco no acumulado, a produção de açúcar segue elevada. Conforme a FG/A, até a segunda quinzena de novembro o volume produzido já somava 39,9 milhões de toneladas. O mix direcionado ao adoçante também permaneceu alto, em 51,1%, acima dos 48,3% da safra anterior, sustentando a estimativa de uma produção próxima de 40,5 milhões de toneladas na temporada.
No mercado internacional, o viés de baixa também prevaleceu. Segundo a análise da FG/A, em dezembro os preços do açúcar permaneceram pressionados pela percepção de uma oferta global abundante. No Centro-Sul, os embarques seguiram acima da média, ampliando a disponibilidade no curto prazo, enquanto a safra indiana apresentou forte desempenho, com 11,9 milhões de toneladas produzidas desde outubro, alta de 25%, o que reforçou o viés baixista e limitou a recuperação das cotações.
Na bolsa de Nova York, o açúcar bruto (NY #11) encerrou o início de janeiro em 14,76 centavos de dólar por libra-peso, queda mensal de 0,3%, o equivalente a R$ 1.840 por tonelada, recuo de 1,3%.
Já no etanol, o movimento foi o oposto. De acordo com a FG/A, os preços mantiveram trajetória de valorização em dezembro, com o etanol hidratado líquido ao produtor subindo 3,6% e atingindo R$ 3,12 por litro. Esse desempenho reflete, segundo a consultoria, um balanço de oferta e demanda mais ajustado, em função da produção menor e do consumo ainda resiliente, o que limitou o crescimento dos estoques e manteve o mercado sensível à demanda.
Embora as vendas acumuladas até a segunda quinzena de novembro tenham recuado 2,4% frente ao mesmo período do ciclo anterior, a FG/A avalia que o pano de fundo do consumo segue positivo, já que o mercado de veículos do ciclo Otto avançou 2,7% no período.
Outro fator-chave foi o comportamento do açúcar. Segundo a FG/A, a perda de competitividade do adoçante ao longo do ciclo 2025/26 levou as usinas a aumentarem o direcionamento do mix para o etanol na reta final da safra, como forma de defender margens. Mesmo com esse maior direcionamento, o nível de estoques permaneceu baixo, mantendo o mercado sensível à oferta e garantindo preços mais elevados no último terço da temporada.
Nos postos, essa valorização também se refletiu. Em São Paulo, o etanol hidratado alcançou R$ 4,28 por litro em 27 de dezembro, alta de 3,1% no mês, enquanto a gasolina subiu 0,7%, para R$ 6,09, resultando em uma paridade de 70,3%. No Brasil, o etanol chegou a R$ 4,48 por litro (+3,5%), contra R$ 6,22 da gasolina, com paridade de 72,0%.
O conjunto dos dados indica que, na leitura da FG/A, o início de 2026 se desenha com um mercado de açúcar ainda limitado por excesso de oferta global, enquanto o etanol se consolida como o principal vetor de sustentação de preços e margens no Centro-Sul, apoiado por uma estrutura de oferta mais apertada e por uma demanda doméstica que permanece firme.
Natália Cherubin para RPAnews