A safra 2026/27 de cana-de-açúcar no Centro-Sul deve começar em abril com estoques de etanol em níveis historicamente baixos, refletindo o aperto observado ao longo do ciclo anterior, mas sem indicar risco estrutural de desabastecimento no curto prazo.
Levantamento da Argus Media aponta estoques de passagem de 1,79 milhão de m³, somando etanol anidro e hidratado — queda de 28% em relação ao mesmo período do ano anterior e o menor volume em seis anos, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária.
Esse montante equivale a cerca de 19 dias de consumo, considerando a mistura obrigatória de 30% de anidro na gasolina e a demanda total estimada para abril, um nível considerado apertado por agentes do mercado.
Na avaliação de Maria Lígia Barros, responsável pela precificação de etanol na Argus, o cenário exige atenção, mas não configura um risco de ruptura no abastecimento. “Os estoques estão, de fato, em patamar historicamente baixo, o que aumenta a sensibilidade do mercado a eventuais atrasos na moagem. Ainda assim, o fluxo de importações e a expectativa de uma safra robusta funcionam como amortecedores importantes”, explica.
A tendência, segundo o mercado, é de maior participação do etanol hidratado nesses estoques, enquanto a produção ainda avança de forma gradual. Embora algumas usinas tenham antecipado a moagem para março, a maior parte deve iniciar as operações apenas na segunda quinzena de abril.
As condições climáticas, no entanto, adicionam um fator de risco no curto prazo. As chuvas têm dificultado o avanço das operações antecipadas e, caso persistam, podem atrasar o ritmo de início da safra, gerando estresse pontual na oferta.
Nesse cenário, podem ocorrer atrasos logísticos e formação de filas para retirada de produto nas usinas. Ainda assim, o risco de falta efetiva de etanol é considerado improvável, principalmente diante do aumento das importações na entressafra.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços indicam que o Brasil importou 213,2 mil m³ de etanol nos dois primeiros meses do ano. Para março, a estimativa é de 129,1 mil m³, com base em dados da plataforma Kpler, enquanto outros 76,6 mil m³ são esperados para abril.
A expectativa do setor é de que a produção recorde projetada para a safra 2026/27 recomponha rapidamente os níveis de estoque à medida que a moagem ganhe tração. Diferentemente de ciclos anteriores, o início da temporada deve apresentar um mix mais direcionado ao etanol, favorecendo a recomposição da oferta do biocombustível.
Aperto vem da safra anterior
O atual cenário é resultado direto do balanço mais justo observado ao longo da safra 2025/26, que já começou com estoques reduzidos e enfrentou impactos relevantes na produtividade agrícola.
As condições climáticas adversas, com períodos de seca ao longo de 2024/25 e 2025/26, limitaram a produção, enquanto a demanda por etanol permaneceu firme.
De acordo com dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, a paridade favoreceu o etanol hidratado na maior parte do período entre junho de 2023 e dezembro de 2025, sustentando o consumo.
Mesmo com a reversão momentânea em favor da gasolina no fim de 2025, agentes de mercado indicam que a demanda seguiu resiliente durante a entressafra. A recente alta nos preços da gasolina em março, influenciada pelas tensões no Oriente Médio, voltou a favorecer o etanol em algumas regiões, reduzindo ainda mais os estoques no lado da distribuição.
Outro fator estrutural foi o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina para 30% (E30), implementado em agosto de 2025, ante os 27,5% anteriores, o que ampliou o consumo e contribuiu para a redução dos volumes armazenados. Segundo Maria Lígia Barros, o mercado inicia a nova safra em um ambiente mais apertado, mas com tendência de recomposição ao longo dos próximos meses, à medida que a moagem avance e o mix favoreça o etanol.
Natália Cherubin para RPAnews

