Conjuntura – Queimada de cana como causa de doenças respiratórias: estudos atuais não são conclusivos

Apesar de se continuar tentando atribuir à fuligem da cana a responsabilidade pelo agravo de doenças respiratórias crônicas, dados recentes do Ministério da Saúde e trabalhos científicos desmistificam o tema

Natália Cherubin

Diversos trabalhos científicos e matérias jornalísticas tentaram ao longo dos últimos 19 anos e, pasmem, ainda tentam, provar que a queimada programada da cana-de-açúcar – prática agrícola realizada para a colheita manual de cana, já banida no Estado de São Paulo, desde 2017, e reduzida drasticamente nos demais estados produtores do Centro-Sul – é a principal causadora ou agravadora de problemas de saúde respiratórios da população residente das cidades localizadas em regiões produtoras canavieiras.

Por outro lado, dados do Ministério da Saúde, levantamentos científicos e até mesmo especialistas da saúde trazem discussões interessantes e pertinentes a respeito das pesquisas realizadas sobre este tema. Podemos, de fato, colocar a culpa das doenças respiratórias crônicas, principalmente em idosos e crianças – que ocorrem com mais intensidade no inverno, ou seja, no período mais seco e frio do ano – no “carvãozinho” oriundo da cana-de-açúcar queimada?

A RPAnews reuniu os dados mais recentes publicados pelo Ministério da Saúde, pesquisas publicadas em canais científicos e a opinião de um renomado toxologista para mostrar que todas as proposições realizadas até hoje não puderam ser confirmadas cientificamente e, logo, não podem ser utilizadas como uma verdade absoluta.

Antes de mais nada, é preciso contextualizar que o fogo, como método de manejo agrícola, é utilizado milenarmente por diversas culturas no mundo inteiro. No Brasil, especificamente no que se refere à cultura da cana-de-açúcar, é importante ter em mente que cada região possui características próprias e singulares, tanto sob o ponto de vista ambiental, quanto sob a ótica social. E, neste contexto tão heterogêneo, a intenção não é a de discutir sobre a viabilidade do uso da queima como método pré-colheita, mas sim mostrar que as hipóteses que vêm sendo levantadas ao longo dos anos a respeito da fuligem da cana versus o incremento do surgimento de doenças respiratórias ainda não puderam ser comprovadas.

ESTUDOS NÃO PROVAM RELAÇÃO

Muitos dos estudos quiseram, ao longo dos últimos 19 anos, comprovar uma relação entre queimadas e doenças respiratórias, mas não conseguiram trazer dados que comprovassem tal hipótese. Helena Ribeiro, autora de um artigo publicado na Revista Saúde Pública, em 2008, por exemplo, na qual analisa estudos realizados sobre o tema entre 1996 a 2006, conclui que os estudos sugerem que uma parcela da população – sobretudo idosos, crianças e asmáticos – tem a sua saúde agravada pela queima da cana. Por que sugere e não comprova? Em um trecho de seu trabalho, cita um estudo realizado na cidade de Houma, Lousiana, EUA, também região produtora de cana-de-açúcar, no qual afirma que “os meses com maior número de internações foram entre outubro e dezembro (33,06% das internações), indicando aumento da tendência de hospitalização por asma nos meses de queima da palha da cana (Boopasthyet al 2002)”. Estes não seriam os meses mais frios nos Estados Unidos? Em outro trecho, ela afirma que “os poucos estudos sobre os efeitos da queimada da cana-de-açúcar dão algumas indicações de seus impactos à saúde da população em geral, mas ainda deixam muitos questionamentos”. Ou seja, é um trabalho não conclusivo.

A maioria dos estudos analisados não considera questões importantes como temperatura do ar e precipitações. Uma pesquisa realizada em Piracicaba, SP, onde foram quantificadas internações hospitalares diárias por doenças respiratórias em crianças e adolescentes (abaixo de 13 anos de idade) e em idosos com mais de 65 anos, utilizando dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus), mostrou que, no período de queima, houve 3,5 vezes mais internações que no sem queima (Cançado,2013). No entanto, o autor alerta “para fatores de confusão como temperatura do ar e precipitação, uma vez que grande parte do período de queima coincide com inverno e seca, não controlados no estudo”.

Paulo Eduardo Alves Camargo-Cruz, em seu trabalho de mestrado em Saúde Pública pela USP, publicado em 2015, fez um estudo sobre a relação entre as queimadas da cana-de-açúcar e a incidência de doenças respiratórias na mesorregião de Presidente Prudente, SP, verificando a evolução das queimadas e da produção de cana na região entre os anos de 2008 a 2011. Os resultados de seu trabalho mostram que, neste período, mesmo com um aumento do número de hectares de cana colhidos com queima prévia, associado ao aumento da produção de cana-de-açúcar, não houve aumento de internações por doenças respiratórias para as faixas etárias selecionadas.

“Ao retomarmos à hipótese do trabalho, à luz dos resultados verificados, constatamos que não se pode afirmar que há relação direta entre o aumento das queimadas para a colheita de cana-de-açúcar e a elevação no número de internações por doenças respiratórias no período abrangido por este estudo [2008 a 2011] e para as faixas etárias selecionadas [de 0 a 4 anos e de 60 anos ou mais]”, afirma o autor.

Um outro estudo sobre a percepção do estado de saúde, estilos de vida e doenças crônicas, comparando Brasil com o Estado de São Paulo, publicado em 2015 pelos pesquisadores da Fundação Seade (Sistema Estadual de Anália de Dados), Irineu Francisco Junior e Carlos Roberto Almeida França, mostra que em três das cinco faixas etárias, a média da população afetada por asma é maior na região Sudeste do que no Estado de São Paulo. Mas, ora, se há mais áreas com cana-de-açúcar no Estado de São Paulo do que nos demais estados da região Sudeste, os dados então não seriam diferentes se as afirmações a respeito da fuligem fossem verdadeiras?

Em 2016, um trabalho científico realizado por Catherine Copas Pontes, do departamento de Enfermagem e Saúde Pública da Universidade Estadual de Ponta Grossa, sobre e doenças respiratórias e o clima em municípios do Paraná no período de 16 anos revelou que, “dentre as variáveis climáticas, a que se mostrou mais correlacionada às doenças do aparelho respiratório em idosos, na maioria das localidades, foi a temperatura média do ar, com elevada significância estatística”.

No Nordeste, incidência ocorre justamente na entressafra

Lucia Guiomar Basto Fragoso de Almeida, em sua dissertação de mestrado no Instituto de Ciências Atmosféricas da Universidade Federal de Alagoas, analisou a influência da queimada da cana sobre doenças respiratórias como asma, pneumonia e bronquite nos municípios de São Miguel dos Campos, Matriz de Camaragibe e Penedo, no Estado do Alagoas entre os anos 2005 e 2007.

Além de dados de detecção de focos de queimadas e internações hospitalares diárias por doenças respiratórias, também foram utilizadas no estudo as normais climatológicas obtidas pelo Setor de Climatologia do Centro de Ciências Agrárias – CECA/UFAL e dados de chuvas coletados pela Diretoria de Meteorologia da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos de Alagoas.

De acordo com a autora, verificou-se que, ao contrário do que é observado na literatura, a zona canavieira do Estado de Alagoas possui práticas agrícolas opostas. Desta forma, o trabalho mostrou que as maiores incidências de doenças respiratórias ocorrem no inverno, justamente no período em que a queima de cana está paralisada na região.

“As morbidades aparecem durante todo ano, entretanto os meses de maior ocorrência são observados no período de inverno, como também observado na literatura. Em vários estudos anteriores, observou-se um aumento destas nos meses mais frios do ano. Contudo, verificou-se que nestes períodos não ocorreram a queima da palha da cana-de-açúcar.”

Nos municípios de São Miguel dos Campos, Matriz de Camaragibe e Penedo, os focos de queimadas foram registrados entre os meses de agosto a abril. As ocorrências dos maiores valores destes focos aparecem em novembro, janeiro e fevereiro. Já em São Miguel dos Campos, os picos de asma apareceram antes e logo após os períodos de maiores precipitações, ou seja, na medida em que as precipitações aumentam, os casos de asma também se elevam, de acordo com a pesquisadora. “A morbidade apresentada no município de Matriz de Camaragibe não foi bastante significativa, inclusive vale salientar que não houve registros em alguns meses durante os anos estudados, mostrando que pode ter ocorrido sub-notificação, dificultando a correlação com a queima da palha da cana-de-açúcar. Existiram alguns episódios onde os casos de internações antecedem as precipitações e algumas vezes mostram valores inversamente proporcionais.”

Em Penedo, a autora mostra que os focos de queimadas aparecem de forma contínua e constante nos três anos e sempre nos meses de novembro e janeiro, registrando de um a cinco focos. “Fica visível que a queima só ocorre realmente quando da menor incidência de precipitações. Quanto à morbidade apresentada, apesar de a doença manifestar-se durante todo o ano, os valores achados não parecem ter correlação com período de queima de cana-de-açúcar.”

DIMINUÍRAM AS DOENÇAS RESPIRATÓRIAS EM TODO PAÍS ENTRE 2003 E 2013

As chamadas DRC (Doenças Respiratórias Crônicas) representam cerca de 7% da mortalidade global, o que corresponde a 4,2 milhões de óbitos anuais, de acordo com os dados do último Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde, órgão do Ministério da Saúde, publicado em 2016. No Brasil, em 2011, as DRC foram a terceira maior causa de morte no conjunto de doenças crônicas não transmissíveis.

As principais DRC são as doenças pulmonar obstrutiva crônica, os estados alérgicos, a hipertensão pulmonar, algumas doenças relacionadas ao processo de trabalho e a asma, sendo esta a mais comum. O tabagismo, a poluição do ar, os alergênicos, os agentes ocupacionais, os fatores genéticos, sociais e relacionados ao estilo de vida são fatores de risco para a DRC e sua carga pode aumentar em decorrência do envelhecimento da população.

Um estudo sobre a morbimortalidade por DRC no Brasil e suas regiões geográficas, entre 2003 e 2013, mostrou que, durante este período, ocorreram mais de 6 milhões de internações hospitalares no SUS por DRC, com uma média das taxas de internação hospitalar igual a 329,0/100 mil habitantes. Os dados mostram que houve uma redução de 44,3% nesta taxa no país, que era de 434,4/100 mil habitantes em 2003 e passou para 241,8/100 habitantes em 2013. Na avaliação da taxa de internação hospitalar por DRC por faixa etária, as maiores foram observadas entre aqueles acima de 70 anos e menores de 1 ano de idade.

Conforme mostra a Figura 1, as regiões Sul e Sudeste apresentaram a maior e a menor taxa de internação hospitalar por DRC, respectivamente.

É possível analisar na Figura 1 que as principais regiões produtoras de cana-de-açúcar do País reduziram suas taxas de internações hospitalares por doenças respiratórias. No Nordeste, por exemplo, região produtora de cana que ainda faz colheita de cana queimada, a taxa caiu de 460,9/100 mil habitantes para 234,9/100 mil habitantes.

Em relação à mortalidade, no período, foram registrados pouco mais de 685 mil óbitos por DRC no país, com uma média das taxas de mortalidade de 32,6/100 mil habitantes, o que representa uma redução de 2,7% (34,5/100 mil em 2003 para 33,6/100 mil habitantes em 2013).

De acordo com o Boletim, no período avaliado houve redução da taxa de internações hospitalares no SUS e de mortalidade decorrentes de DRC. Ambas as taxas elevaram-se concomitantemente com o aumento da idade, principalmente no sexo masculino, embora a taxa de internação hospitalar seja também mais elevada em crianças. A principal causa de internação hospitalar no SUS por DRC foi a asma. A bronquite, o enfisema e as outras doenças pulmonares obstrutivas crônicas foram as principais causas de óbitos.

As taxas de internação hospitalar e de mortalidade por DRC de 2003 a 2013 foram maiores na região Sul. Ao mesmo tempo, a região Sudeste, que já vinha queimando menos cana, não conseguiu reduzir o índice de mortes por doenças respiratórias em 2013, índice que subiu, se comparado a 2008, como podemos ver na Figura 2.

TOXOLOGISTA TAMBÉM DESCARTA ASSOCIAÇÃO

Anthony Wong, pediatra especialista em toxicologia e diretor médico do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), veio, ao longo dos últimos anos, tentando esclarecer a verdade sobre algumas informações que vinham sendo veiculadas pela imprensa sobre a associação do aumento de incidência de doenças respiratórias nas regiões canavieiras com as queimadas.

A RPAnews conversou com Wong para saber sua opinião sobre o tema e ele afirma que, apesar de não ter conduzido mais nenhum estudo sobre o assunto na atualidade, continua crendo, diante dos dados do Ministério da Saúde, que não há como comprovar essa relação. De acordo com ele, os níveis de ocorrência nos municípios canavieiros são semelhantes aos de qualquer outro município do País, onde há o fenômeno da inversão térmica, independentemente da estação ou de queimadas. “Sabemos, que nos meses de junho, julho e agosto, no Hemisfério Sul, é maior a incidência de doenças respiratórias, mesmo nas épocas anteriores à industrialização, como decorrência da queda da temperatura e da inversão térmica. Mesmo assim, ele admite que é inegável que qualquer fonte de poluição pode agravar o quadro, seja ela natural (poeira, por exemplo), seja industrial.”

Em pesquisas realizadas por Dr. Wong no município produtor de cana de Catanduva, no Estado de São Paulo, constatou-se que o número de consultas por doenças respiratórias nos meses de janeiro a abril, quando não ocorria a queimada, era significativamente maior do que nos meses de setembro a dezembro. Situação bastante parecida de com o Estado de Alagoas.

“Não temos evidências científicas aceitáveis para associar incidência de doenças respiratórias com queimadas. Na época, quando fiz a pesquisa, pelas análises do ar, as infecções respiratórias que aconteciam eram muito mais relacionadas com o ar seco da região, com a temperatura da estação, do que com a queimada em si. Fizemos correlações e não enxergamos nada neste sentido. Posteriormente, foi apresentado um trabalho com testes em animais, mostrando que a queima produzia certas substâncias que eram danosas à saúde e que algumas destas substâncias poderiam, inclusive, provocar câncer de pulmão nos animais. Este tipo de estudo tem de ser visto de maneira muito crítica, porque quando você fecha um animal dentro de uma gaiola, a concentração da substâncias é bem diferente da concentração a qual a população ou mesmo o cortador de cana é exposto. Evidentemente, esse não é o ar que a população e nem os cortadores de cana respiram porque, enquanto está tendo a queimada, ninguém fica no canavial. Em segundo lugar, os animais ficam na terra, muito mais próximos ao chão, enquanto que os cortadores ficam a 1,50 m a 1,60 m de altura e, como a fuligem tende a sedimentar, esse estudo não consegue mostrar qualquer relação”, afirma o toxicologista.

Wong diz que, quando fez o levantamento com cortadores de cana, não encontrou nenhum aumento de doenças respiratórias e nem de câncer nessa população. “Não há estudos científicos mostrando que houve aumento de incidências de doenças respiratórias na população por conta disso. São dois fatores que aumentam a incidência de doenças respiratórias: o tabagismo e a época de inverno seco, devido à quantidade de particulados do ar e devido à própria inversão térmica. Com a inversão térmica, aumenta-se a concentração de ozônio no ar e o ozônio é um veneno respiratório. Principalmente para crianças e idosos, o inverno – quando há alta quantidade de ozônio devido à inversão térmica – é uma época de grande mortalidade e morbidade, justamente porque são pessoas com pulmão mais frágil”, explica.

O especialista ainda destaca que esse é um fenômeno não apenas brasileiro. É mundial. “No estado da Califórnia ou mesmo em qualquer outro estado dos EUA, é no inverno que as pessoas morrem mais. Não por causa do frio apenas. Independentemente do frio, elas acabam tendo mais doenças respiratórias devido aos gases que não conseguem escapar pela atmosfera e pela cobertura de nuvens da região”, explica.

A RPAnews apresentou ao Dr. Wong os dados divulgados em 2016 pelo Ministério da Saúde, que mostram queda nos índices de morbimortalidade por doenças respiratórias entre os anos de 2003 e 2013 em todas as regiões do País, até mesmo em regiões onde a queima da cana ainda existe, e ele comentou que, diante destes dados, é possível observar a não relação entre os dois fatores: fuligem de cana e saúde respiratória.

Wong comenta que um outro fenômeno importante, do qual as pessoas se esquecem, é que o pulmão é um órgão extremamente versátil quanto à eliminação de partículas de substâncias químicas. “Já está demonstrado que se a partícula tiver mais de dois micra de tamanho, ela não consegue chegar até o alvéolo, parando nos brônquios. Assim, as defesas do sistema pulmonar fazem varredura dessas substâncias e 99% são eliminadas em 24 horas. E a maior parte dos particulados menores, que fica em suspensão por ser muito fino, não consegue se depositar porque sai imediatamente no processo de respiração. Assim, pouca quantidade fica depositada no pulmão, sujeita ao processo de limpeza, que é extremamente eficiente. Isto não ocorre com idosos, que têm problema de enfizema decorrentes de poluição e por tabagismo, mas é problema que há em São Paulo, regiões canavieiras quaisquer, Estados Unidos e em qualquer outra cidade do mundo. O problema é fisiológico, devido à idade e não de substância particulada, qualquer que seja sua origem”, finaliza.