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Em lançamento de um programa ambicioso para reduzir a emissão de gases do efeito estufa, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, afirmou que a luta contra as mudanças climáticas será um elemento essencial na política externa da maior economia do mundo. Na Europa, a agenda do clima já vem sendo discutida há alguns anos, inclusive com pressões sobre o Brasil.

Mas é justamente do Brasil que pode vir uma das principais ferramentas para reduzir as emissões de CO2. De acordo com o diretor-executivo da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), Eduardo Leão de Sousa, cerca de 25% das emissões estão ligadas ao setor de transporte. Diante disso, o etanol feito a partir da cana-de-açúcar pode ser parte da solução.

Sousa explica que o biocombustível feito a partir da cana-de-açúcar é o que mais consegue absorver CO2 ao longo de seu ciclo de vida. “Tem capacidade para reduzir em até 90% as emissões quando comparado com a gasolina”, comenta. Isso se deve, segundo ele, a um sistema de produção que reduz a pegada de carbono, usando colheita mecanizada e produzindo bioeletricidade a partir do bagaço.

O diretor da Unica exemplifica a importância do biocombustível com a cidade de São Paulo. Em número de habitantes, é a quarta maior do mundo. Na lista das mais poluídas, está para lá do milésimo lugar. “Isso se dá, basicamente, em função da alta utilização de etanol em São Paulo, o que é uma consequência do diferencial tributário concedido pelo governo do estado e pela proximidade com boa parte das usinas.”, diz.
Lições aprendidas durante a pandemia.

Diversos países precisaram realizar lockdowns totais ou parciais durante a pandemia da Covid-19. O isolamento social levou à redução de mobilidade e, consequentemente, ao menor consumo de combustíveis. Foi então que a população mundial notou o impacto dos combustíveis fósseis sobre o meio ambiente e sobre a saúde pública.

“Esse é um aspecto que pode e vai beneficiar a utilização de biocombustíveis, como o etanol. Ele praticamente zera a emissão de material particulado, que é o grande causador dessas doenças cardiovasculares e respiratórias que tiram a vida de milhões de pessoas”, diz Souza.

Além disso, a Unica registra um forte crescimento no uso de etanol na produção de sanitizantes, como álcool em gel. “É também uma tendência que veio para ficar. As pessoas perceberam a importância da higienização das mãos e superfícies”, relata.
Ferramenta de mercado

A produção de etanol ajudou os produtores de cana-de-açúcar a reduzirem os riscos da atividade, dosando o mix sucroenergético com base no que está remunerando melhor. “Nos dois últimos anos em que o preço do açúcar estava muito desfavorável, ampliamos a renda em 20% migrando para produção de etanol”, lembra.

E não é só o Brasil que tem visto o biocombustível como ferramenta para resolver problemas de mercado. O diretor da Unica conta que a Índia, historicamente uma grande produtora de açúcar, despertou para o fato e tem aumentado sua produção de etanol.

“Eles exportam muito açúcar com subsídios e perceberam que em vez de subsidiar esse excedente de açúcar, poderiam transformar em etanol. É a solução que encontraram para manter 50 milhões de produtos no campo. Levando em conta uma família média de quatro pessoas, é quase um Brasil inteiro”, diz.
Etanol vs. energia elétrica

Grandes potências econômicas estão de olho em veículos elétricos. Porém, o diretor da Unica defende que o futuro vai requerer uma mobilidade plural em relação aos combustíveis.

“Serão diferentes tecnologias sendo utilizadas em diferentes regiões. Países que conseguem produzir biomassa de forma abundante e sustentável seguramente terão mais vantagens em descarbonizar sua matriz de transporte por meio de biocombustíveis. Já as nações de clima temperado têm mais dificuldades, por isso estão partindo para carros elétricos”, diz.

Ele lembra, ainda, que os carros elétricos precisam de energia que nem sempre é gerada de forma totalmente sustentável. “É importante se considerar isso quando se olha para o carro elétrico como tecnologia para reduzir emissões. Emissão zero não existe”, pontua.

Outro fator limitante é o recurso gasto pelos governos para estimular a compra de carros elétricos. Segundo Sousa, o subsídio concedido na União Europeia varia de 8 a 20 mil euros, valor que supera o preço médio de um carro no Brasil.

Pensando em países continentais como o Brasil, o investimento em infraestrutura também pode dificultar o uso de carros elétricos. Segundo o diretor da Unica, a Empresa de Planejamento Energético (EPE), ligada ao Ministério de Minas e Energia, estima que para criar uma rede de distribuição de energia elétrica seriam necessários US$ 250 bilhões, cerca de R$ 1,3 trilhão na cotação atual da moeda norte-americana. Para se ter uma ideia, esse é praticamente o valor da dívida pública do Brasil.

“Para que faríamos isso se temos hoje o combustível mais limpo do mundo e 40 mil postos de distribuição? Tem que se pensar múltiplas soluções para múltiplas realidades”, frisa.
Futuro do etanol brasileiro

No Brasil, o RenovaBio foi criado com o objetivo de diminuir a emissão de gases do efeito estufa em 10% no prazo de 10 anos. Segundo Sousa, caso seja cumprida a meta do programa, a produção de etanol tem espaço para crescer 50% neste período.

Para o diretor da Unica, o RenovaBio já é uma realidade. Em seu primeiro ano, além de ser amplamente adotado pelos produtores, também foi abraçado pelas distribuidoras, que cumpriram com praticamente 100% da meta, por meio da compra dos CBios emitidos pelas usinas que integram o programa.

Questionado se o fato de a principal estatal do país — a Petróbras — ser uma empresa focada em petróleo vai atrapalhar, Sousa diz que houve certa resistência no início do programa, mas isso é normal em mudanças de paradigma e teria acontecido também nos Estados Unidos, quando uma iniciativa semelhante foi implementada.

Como dito, para cumprir a meta de reduzir em 10% as emissões de gases do efeito estufa em 10 anos, o Brasil vai ter que aumentar sua produção de etanol em 50%. Além desse crescimento expressivo, países têm antecipado metas de descarbonização, como a Índia, que iria aumentar sua mistura de etanol à gasolina de 6% para 20% até 2030, mas resolveu baixar o prazo para 2025. “É uma notícia muito boa para os indianos e para todo o mundo, neste combate às mudanças climáticas, ao aquecimento global”, pontua.

A concorrência com a Índia ou com futuros novos produtores de biocombustíveis é vista com bons olhos pela Unica. A entidade acredita que com o aumento na oferta, países terão mais segurança para acelerar seus projetos de descarbonização. “Isso faz a roda girar, e poderemos transformar o etanol em uma real commodity, como açúcar, soja e o petróleo. Esse é o nosso desejo”, afirma.
Etanol de milho

No mesmo espírito, Sousa diz que a produção de biocombustíveis a partir de outras matérias-primas também é bem-vinda. Além de garantir a segurança energética mencionada há pouco, faz todo sentido econômico.

Além de usinas dedicadas à produção de etanol de milho, o Brasil possui plantas flex, que na entressafra da cana-de-açúcar trabalham com etanol de milho. Isso otimiza os custos da indústria. “São muito sustentáveis, porque utilizam fontes renováveis para geração de energia elétrica, o que não é uma realidade fora do Brasil”, diz.

O presidente da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), Guilherme Nolasco, afirma que desde que o setor começou a se organizar, a ideia era “surfar da onda da economia verde”, sendo um biocombustível que mitiga mais de 70% dos gases do efeito estufa em relação à gasolina.

Segundo ele, a produção brasileira tem um outro diferencial que beneficia o meio ambiente: o fato de o milho usado como matéria-prima ser produzido como segunda safra. “Isso requer menos queima de combustível e tratos culturais, com aproveitamento da primeira cultura. Esse é outro ativo ambiental”, afirma Nolasco.

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