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Fim do risco sacado (e não o E2G) explica disparada na dívida da Raízen

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Empresa já trocou R$ 10,9 bilhões em operações de risco sacado por linhas de capital de giro com bancos

A dívida da Raízen explodiu entre 2024 e 2025 não por um movimento agressivo de expansão nem por um descontrole de custos, mas em grande parte por uma decisão da atual gestão de transferir o custo de aquisição de produtos para a linha de custo financeiro.

Desde o início de 2025, a companhia passou a realizar operações de financiamento de capital de giro para comprar os combustíveis para sua operação de distribuição, no lugar de realizar operações de risco sacado.

Desde o início da safra 2025/26, a companhia já desmontou R$ 10,9 bilhões em operações de risco sacado e trocou-as por dívidas convencionais de capital de giro com bancos. Este valor representou boa parte do aumento da dívida no último ano.

Em 12 meses, a dívida bruta da companhia cresceu R$ 18 bilhões, passando de R$ 52 bilhões para R$ 70 bilhões. Há um ano e meio, a dívida da companhia era metade do que era hoje, e somava R$ 35 bilhões na passagem da safra 2023/24 para a 2024/25.

A ideia é que, ao transferir um passivo que era comercial para a linha financeira, a empresa aumentaria sua margem operacional e teria, ao fim, um custo menor. O cálculo foi de que o custo com juros pagos aos fornecedores estava maior do que o custo com juros aos bancos. Sem o risco sacado, a Raízen passou a pagar seus fornecedores à vista – e com desconto.

A operação de risco sacado consiste no adiantamento do pagamento ao fornecedor por um banco, e no pagamento por parte da empresa ao banco, nas condições de pagamento a prazo. Por serem operações de prazo curto, as operações de risco sacado não entram na conta da dívida.

O balanço do terceiro trimestre mostra os resultados comerciais desta estratégia. A margem de lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ajustado de combustíveis da Raízen teve um aumento de R$ 56 por metro cúbico em comparação com o mesmo período da safra passada e alcançou R$ 215 por metro cúbico.

Porém, nos últimos meses, houve também um efeito exógeno no mercado de distribuição: a Operação Carbono Oculto. O desbaratamento de fraudes nos combustíveis associada ao crime organizado abriu espaço para que as grandes distribuidoras aumentassem sua participação no mercado de combustíveis e conseguissem melhorar sua política de preços.

Por isso, só será possível ter uma dimensão do real efeito da política da Raízen de acabar com o risco sacado quando suas grandes concorrentes, como Vibra e Ultra, dona da Ipiranga, divulgarem seus balanços, em março.

Nos últimos 12 meses, não houve avanço dos investimentos da companhia que justifiquem um aumento da alavancagem, e a dívida contratada para o crescimento da empresa em etanol de segunda geração (E2G) já havia sido contratada e estava no balanço de um ano atrás.

No acumulado desta safra de abril a dezembro, a Raízen investiu 23% menos do que no mesmo período da safra passada, saindo de R$ 7,1 bilhões para R$ 5,4 bilhões.

A alta da Selic também explica o aumento da dívida da companhia e a alta do serviço da dívida. Tirando o efeito da gestão do passivo, o accrual da dívida (contagem do valor devido considerando o custo com juros) acrescentou cerca de R$ 7 bilhões à conta da dívida bruta.

Nos nove meses da safra atual, a Raízen divulgou que já gastou R$ 7,6 bilhões com o serviço de sua dívida, um valor R$ 3,7 bilhões maior do que no mesmo período da safra passada.

Globo Rural| Camila Souza Ramos

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