Irrigação de cana-de-açúcar: é melhor no final de safra?

A coluna especial sobre irrigação de cana-de-açúcar, realizado pela RPAnews em parceria com a Embrapa Cerrados, traz uma série conteúdos que mostram quais são os fatos e mitos a respeito da irrigação em cana-de-açúcar. Na coluna de hoje, Vinicius Bof Bufon, pesquisador da Embrapa Cerrados, traz uma controvérsia. Confira:

É melhor irrigar canavial colhido em final de safra?

irrigação de can

Essa é uma questão controversa. Há casos de projetos e usinas com a totalidade de sua área irrigada e que, por isso, não precisam fazer essa escolha. Mas esses são exceções. Na maior parte dos casos, será necessário decidir qual canavial irrigar, seja por limitação de recursos para investir em irrigação, seja por limitação de disponibilidade de água ou por outros fatores.

Essa afirmação de que o melhor canavial a ser irrigado é o de final de safra é bastante recorrente no setor. Geralmente, o argumento tem origem na observação de que a maior quebra de produtividade ocorre no canavial colhido nesse período.

Diferente da cana colhida em início de safra, que passa a estação seca ainda jovem, quando ela tem pouca biomassa para ser sustentada, o canavial de final de safra ultrapassa a estação seca já adulta, com enorme biomassa e demanda hídrica justamente quando a oferta de chuva é menor. Por isso, geralmente, o canavial de final de safra é o que mais sofre com o estresse hídrico. Nesse sentido, mais por análise empírica do que por experiência em produção irrigada, imagina-se que o canavial de final de safra deveria ser priorizado para receber um sistema irrigado de produção.

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Irrigação em cana: Veja mais um MITO

Contudo, ao longo dos últimos dez anos, experimentos realizados pela Embrapa Cerrados têm revelado outra realidade quando se parte para a prática da produção irrigada de cana. Acompanhe as evidências que temos encontrado em campo:

  • No longo prazo, os maiores ganhos de produtividade (ATR/ha – açúcar total recuperável por hectare) não vêm da escolha do canavial que será irrigado (de início, meio ou final de safra), mas do domínio do sistema de produção irrigado, o que depende da seleção da variedade, adoção das melhores estratégias de manejo da irrigação, fertilidade do solo e do trato fitossanitário.
  • Como já explicitado no artigo anterior (ver https://revistarpanews.com.br/irrigacao-de-cana-veja-mais-um-mito/), é maior a probabilidade de acerto do dry-off (déficit hídrico controlado causado intencionalmente para atingir valores máximos de ATR por hectare) em canavial irrigado de meio de safra.
  • À medida que uma usina amplia sua experiência em implantação de sistemas irrigados de produção, ela passa a analisar a área irrigada como um projeto financeiro ou um negócio em si mesmo – quase com um CNPJ próprio, e trata essas áreas não como um talhão a mais no contexto geral da usina, mas como um investimento que precisa entregar o maior retorno financeiro possível. Quando essa visão predomina, compreende-se que o custo do projeto de irrigação por tonelada de cana (ou de açúcar) para um canavial colhido em final de safra é muito maior do que o custo de um colhido entre o início e o meio da safra.

Isso porque o canavial de final de safra passará sua fase mais jovem e de menor demanda no período do ano com maior abundância de chuva e a fase adulta justamente no período mais seco do ano, quando deve ser mais irrigado. Por isso, demandará um projeto com capacidade de entregar uma lâmina diária maior e, portanto, será mais caro. Por outro lado, um canavial colhido no início ou meio de safra passa pelo período seco quando ainda está jovem, pequeno e com menor demanda hídrica e de irrigação.

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Quando atingir a idade adulta, com maior biomassa e demanda hídrica, já estará no período chuvoso e a demanda de irrigação cairá abruptamente. Quando terminar o período chuvoso, o canavial estará formado e, apesar de ainda ter grande demanda hídrica, as plantas estarão na fase de maturação e será a hora de reduzir a irrigação e começar o dry-off. Isso explica porque canavial de início e meio de safra consegue ser atendido satisfatoriamente com um projeto de lâmina de irrigação inferior quando comparado àquele colhido no final de safra.

  • A inclusão de sistemas irrigados em uma fração da área da usina aumenta não apenas a produtividade dessa fração, mas também a das áreas de sequeiro, além de reduzir seu custo de produção.

Isso acontece por várias razões. Em áreas irrigadas, importa menos a capacidade de armazenamento de água do solo e, portanto, podemos direcionar os equipamentos de irrigação para os piores ambientes. Consequentemente, libera-se mais área de ambiente melhor para ser colhido no final da safra.

Outro fator é que o plantio da área irrigada pode ser deslocado para o período mais seco. Com isso, reduz-se a demanda de frota e de mão-de-obra para o plantio de março. Com isso, uma maior fração do canavial de sequeiro pode ser plantado em condições ótimas e com menores custos.

  • Considerando que a grande maioria das usinas no Brasil não possui experiência com sistemas modernos de produção irrigada de cana e que o aprendizado dessa tecnologia necessita de algum tempo e experiência prática, entendemos que é mais fácil começar a dominar a tecnologia com um canavial irrigado para colheita no meio da safra.

Por essas e outra razões, não chegamos a dizer que afirmação é um mito, mas entendemos que a melhor escolha, para a maioria das usinas, é irrigar a cana colhida no meio da safra, entre o início de julho e, no mais tardar, até a primeira quinzena de agosto.

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